O Ibovespa reduziu as perdas no fim do pregão, mas ainda fechou em queda nesta sexta-feira, a nona seguida, em meio à saída de estrangeiros da bolsa paulista, com o último pregão da semana também marcado por vencimento de opções sobre ações e repercussão de balanços.
O movimento recente mais negativo tem como pano de fundo preocupações com o efeito do nível elevado de juros na atividade econômica e a perspectiva fiscal do país, além de incertezas eleitorais e geopolíticas.
Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 0,1%, a 166.934,20 pontos, acumulando uma perda de 3,23% na semana. Na mínima do dia, chegou a 164.835,38 pontos. Na máxima, a 167.099,46 pontos.
Com tal desempenho, o Ibovespa completou a maior série de perdas desde as 13 quedas seguidas de 1º a 17 de agosto de 2023. Na atual sequência de nove baixas, acumulou um declínio de 6,22%, que reduziu ainda mais a alta no ano, agora para 3,61%
O volume financeiro nesta sexta-feira somou R$30,08 bilhões.
O movimento dos estrangeiros tem sido determinante para o ajuste negativo. Após saldo positivo em julho, dados da B3 mostram uma saída líquida de R$13,56 bilhões em capital externo da bolsa em agosto até o dia 12.
De acordo com o especialista em mercado de capitais Josias Bento, sócio da GT Capital, o estrangeiro segue tirando dinheiro da bolsa e voltando para mercados mais maduros como EUA, com alocações mais voltadas para tecnologia e inteligência artificial.
Ele ressaltou, contudo, que a eleição presidencial no país também está no radar, trazendo muita volatilidade para o Ibovespa, “além do fiscal, que segue indefinido e sem um plano de contingência para os próximos anos”.
“Tudo isso está fazendo o Ibovespa entregar praticamente toda a alta de 2026”, acrescentou, lembrando que o Ibovespa chegou a se aproximar dos 200 mil pontos mais cedo no ano. Em meados de abril, superou 199 mil pontos pela primeira vez no intradia.
DESTAQUES
• BRASKEM PNA fechou em queda de 7,68%, revertendo os ganhos do começo do pregão, um dia após a petroquímica reportar um lucro líquido de R$3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, revertendo prejuízo de R$267 milhões registrado no mesmo período do ano anterior. Na teleconferência com analistas nesta sexta-feira, executivos da companhia afirmaram que os próximos anos serão de ambiente desafiador e destacaram que a prioridade é avançar em estrutura de capital sustentável. Também afirmaram que a negociação com bancos e detentores de dívida está “avançando bem” com conversas “construtivas”.
• YDUQS ON recuou 5,18%, após o grupo de educação reportar lucro líquido ajustado de R$14 milhões no segundo trimestre, queda de 54,2% e abaixo do esperado por analistas. Na teleconferência sobre o resultado, o CEO afirmou ver trajetória positiva após a Copa do Mundo e citou perspectiva positiva para 2027. De acordo com analistas do Citi, a mensagem da administração foi bastante otimista em relação às perspectivas para os próximos meses. “No entanto, os resultados recentes foram fracos e o cenário econômico continua desafiador. Por isso, é compreensível que os investidores ainda estejam cautelosos, o que provavelmente explica a queda das ações observada hoje”, afirmaram em relatório a clientes.
• CPFL ENERGIA ON cedeu 4,49%, tendo também no radar o balanço, que mostrou lucro líquido de R$1,44 bilhão no segundo trimestre, 21,3% maior do que o apurado um ano atrás, com o crescimento do mercado da distribuição de energia apoiado pela demanda residencial e de data centers.
• LOJAS RENNER ON perdeu 2,61%, tendo como pano de fundo relatório do UBS BB cortando a recomendação dos papéis da varejista para neutra, bem como o preço-alvo de R$18 para R$13,50. De acordo com os analistas do banco, embora a Lojas Renner tenha uma posição financeira sólida, com bastante dinheiro em caixa e recompense seus acionistas por meio de dividendos e recompra de ações, “ainda não há sinais convincentes de que a empresa conseguirá ganhar participação de mercado de forma mais acelerada e continuar tendo um desempenho superior ao restante do setor”.
• MINERVA ON avançou 5,26%, em pregão de ajustes, após queda de 7,6% na véspera, em meio à repercussão do balanço do segundo trimestre. Divulgado na noite de quarta-feira, o balanço da maior exportadora de carne bovina da América do Sul mostrou lucro líquido de R$197 milhões, queda de 57% em relação ao mesmo período do ano anterior. Analistas da XP avaliaram que a Minerva entregou um trimestre sólido, mas destacaram que a visibilidade para segundo semestre segue limitada e nível de endividamento “dificilmente” deve reduzir as preocupações no curto prazo.
• HAPVIDA ON subiu 4,99%, também buscando uma recuperação, após o tombo de 33% no pregão anterior. Na quarta-feira, a companhia divulgou um recuo de 95,8% no lucro do segundo trimestre ano a ano, enquanto o Ebitda ajustado somou R$504,4 milhões, queda de 44,3%. Analistas do Itaú BBA destacaram que a frustração no Ebitda e a reaceleração dos novos depósitos judiciais aumentam significativamente a dificuldade de avaliar um nível normalizado de rentabilidade daqui para frente.
• EMBRAER ON avançou 2,43%, mantendo a trajetória positiva em agosto, quando fabricante de aviões já soma uma alta de quase 14%. A companhia informou na noite de quinta-feira que o seu conselho de administração declarou o pagamento de juros sobre o capital próprio referentes ao terceiro trimestre no montante total de R$154 milhões. Ainda no radar, analistas do JPMorgan elevaram o preço-alvo dos papéis para R$135 ante R$98 e reiteraram recomendação “overweight”, destacando que ainda veem as ações em níveis atrativos.
