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Como a Geração de “Nativos Offshore” Mudou a Forma de Investir no Exterior

Em entrevista exclusiva à Forbes, Roberto Lee, fundador e CEO da Avenue, afirma que investir no exterior deve ganhar cada vez mais espaço na carteira dos brasileiros

8 min

Durante décadas, investir no exterior foi uma alternativa praticamente restrita aos brasileiros de alta renda. Custos elevados, burocracia, câmbio e falta de infraestrutura faziam com que manter patrimônio fora do país fosse um serviço disponibilizado para poucos. Esse cenário começou a mudar. Isso porque uma nova geração de investidores está acelerando a internacionalização das carteiras.

A expansão das plataformas digitais, a redução das barreiras de entrada e o maior acesso a mercados estrangeiros criaram um fenômeno chamado“nativos offshore”. Esse grupo é composto por investidores que entram no mercado já considerando ativos internacionais como parte natural da estratégia de investimento.

A mudança representa mais do que uma busca pontual por proteção em dólar. Em outras palavras, ela indica que a diversificação internacional começa a deixar de ser uma decisão reservada aos grandes patrimônios para se tornar parte da construção financeira de investidores mais jovens.

“Você vai ter uma legião de nativos offshore, aqueles que não toleram uma oferta que não tenha a parte internacional”, afirma Roberto Lee, fundador e CEO da Avenue.

Lee nasceu em São Paulo e atualmente mora em Miami. Iniciou sua carreira no mercado financeiro em 1998, na Patagon, onde permaneceu até 2002. Depois, passou pela Ágora Corretora, atuando em diferentes áreas ligadas à custódia e à compensação de valores mobiliários. Em 2005, fundou a Wintrade Investimentos, uma das pioneiras no investimento online voltado ao varejo no Brasil, onde atuou como diretor de Produtos e Marketing.

Em 2010, vendeu sua participação na empresa para fundar a Clear Corretora, da qual se tornou CEO. Com a fusão entre Clear e XP Investimentos, em 2014, passou a ocupar também os cargos de CIO e CMO da XP, onde permaneceu até 2017. Atualmente, Roberto Lee é CEO da gestora Avenue, fundada por ele.

Investir no exterior já foi negócio para poucos

A internacionalização do patrimônio brasileiro historicamente esbarrou em características do próprio mercado doméstico. Com juros elevados durante boa parte das últimas décadas, investidores encontravam no Brasil retornos atraentes sem necessariamente assumir os custos e a complexidade de levar recursos para outros países.

Por exemplo, em períodos de alta da Selic, aplicações domésticas de renda fixa ofereciam retornos elevados, reduzindo o incentivo para que o investidor brasileiro buscasse alternativas no exterior.

Atualmente, a taxa básica de juros está em 14% ao ano, patamar que continua tornando o investimento de renda fixa atrativo. Segundo estimativa do Banco Central (BC), apenas em torno de 2% do patrimônio total dos brasileiros está alocado fora do país.

A situação é diferente em outras nações, como Chile, Israel e Portugal, nas quais a exposição internacional tende a ocupar um espaço maior na estratégia patrimonial. OBanco de Israel, noStatistical Bulletin for 2025, mostra que25% da carteira de títulos e ações das famílias israelenses estava investida no exteriorno fim do ano passado.

No Brasil, além dos juros, Lee explica que havia uma barreira operacional. Abrir uma conta no exterior, realizar câmbio, transferir recursos e investir exigia uma estrutura que dificilmente fazia sentido para pequenos patrimônios.

Em geral, o brasileiro precisava abrir uma conta no exterior, enviar recursos por meio de uma remessa internacional e realizar o câmbio. Havia ainda custos bancários, spread cambial, corretagem e, dependendo da instituição, custódia. Nos Estados Unidos, por exemplo, o investidor estrangeiro também precisava cumprir exigências fiscais específicas. Com esses processos menos automatizados, a conta dificilmente fechava para quem pretendia investir pequenos valores.

“Sempre foi muito caro investir fora para o Brasil. Era só para quem tinha muito bolso, investimentos grandes para justificar o custo de ter aquela conta. Os serviços precisavam ser mais digitais. Isso não existia muito aqui”, comenta Roberto Lee.

