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Nova Taxação Leva Famílias de Alto Patrimônio a Ampliar Investimentos no Exterior

Brasil subiu para a 3ª posição entre as jurisdições mais complexas para negócios, aponta estudo global

11 min

Nenhuma família é igual. Cada uma tem características e estratégias próprias, mas muitas compartilham um objetivo:preservar e ampliar o patrimônio ao longo das gerações. Em um cenário marcado por incertezas geopolíticas, expansão internacional e mudanças regulatórias, grupos familiares de alto patrimônio estão revendo a forma como administram seus ativos.

De acordo com o estudo “Desenvolvendo uma estratégia de patrimônio familiar pronta para o futuro”, publicado pelaTMF Group, o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking das jurisdições mais complexas do mundo, ante o 6º lugar no ano anterior, segundo o Índice Global de Complexidade Empresarial (GBCI).

Desdeo começo deste ano, o Brasil voltou a aplicarretenção na fonte de 10% sobre dividendos pagos a acionistas não residentes. E, para o relatório, a medida somada ao cenário político, pode levar famílias e investidores a revisar as estruturas existentes.

A resposta das famílias à maior incerteza não tem sido necessariamente abandonar os mercados onde já atuam, masdistribuir investimentos e operações entre diferentes jurisdições. A estratégia busca reduzir riscos de concentração, aumentando a capacidade de adaptação.

“As famílias estão realizando, cada vez mais, movimentos estratégicos para diversificar sua atuação geográfica, protegendo-se contra a volatilidade local e acessando novas oportunidades”, afirmaTim Houghton, Global Head de Private Wealth and Family Offices da TMF Group.

Em entrevista exclusiva à Forbes, Alexandre Spadeto, Diretor de Fundos para América Latina, do TMF Group, ressalta que diversificação global está se tornando cada vez mais um consenso, embora o grau varie de família para família. “Para as famílias latino-americanas, e particularmente as brasileiras, acho que a questão mudou. Não é mais ‘Devo ter ativos no exterior?’, mas sim ‘Quanto do meu patrimônio deve estar exposto ao Brasil, e qual é a maneira correta de estruturar a parte internacional?'”.

Os números do Brasil confirmam essa evolução. De acordo com o Banco Central (BC), os residentes brasileiros possuíam aproximadamente US$ 620 bilhões em ativos no exterior em 2024, em comparação com US$ 196,7 bilhões em 2007. Ou seja, um aumento de mais de três vezes nesse período. O Relatório Global de Family Offices 2026 do UBS também indica que a diversificação está se tornando mais multidimensional, abrangendo ativos, moedas e regiões, à medida que a incerteza geopolítica aumenta.

Alexandre Spadeto, Diretor de Fundos para América Latina, do TMF Group

Diversificação internacional

O estudo mostra que quase um terço (31%) das famílias mantém proximidade com os mercados em que investe enquanto expande suas operações para outras regiões.Entre os fatores considerados na escolha de novas jurisdições,23% apontam a estabilidade política e outros 23%, a estabilidade econômica.

A lógica é reduzir a dependência de uma único país. Segundo a pesquisa, distribuir as operações geograficamente oferece maior flexibilidade para realocá-las caso surjam problemas em algum dos mercados onde a família está presente.

Na América Latina, Brasil, Colômbia, México, Panamá e Uruguai aparecem no estudo como exemplos de mercados em que mudanças tributárias, regulatórias e de transparência tornam o planejamento patrimonial mais complexo.

Apesar disso, o Uruguai, por sua estabilidade política e econômica, vem despertando maior interesse para estruturação dentro da própria região.”O Uruguai é provavelmente um dos países mais estáveis da América Latina, e por isso os clientes têm grande interesse em entender como operar localmente”, diz Marcela Pino, Market Head de Serviços Financeiros Latam da TMF Group. O país subiu da 27ª para a24ª posiçãono GBCI 2026.

“Na minha visão, diversificação não se trata simplesmente de tentar obter um retorno maior”, diz Alexandre Spadeto. Para ele, o mecanismo trata-se de reduzir o risco de concentração. “Se sua renda, seus negócios, seus imóveis, sua previdência e seus ativos financeiros estiverem predominantemente expostos à mesma economia e à mesma moeda, você pode ter um perfil de risco muito concentrado sem perceber.”