• PETROBRAS PN valorizou-se 0,45%, endossada pela alta dos preços do petróleo no mercado internacional.
• VALE ON perdeu 0,83%, em linha com outras mineradoras no exterior. Na China, contrato futuro de minério de ferro mais negociado na Bolsa de Mercadorias de Dalian encerrou o pregão diurno com alta de 0,42%, a 710,5 iuanes (US$105,36) por tonelada, reduzindo sua perda semanal para 0,77%.
• ITAÚ UNIBANCO PN subiu 1,8%, revertendo as perdas de parte do pregão e encerrando uma série de seis pregões com fechamento negativo. No setor, BTG PACTUAL UNIT avançou 1,51%, BANCO DO BRASIL ON fechou em alta de 0,93% e SANTANDER BRASIL UNIT valorizou-se 0,34%. BRADESCO PN caiu 0,72%. NUBANK, que é listada nos EUA, saltou 9,33%, após registrar lucro líquido trimestral acima de US$1 bilhão pela primeira vez, superando as estimativas de analistas. A receita total cresceu 39%. O custo do crédito, que pesou sobre as ações no trimestre passado após subir a US$1,79 bilhão, recuou para US$1,69 bilhão, ainda que com alta de 60% na comparação anual.
Dólar
O dólar fechou a sessão em alta firme contra o real, na contramão do exterior, marcando a maior sequência de altas diárias do ano em meio a um movimento de aversão ao risco nos mercados brasileiros e acumulando na semana uma valorização de 2,7%.
O dólar à vista fechou o dia com alta de 0,61%, aos R$5,2213 na venda, maior cotação desde 30 de março. Foi a quinta sessão consecutiva de alta — mais longa sequência desde dezembro do ano passado, quando houve sete altas seguidas. No ano, a moeda norte-americana agora tem queda de 4,88% ante o real.
A desvalorização do real — que nesta sessão acompanhou queda do Ibovespa e alta generalizada dos juros futuros — se dá em meio a uma saída de capital do mercado brasileiro, à medida que grandes fundos reduzem sua exposição ao Brasil no período pré-eleitoral. Após saldo positivo em julho, dados da B3 mostram uma saída líquida de R$13,56 bilhões em capital externo da bolsa em agosto até o dia 12.
Em meio a preocupações com as perspectivas fiscais no país e as incertezas em torno das eleições presidenciais, o mercado aguardava nesta sexta a divulgação da primeira pesquisa Quaest contratada pela TV Globo sobre a eleição de outubro, prevista para o final do dia.
Já no exterior o dólar tinha queda após dados dos EUA mostrando uma queda inesperada das vendas no varejo em julho reforçarem apostas do mercado de que o Federal Reserve não elevará a taxa de juros em setembro. O indicador veio após dados benignos de inflação nos EUA esta semana já terem contribuído para essa tendência. Às 17h15, o índice do dólar — que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas — caía 0,27%, a 99,652.
Petróleo
Os contratos futuros de petróleo subiram mais de US$1 por barril devido aos ataques a petroleiros e à falta de avanços em um acordo de paz entre o governo Trump e a liderança do Irã.
Os futuros do Brent fecharam a US$88,52 por barril, com alta de US$1,45, ou 1,67%. Os futuros do petróleo West Texas Intermediate (WTI) dos Estados Unidos fecharam a US$82,40, com alta de US$1,15, ou 1,42%.
O Brent e o WTI estavam a caminho de ganhos semanais de 6,0% e 5,4%, respectivamente.
“Estamos vendo uma alta à medida que nos aproximamos do fim de semana, após novos ataques a petroleiros e a falta de progresso em um acordo de cessar-fogo”, disse Andrew Lipow, presidente da Lipow Oil Associates.
Um “dia de ajuste de contas” pode chegar se o tráfego no estreito de Ormuz continuar restrito, por onde passam 20% do abastecimento global, disse Lipow.
“Os preços do petróleo podem estar em US$80 o barril, mas os preços do diesel estão em US$180 o barril e os da gasolina em US$130 o barril, e é isso que está afetando o consumidor”, disse Lipow.
Os EUA afirmaram na quinta-feira que poderiam manter um bloqueio naval ao Irã por tempo indeterminado e aumentar a pressão econômica sobre Teerã em resposta ao impasse nas negociações de cessar-fogo.
“Fiquem atentos a este espaço para mais anúncios na próxima semana, pois vamos aplicar medidas como nunca se viu na história do isolamento econômico de um país”, disse o secretário do Treasury, Scott Bessent, no programa “Rob Schmitt Tonight”, da Newsmax.
Tráfego reduzido no estreito de Ormuz
Enquanto os EUA e o Irã disputavam o controle do estreito, o tráfego marítimo pelo canal caiu abaixo da média mensal.
Antes do início dos ataques dos EUA e de Israel ao Irã, no final de fevereiro, o estreito era responsável por cerca de um quinto do abastecimento global de petróleo e gás natural liquefeito.
Dois navios da estatal Abu Dhabi National Oil Company foram atacados enquanto transitavam pelo estreito na quinta-feira, informou a agência de notícias estatal dos Emirados Árabes Unidos, WAM, um incidente que o governo dos Emirados Árabes Unidos condenou como um ataque iraniano.
“Essa foi a notícia que impulsionou os preços: petroleiros atacados”, disse Phil Flynn, analista sênior do Price Futures Group.