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De Bilionário a Condenado À Prisão: Quem Era o Fundador da Evergrande

Hui Ka Yan saiu de uma região rural da China, trabalhou por uma década como técnico em uma siderúrgica e construiu uma das maiores incorporadoras do país. Em 2017, sua fortuna chegou a US$ 45,3 bilhões

7 min

Hui Ka Yan construiu sua fortuna apostando que o mercado imobiliário chinês continuaria crescendo. Durante anos, a estratégia funcionou: a Evergrande tomava dinheiro emprestado, comprava terrenos, construía apartamentos e os vendia rapidamente, alimentando um ciclo de expansão que transformou a companhia em uma das maiores incorporadoras da China.

O mesmo modelo que levou Hui ao topo do ranking dos mais ricos da Ásia acabou contribuindo para sua queda. Nesta quinta-feira (20), o fundador da China Evergrande Group, de 67 anos, foi condenado à prisão perpétua por um tribunal de Shenzhen. A Justiça chinesa também determinou o confisco de todos os seus bens pessoais e a perda de seus direitos políticos por toda a vida. Hui havia se declarado culpado, em abril, de oito acusações, incluindo fraude na captação de recursos, uso indevido de fundos, tomada ilegal de depósitos públicos e suborno.

A sentença encerra uma das maiores histórias de ascensão e queda do capitalismo chinês das últimas décadas.

De uma vila rural à Evergrande

Hui nasceu na província de Henan, no centro da China, e foi criado pela avó em uma área rural. Depois de se formar em 1982, começou a trabalhar como técnico em uma siderúrgica, onde permaneceu por cerca de dez anos.

Em 1996, fundou a Evergrande em Guangzhou. A empresa começou no mercado imobiliário em um momento em que a urbanização chinesa criava uma demanda crescente por moradias e novos empreendimentos.

Hui identificou uma fórmula simples para ganhar escala: vender imóveis a preços competitivos, reduzir o tempo necessário para transformar terrenos em vendas e usar dívida para financiar a expansão.

A Evergrande passou a acumular terrenos e projetos em centenas de cidades. Em 2009, Hui levou a companhia à Bolsa de Hong Kong, ampliando o acesso ao mercado de capitais.

A escala cresceu rapidamente. Em 2020, a Evergrande registrou cerca de US$ 100 bilhões em vendas anuais e havia se tornado a maior incorporadora da China por vendas.

Como Hui se tornou bilionário

A fortuna de Hui estava diretamente ligada ao valor da Evergrande na Bolsa de Hong Kong. Quando as ações da companhia dispararam em 2017, seu patrimônio acompanhou o movimento.

Naquele ano, a Forbes colocou Hui no topo da lista dos chineses mais ricos, com uma fortuna estimada em US$ 42,5 bilhões. A alta das ações da Evergrande havia acrescentado cerca de US$ 32 bilhões ao seu patrimônio em apenas um ano.

Pouco depois, a fortuna atingiu seu pico de US$ 45,3 bilhões, segundo a Forbes. Hui se tornou o homem mais rico da Ásia, à frente de nomes como Jack Ma e Ma Huateng.

Grande parte dessa riqueza, portanto, não estava em dinheiro disponível em uma conta bancária. Era composta principalmente pela participação de Hui na própria Evergrande e refletia o valor atribuído pelo mercado à companhia.

Enquanto a incorporadora crescia, Hui também diversificava seus negócios. Seu grupo investiu em futebol, parques temáticos, saúde, água mineral e veículos elétricos. O projeto de carros elétricos chegou a ser apresentado como uma tentativa de transformar a Evergrande em uma potência da indústria automobilística.

Hui também passou a circular entre as elites empresariais e políticas da China. Em 2021, participou das comemorações do centenário do Partido Comunista Chinês em Pequim, um sinal da posição que havia alcançado dentro do ambiente empresarial do país.

A dívida que sustentou o império

O problema estava no outro lado da equação. Para manter o ritmo de expansão, a Evergrande acumulou uma das maiores montanhas de dívida corporativa do mundo. A companhia usava novos financiamentos para adquirir terrenos e desenvolver projetos enquanto dependia da venda de imóveis para gerar caixa e cumprir seus compromissos.

Esse mecanismo funcionava enquanto compradores continuavam chegando, os preços dos imóveis sustentavam o valor dos terrenos e os credores permaneciam dispostos a financiar a empresa.

Quando o mercado imobiliário chinês perdeu força, a estrutura ficou vulnerável. Em 2021, a Evergrande deixou de pagar obrigações no exterior. A companhia passou a enfrentar uma crise de liquidez que se transformou em um processo de reestruturação envolvendo credores, bancos, compradores de imóveis e autoridades chinesas.

As responsabilidades da empresa chegaram a mais de US$ 300 bilhões. Em 2023, a Forbes estimava o total em US$ 327 bilhões. A dimensão da dívida transformou a Evergrande em um dos principais símbolos da crise imobiliária chinesa. O problema deixou de ser apenas o balanço de uma incorporadora: passou a envolver o financiamento de imóveis, fornecedores, bancos, investidores e governos locais.

O colapso da fortuna

A queda das ações da Evergrande destruiu a maior parte do patrimônio de Hui. A fortuna de US$ 45,3 bilhões registrada no auge havia recuado para cerca de US$ 3 bilhões em 2023, segundo estimativas da Forbes. A maior parte do patrimônio remanescente ainda estava relacionada a ativos e participações vinculados ao império empresarial construído por Hui.

Em outras palavras, a mesma concentração patrimonial que multiplicou sua riqueza durante a alta da Evergrande funcionou no sentido contrário quando a empresa perdeu valor.

A companhia acabou sendo ordenada à liquidação por um tribunal de Hong Kong em 2024, depois de anos de negociações com credores. Hui, que já estava sob custódia havia anos, foi submetido ao processo criminal na China. Em abril de 2026, declarou-se culpado de oito acusações.

O fim do império

A sentença desta quinta-feira acrescenta uma última etapa à derrocada. Além da prisão perpétua de Hui, o tribunal de Shenzhen determinou multas de 8,82 bilhões de yuans para o Evergrande Group e de 7 bilhões de yuans para a Evergrande Real Estate. As empresas e seu fundador foram responsabilizados por crimes que incluem fraude financeira, ocultação de passivos, captação ilegal de recursos e divulgação irregular de informações.

Segundo a sentença, as práticas atribuídas a Hui e às empresas “perturbaram seriamente” o mercado imobiliário chinês e provocaram perdas econômicas relevantes.

A trajetória de Hui Ka Yan deixa, assim, um contraste raro mesmo entre as grandes fortunas empresariais: em menos de uma década, ele passou de um patrimônio de US$ 45,3 bilhões para a perda de sua riqueza e, agora, para uma sentença de prisão perpétua.

Em 2017, a valorização da Evergrande havia acrescentado bilhões de dólares ao patrimônio do empresário. O mercado estava precificando a capacidade da companhia de continuar crescendo. Anos depois, a mesma empresa se tornou um dos maiores exemplos dos riscos de financiar expansão imobiliária com dívida em uma economia cujo mercado de propriedades começava a perder força.

Hui construiu a Evergrande apostando que o ciclo de crescimento continuaria. A condenação desta quinta-feira marca o ponto final dessa aposta, e transforma o antigo homem mais rico da Ásia em um dos rostos mais conhecidos da crise que encerrou aquele ciclo.

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