Dados da UBS de 2025 mostraram que os family offices latino-americanos já tinham 64% de sua alocação regional na América do Norte, em comparação com 15% na América Latina e 11% na Europa Ocidental. Seus portfólios também continham 29% em investimentos alternativos, incluindo 17% em private equity e 6% em imóveis.

Brasil é o 3º mercado mais complexo

OÍndice Global de Complexidade Corporativa (GBCI) 2026, utilizado como base do estudo, coloca o Brasil entre as jurisdições de maior complexidade para empresas estrangeiras. Segundo o ranking apresentado pela TMF Group, as dez jurisdições mais complexas em 2026 são:

  1. Grécia
  2. México
  3. Brasil
  4. França
  5. Turquia
  6. Colômbia
  7. Bolívia
  8. Itália
  9. Argentina
  10. Peru

Na outra ponta aparecem os países considerados menos complexas. O grupo incluiCuraçao, Malta, Ilhas Virgens Britânicas, República Tcheca, Nova Zelândia, Holanda, Hong Kong, Jersey, Dinamarca e Ilhas Cayman, que ocupa a 81ª posição geral do índice.

“Vejo cada vez mais o uso de jurisdições institucionais com forte Estado de Direito, sistemas financeiros maduros e estruturas regulatórias previsíveis. Para famílias latino-americanas, isso pode significar estruturas que envolvam jurisdições como os Estados Unidos, a Suíça, Portugal, Luxemburgo, Singapura, as Ilhas Cayman ou outros centros financeiros internacionais consolidados, dependendo do objetivo da estrutura”, aponta o diretor de fundos para Latam, do TMF Group.

Spatedo explica que a jurisdição em si é apenas uma peça do quebra-cabeça. Ele distingui em três camadas:

  1. Onde os ativos estão localizados
  2. Onde o veículo de investimento está domiciliado
  3. Onde a família ou os beneficiários são residentes fiscais

Por exemplo, uma família latino-americana pode ter ativos operacionais no Brasil, um veículo de investimento nas Ilhas Cayman ou em Luxemburgo, custódia nos Estados Unidos ou na Suíça e membros da família vivendo em diferentes países. Segundo Alexandre, o objetivo não é “escapar” de um determinado país; é construir uma estrutura juridicamente sólida, transparente e adequada.

Internacionalização também aumenta a complexidade

Se a diversificação geográfica ajuda a distribuir riscos, ela também cria novos desafios. Isso porque à medida que as famílias passam a operar em diferentes países, precisam lidar comregras de compliance, exigências regulatórias e obrigações de reporte distintas em cada jurisdição.

O relatório alerta que essas diferenças podem adicionar complexidade administrativa, aumentar a possibilidade de erros e gerar dúvidas sobre a abordagem mais adequada para cumprir as normas.

Esse cenário também está transformando a estrutura dosfamily offices. A busca por profissionalização tem levado à terceirização de algumas funções, enquanto ganham espaço modelos comomultifamily offices, family offices virtuais e oportunidades de coinvestimento. Na prática, essas alternativas permitem acessar recursos e conhecimentos especializados em determinadas regiões e, segundo o estudo, a tendência deve continuar nos próximos anos.

A adaptação também passa pela gestão de pessoas. Na disputa por profissionais qualificados com empresas tradicionais de private equity e gestão de ativos, os family offices estão recorrendo a incentivos vinculados ao desempenho e às estratégias de longo prazo.

Além do salário, alguns escritórios oferecem ações virtuais, que dão direito a pagamentos vinculados ao valor das ações sem tornar o profissional sócio; ações a serem recebidas no futuro; e participação no capital da empresa. Outra modalidade é o carried interest, que permite ao profissional receber uma parcela dos lucros dos investimentos. Comum nos Estados Unidos e na Europa, esse modelo ainda é pouco utilizado em alguns escritórios dos Emirados Árabes Unidos e da Ásia.