Uma mudança começou a ocorrer por volta de 2016, quando a queda dos juros brasileiros aumentou a procura por alternativas de investimento e colocou a diversificação internacional no radar de uma parcela maior dos aplicadores.

Tecnologia reduziu barreiras

A digitalização foi um fator determinante para recalcular a rota. Processos de abertura de conta, câmbio e investimento passaram a ser automatizados. Isso diminuiu custos que anteriormente restringiam esse mercado aos clientes mais ricos.

A transformação ganhou ainda mais força durante a pandemia de Covid-19, período marcado pela entrada de uma nova geração de pessoas físicas nos mercados financeiros. Nesse grupo, uma característica chamou a atenção, já que muitos aplicadores começaram a aportar com valores menores. “Quando você vai falar de jovens investidores, você vai ter muito investidor, uma quantidade enorme, mas com um ticket pequeno”, diz o CEO.

Segundo ele, esse público também serviu para testar até que ponto uma infraestrutura financeira poderia funcionar de maneira majoritariamente digital. “Por exemplo, você testa se eles são capazes de se ‘autosservir’ mesmo com baixo conhecimento.”

O resultado foi uma mudança na porta de entrada para o mundo dos investimentos. Ou seja, se durante décadas a poupança ocupou esse papel para milhões de brasileiros, investidores mais jovens passaram a ter contato desde cedo com ações estrangeiras, fundos internacionais e criptoativos.

É dessa transformação que surge a tese dos“nativos offshore”. Na prática, são investidores que não enxergam a exposição internacional como uma etapa sofisticada alcançada depois de acumular patrimônio no Brasil. Para eles, ativos brasileiros e estrangeiros podem fazer parte da carteira desde o início.

A mudança também está relacionada à variedade de empresas e setores disponíveis no exterior. O mercado americano, por exemplo, oferece exposição direta a companhias ligadas a inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia e outras indústrias com participação relativamente menor na bolsa brasileira.

Essa demanda começou a modificar a estratégia das próprias instituições financeiras. Bancos e corretoras brasileiras passaram a ampliar suas estruturas internacionais. A competição deixou de ocorrer apenas pela carteira mantida no Brasil e passou a incluir os recursos dos clientes que gostariam de investir fora do país.

A nova fronteira dos investimentos

A internacionalização das carteiras, porém, não é um movimento restrito à nova geração de “nativos offshore”. Entre investidores de maior patrimônio, manter parte dos recursos fora do Brasil já ocupa um espaço relevante nas estratégias de alocação.

Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) dão o tamanho desse mercado. Os brasileiros encerraram 2025 com R$ 8,5 trilhões investidos, alta de 15,5% em relação ao ano anterior. Desse total, R$ 2,63 trilhões pertenciam a clientes do segmento private, formado por investidores com mais de R$ 5 milhões aplicados.

No entanto, o número não captura todo o patrimônio desse público. Segundo a própria associação, uma parcela relevante dos recursos dos clientes private está investida no exterior e não aparece nas estatísticas domésticas.

Levar recursos para fora do país não significa necessariamente buscar apenas empresas com maior potencial de valorização. Diversificação geográfica e cambial, preservação do poder de compra e redução da concentração do patrimônio no Brasiltambém entram na decisão. “Todo mundo entendeu. O offshore é a próxima fronteira da competição. Então tem uma corrida hoje lá para fora”, afirma Lee.

Esse movimento também começa a redefinir a competição entre as instituições financeiras.Para uma parcela dos investidores, não oferecer acesso ao mercado global pode se tornar uma desvantagem competitiva. Se essa tendência ganhar escala, a disputa entre bancos e corretoras brasileiras deixará de ser apenas por quem administra o patrimônio do cliente. Cada vez mais, envolverá tambémonde e em quais mercados esse dinheiro será investido.

“As empresas que não oferecerem o componente internacional vão ter um serviço muito deprimido, até o ponto de se tornar irrelevante, igual a uma ferramenta de investimento que não tem a parte digital hoje em dia. A certeza é que a penetração internacional vai ser algo fantástico dentro das carteiras brasileiras”, aponta Roberto Lee.

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