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PIB Mostra Economia em Duas Velocidades: Agro e Petróleo Avançam, Indústria Perde Força

Safra e produção de petróleo sustentaram a atividade no segundo trimestre, mas o contraste com a indústria de transformação mostra que o crescimento se tornou menos disseminado

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O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026. À primeira vista, o resultado apenas confirma uma desaceleração: no trimestre anterior, a economia havia avançado 1,1%. Uma leitura mais atenta, porém, sugere algo diferente. A economia não está simplesmente crescendo mais devagar. Seus setores passaram a crescer por razões distintas.

Entre abril e junho, a agropecuária aumentou 2,8% em relação ao primeiro trimestre, beneficiada por uma safra favorável. A indústria extrativa, impulsionada por petróleo e gás, cresceu 3,4%. Juntos, esses dois vetores ajudaram a manter o PIB em território positivo.

Mas eles contam apenas parte da história. A indústria como um todo avançou só 0,1%, praticamente estagnada, enquanto os serviços, responsáveis por cerca de 60% da economia, cresceram modestos 0,2%. O PIB avançou na média, mas sua composição revelou uma economia dividida: o crescimento ficou concentrado em poucos motores, enquanto os setores de maior peso pouco se moveram.

A explicação começa pelo tempo. Os setores que puxaram o resultado do trimestre não respondem à economia no mesmo horizonte que aqueles que ficaram para trás. A produção agrícola refletiu decisões tomadas meses antes e uma safra mais favorável. O aumento da extração de petróleo foi resultado de projetos de exploração e investimentos que levam anos para amadurecer.

A indústria de transformação opera em outro relógio. Depende mais diretamente de encomendas, estoques, crédito e expectativas sobre a demanda. É também por isso que uma expansão do petróleo não tem o mesmo significado econômico que uma expansão disseminada da indústria.

“Quem sustentou o resultado foram principalmente o agro e os investimentos”, afirma Alberto Friggi, CEO da corretora de crédito Friggi & Secco. “A indústria quase estagnada indica, contudo, que esse impulso ainda não se espalhou por toda a economia.”

O investimento ainda resiste

A segunda peça desse quebra-cabeça está do lado da demanda. A formação bruta de capital fixo, indicador que mede os investimentos em máquinas, equipamentos e construção, cresceu 1,2% entre o primeiro e o segundo trimestre e 1,4% em relação ao mesmo período de 2025.

O dado é relevante porque mostra que a divergência não está apenas entre diferentes setores da produção. Ela também separa decisões econômicas de curto e longo prazo.

O consumo das famílias, mais exposto ao custo imediato do crédito, caiu 0,4% no trimestre e cresceu apenas 0,5% na comparação anual. Os investimentos seguiram na direção oposta.

“O PIB do segundo trimestre mostra um descolamento importante entre a capacidade de investir e a disposição para consumir”, diz Letícia Moschioni, sócia da Finscale, consultoria em finanças. “Parte das empresas continua preparando crescimento, modernizando operações e buscando produtividade, mas encontra um consumidor mais sensível ao preço, ao crédito e ao custo das parcelas.”

O contraste ajuda a explicar por que os juros altos ainda não produziram uma contração da atividade. O aperto monetário atinge primeiro as decisões mais dependentes de financiamento corrente. Projetos de investimento podem sobreviver por mais tempo, seja porque foram planejados antes da alta dos juros, seja porque seu retorno esperado continua justificando o custo de capital.

Para Claudia Moreno, economista do C6 Bank, os dados confirmam uma desaceleração gradual. Os juros elevados restringem a atividade, mas o mercado de trabalho aquecido e medidas de estímulo ao crédito ajudam a sustentar o crescimento.

Projeções para os próximos trimestres

A questão agora é quanto tempo os setores que puxam o PIB conseguirão compensar os que perderam força. Uma economia pode conviver durante algum tempo com essas velocidades diferentes. A safra continua chegando ao mercado. Plataformas de petróleo continuam elevando a produção. Empresas executam projetos de investimento iniciados anteriormente. Mas a fraqueza da demanda doméstica tende a se propagar se persistir.

O consumo das famílias é um ponto particularmente importante. Uma redução dos gastos não atinge toda a produção de uma só vez. Primeiro, aparecem menos vendas. Depois, empresas podem rever encomendas e estoques. Só então o efeito chega com maior força à produção e ao emprego.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, considera que o dado já mostra esse processo. “O aperto monetário já está desacelerando a demanda, principalmente via consumo e setores mais sensíveis ao crédito. Ainda não vejo contração no terceiro trimestre como cenário-base, mas o risco de crescimento próximo de zero aumentou.”

O C6 Bank projeta que o PIB cresça 1,7% em 2026 e também em 2027, com a Selic permanecendo em patamar restritivo por algum tempo.

O resultado do segundo trimestre não resolve, portanto, a questão sobre a força da economia brasileira. Ele a torna mais precisa. O país continua crescendo, mas o crescimento deixou de ser uma história única.

No campo, uma boa safra eleva a produção. No mar, investimentos de longo prazo ampliam a extração de petróleo. Nas fábricas, a demanda mais fraca já cobra seu preço. Entre esses ritmos, o PIB registra uma média de 0,5%. A média diz que a economia cresceu. A composição explica por que essa resposta, sozinha, já não basta.

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