“Embora ocarried intereste os incentivos baseados em desempenho ainda sejam limitados em muitosfamily officesdos EAU, observamos uma mudança clara: o crescente investimento na área de RH e em áreas de capital humano sinaliza o reconhecimento de que estruturas de incentivos mais organizadas e competitivas serão fundamentais para atrair e reter os melhores talentos”, afirmaFarida Azarioh, Market Head of Financial Services IMEA da TMF Group.

ParaTim Houghton, a capacidade de adaptação é fundamental diante desse novo ambiente. “Para sobreviver e prosperar, osfamily officesprecisam evoluir, adotando modelos operacionais mais flexíveis, utilizando conhecimentos especializados e mantendo a agilidade diante das mudanças.”

IA nos escritórios

A tecnologia aparece como outra parte dessa transformação. Segundo o estudo, o interesse dosfamily officespelainteligência artificial cresceu no último ano, embora a compreensão e a adoção da tecnologia ainda sejam inferiores às observadas em organizações maiores.

A pesquisa aponta que as organizaçõesestão explorando ferramentas tecnológicas paraapoiar pesquisas que antecedem investimentos ou a entrada em novos mercados e aumentar a eficiência operacional.

Entre as aplicações já observadas estão processos dedue diligence, identificação e verificação de clientes (KYC), prevenção à lavagem de dinheiro (AML), análise de riscos ecompliance.

Instabilidade energética, El Niño, e possíveis retornos abaixo do esperado dos investimentos em IA podem reduzir o crescimento global
REUTERS/Florence LoCrédito privado ganha espaço nas estratégias de grandes patrimônios

“Empresas de Jersey já adotaram ou dirigem projetos-piloto com IA para aumentar a eficiência operacional, otimizar processos de KYC, AML edue diligence, e auxiliar na análise de riscos ecompliance”, dizKim Luce, Head of Private Wealth and Family Offices Jersey da TMF Group.

Novas estratégias

Além disso, as mudanças chegaram às carteiras. O relatório aponta uma preferência crescente porcrédito privado e investimentos diretos, à medida que as famílias buscam melhores retornos e maior controle sobre seus ativos em comparação com os investimentos tradicionais em fundos.

Ao mesmo tempo, atransferência geracional de patrimônioestá alterando as prioridades. Membros mais jovens das famílias passaram a participar mais ativamente das decisões e, nos últimos anos, vêm dando maior atenção àsustentabilidade e aos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG).”A nova geração não necessariamente quer escolher entre retorno financeiro e preferências pessoais. Cada vez mais, ela quer investimentos em que ambos possam coexistir”, comenta Alexandre Spadeto.

Em outras palavras, alguém interessado em tecnologia pode investir em infraestrutura de IA em vez de comprar ações de empresas de tecnologia. Os números mostram, porém, que essa trajetória não foi linear nos últimos quatro anos. Na parcela que registrou aumento dos investimentos realizados de formamais ecologicamente correta, o percentual passou de80% em 2023 para 45% em 2024, 54% em 2025 e 50% em 2026.

Já os investimentos voltados à obtenção demelhores resultados sociaispassaram de60% em 2023 para 45% em 2024 e 50% em 2025, chegando a58% em 2026. No caso dos investimentos emempresas ou fundos com governança responsável, os percentuais foram de70% em 2023, 40% em 2024, 54% em 2025 e 50% em 2026.

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Apesar das oscilações, o estudo aponta que, para muitosfamily offices, as considerações ESG deixaram de ser apenas uma tendência e passaram a integrar aspráticas operacionais padrão. Em paralelo, pressões sobre o mercado de energia provocadas por desafios nas cadeias globais de abastecimento levaram as famílias a adotar uma postura mais flexível em relação a essas práticas.

“Os membros mais jovens da família estão participando mais ativamente da tomada de decisões e, nos últimos anos, têm trazido um foco maior em sustentabilidade e padrões ESG, apesar de as políticas governamentais em muitas jurisdições darem menos atenção a esses aspectos”, comentaRachael Adcock, Líder de Private Wealth e Family Offices no Reino Unido da TMF Group.

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