Às vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária, que será divulgada na noite desta quarta-feira (5), o CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, afirmou que há espaço para uma nova redução de 0,25 ponto percentual na Selic. O executivo, porém, reforçou a cautela do banco diante das incertezas no Brasil e no exterior, coletiva para divulgação dos resultados do segundo trimestre.
“Como eu tenho dito já há muitos trimestres, a gente sempre tem um olhar cauteloso, olhando para frente, não só pelo cenário local, mas especialmente pelo cenário global”, afirmou Maluhy durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre.
O Itaú reduziu de 2,1% para 1,9% sua projeção para o crescimento da economia brasileira em 2026. A estimativa do banco para a inflação está em 5,1%, acima do teto da meta, de 4,5%.
“A gente tem visto a atividade arrefecendo recentemente e com perspectivas de continuar um arrefecimento gradual”, disse.
Para Maluhy, a perda de força da atividade abre espaço para uma nova redução da taxa básica de juros. O caminho depois desse movimento, contudo, ainda é incerto.
“A gente acredita que é possível mais um corte de 25 basis points na próxima reunião e o para frente ainda é muito incerto”, afirmou.
Juros elevados pressionam famílias e empresas
Maluhy reconheceu que a manutenção dos juros em níveis elevados por um período prolongado afeta a atividade econômica e a capacidade de pagamento.
Segundo o CEO, esse cenário gera uma pressão na atividade, na economia e no endividamento, não só das empresas como das famílias. O executivo também chamou a atenção para a piora dos indicadores de crédito divulgados pelo mercado.
“A gente tem visto indicadores de mercado, em geral, de inadimplência subindo em todos os produtos, indicadores públicos que têm sido divulgados”, afirmou.
No Itaú, a inadimplência acima de 90 dias permaneceu em 1,9% no segundo trimestre, pelo sexto período consecutivo. Entre as pessoas físicas no Brasil, porém, o indicador passou de 3,6% para 3,7%. Nas micro, pequenas e médias empresas, avançou de 1,9% para 2%.
O banco espera uma nova elevação marginal da inadimplência das empresas nos próximos trimestres, principalmente com o fim dos períodos de carência de algumas linhas vinculadas a programas governamentais. A expectativa é de estabilização próxima de 2,1%.
Apesar desse movimento, Maluhy afirmou que os indicadores do Itaú continuam melhores do que os observados no restante do sistema financeiro.
“Os nossos indicadores vêm performando mais ou menos metade do que os indicadores da indústria em termos de atraso”, disse.
O banco atribui o desempenho à reorganização da carteira realizada nos últimos anos, à menor exposição a segmentos mais arriscados e aos critérios adotados na concessão de crédito.
“É assim que a gente tem navegado e os nossos resultados têm sido muito sólidos, fortes e consistentes, muito em linha com a nossa estratégia, sempre com olhar de longo prazo”, afirmou Maluhy.
No segundo trimestre, o Itaú registrou lucro recorrente gerencial de R$ 12,4 bilhões, alta de 7,8% em relação ao mesmo período de 2025 e de 1% frente aos três primeiros meses deste ano. A carteira de crédito chegou a R$ 1,522 trilhão, com crescimento de 9,6% em 12 meses.
Estados Unidos aumentam incerteza
A cautela do Itaú também está relacionada ao ambiente internacional. O banco considera possível que o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, faça duas altas de juros até o fim de 2026.
Na avaliação de Maluhy, a economia americana continua forte. Uma elevação dos juros nos Estados Unidos aumentaria a concorrência global por capital e pressionaria os custos de financiamento em outras economias.
“Quando isso acontece, isso coloca pressão no mundo todo, porque o investidor, ele sempre está decidindo onde ele vai aplicar o recurso e qual é a taxa de juros e o retorno esperado em cada um dos países”, afirmou.
O cenário externo também inclui os efeitos dos conflitos internacionais sobre os preços do petróleo, dos fretes e dos fertilizantes. Para o executivo, o aumento da incerteza torna os empresários mais cautelosos na hora de investir.
“A gente prefere um ambiente em juros muito mais baixo, isso é muito mais saudável para a economia, para os bancos, para a inadimplência, para a atividade”, disse Maluhy.
Inteligência artificial muda estratégia do Itaú
Em meio à desaceleração da economia e à maior atenção ao risco de crédito, o Itaú está ampliando o uso de inteligência artificial. O banco apresentou a ia.i, ferramenta conversacional integrada ao SuperApp e desenvolvida para oferecer atendimento e orientação financeira com base no histórico de cada cliente.
A estratégia busca tornar o relacionamento com o banco mais individualizado. A ferramenta utiliza informações financeiras do cliente para responder a perguntas, solucionar demandas e apoiar decisões.
“A gente veio falando, ao longo dos anos, de hiperpersonalização em escala. Aqui a gente muda a lógica e a gente começa a falar de individualização da experiência”, afirmou Maluhy.
Segundo o executivo, a ferramenta não foi desenvolvida apenas para direcionar o cliente a um produto. A proposta é considerar o conjunto de suas necessidades e de seu relacionamento com o banco.
A inteligência artificial também é utilizada para apoiar os funcionários responsáveis pelo atendimento. Com mais informações sobre os clientes, os especialistas recebem sugestões sobre necessidades e assuntos relevantes para cada conversa.
Itaú aponta ganhos no crédito e no atendimento
De acordo com os resultados apresentados pelo Itaú, a ia.i registra NPS superior a 80 pontos. O indicador é usado para medir o nível de satisfação e a disposição dos clientes para recomendar um serviço.
“O nosso NPS está acima de 80 pontos”, disse Maluhy.
O banco também informou ganhos entre 20% e 30% na acurácia das avaliações de crédito feitas com o apoio da inteligência artificial. Na área de atendimento, a instituição aponta melhora de 20% a 30% na resolução das demandas.
Segundo a apresentação, o atendimento ficou até duas vezes mais rápido e as conversas se tornaram três vezes mais efetivas. Os especialistas também passaram a ter até três vezes mais tempo para se relacionar com os clientes.
“Ele é mais preciso para interpretar qual é a dor, qual é a necessidade, mais rápido e mais eficiente também na solução”, afirmou Maluhy.
Os percentuais são métricas operacionais apresentadas pelo próprio Itaú. O banco ainda não detalhou quanto esses ganhos representam em redução de despesas, geração de receitas ou impacto sobre o lucro.
A estratégia mostra, no entanto, que a inteligência artificial deverá ir além do atendimento digital. A instituição pretende utilizar a tecnologia para melhorar a avaliação de crédito, elevar a produtividade dos funcionários e individualizar a experiência dos clientes. Segundo Maluhy, o banco continuará desenvolvendo as soluções “com a lógica de AI first”.