A pressão crescente sobre a Shein nos Estados Unidos e na Europa pode ter um efeito direto sobre o varejo brasileiro. Com mudanças tributárias, aumento da fiscalização e avanço de investigações regulatórias em alguns de seus principais mercados, a gigante asiática tem mais incentivos para direcionar investimentos, marketing e atenção para grandes economias emergentes. E o Brasil aparece entre os principais candidatos.
A avaliação é do BTG Pactual, em relatório divulgado nesta segunda-feira, 24, no qual o banco analisa as mudanças no cenário global da companhia e os possíveis impactos para concorrentes brasileiros.
Segundo os analistas, o momento vivido pela Shein mostra o quanto a história de crescimento da empresa mudou nos últimos anos. A companhia busca levantar até US$ 1,77 bilhão em sua oferta pública inicial de ações em Hong Kong, com a venda de 280 milhões de papéis.
No topo da faixa indicativa, a operação atribui à Shein uma avaliação próxima de US$ 27 bilhões. O valor representa uma queda de quase 70% em relação aos cerca de US$ 100 bilhões alcançados pela empresa no mercado privado em 2022 e fica abaixo da faixa de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões discutida poucas semanas antes, segundo o relatório.
A redução da avaliação ocorre ao mesmo tempo em que a expansão da companhia perde força. O crescimento da receita, que chegou a 41% em 2023, desacelerou para apenas 1,1% no primeiro trimestre de 2026.
Mesmo assim, a escala continua gigantesca. A Shein encerrou março com 281 milhões de clientes ativos, avanço de 16% em relação ao ano anterior, e registrou mais de 1 bilhão de pedidos.
A companhia pretende destinar aproximadamente 80% dos recursos obtidos no IPO para tecnologia e para ampliar sua marca e presença global, movimento que, para o BTG, mostra que a expansão internacional continuará no centro da estratégia depois da abertura de capital.
O problema da Shein ficou mais estrutural
A desaceleração, porém, não decorre apenas de um consumidor mais cauteloso. Na avaliação do BTG, mudanças regulatórias e comerciais começaram a afetar justamente o modelo que permitiu à Shein crescer rapidamente, baseado no envio direto de produtos da China para consumidores em diferentes mercados.
Nos Estados Unidos, o fim da isenção conhecida como de minimis para determinadas encomendas chinesas de baixo valor aumentou o custo dos produtos enviados ao país. No primeiro trimestre, a receita da Shein no mercado norte-americano caiu 14,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A empresa também registrou prejuízo líquido trimestral de US$ 99 milhões, embora o resultado tenha sido impactado por um efeito contábil de US$ 328 milhões relacionado a valor justo.
Na Europa, a companhia também enfrenta maior fiscalização regulatória. O relatório cita investigações relacionadas à legislação de serviços digitais da União Europeia, casos envolvendo privacidade na França e na Irlanda e, nos Estados Unidos, uma investigação da Federal Trade Commission e uma revisão de segurança nacional relacionada à aquisição da Everlane.
Para o BTG, o problema é que tarifas, exigências regulatórias e maiores custos de conformidade podem atingir duas vantagens importantes da Shein ao mesmo tempo: reduzir a diferença de preços em relação aos concorrentes e tornar mais caro o modelo de operação internacional baseado em fornecedores chineses.
A tentativa de diversificar a cadeia de produção também encontrou obstáculos. Segundo o relatório, uma experiência da Shein no Vietnã foi reduzida diante de tarifas, limitações de mão de obra e custos mais altos em comparação com seu ecossistema de fornecedores na China.
Por que o Brasil se destaca
Na visão dos analistas, conforme os Estados Unidos e a Europa ficam menos atraentes economicamente, a Shein passa a ter mais motivos para direcionar recursos a grandes mercados emergentes nos quais sua proposta de preço continua competitiva.
O Brasil se destaca também porque a companhia continua crescendo rapidamente por aqui. Dados da Sensor Tower citados pelo BTG mostram que os usuários ativos mensais da Shein no Brasil aumentaram cerca de 34% em abril e maio de 2026 na comparação anual.
O desempenho ficou acima do registrado por alguns de seus principais concorrentes digitais no período. Segundo o levantamento citado no relatório, a Shopee cresceu 9%, o Mercado Livre avançou 17% e a Amazon, 16%.
A força da marca também aparece fora das vendas. Uma análise da ModoData, também mencionada pelo BTG, avaliou 127 mil referências a marcas de moda no Brasil em julho. A Shein concentrou 52% das menções entre as oito empresas analisadas.
Para o banco, o resultado indica uma conexão particularmente forte da plataforma com consumidores brasileiros e com as redes sociais.
O BTG também aponta que mudanças recentes na tributação de compras internacionais de baixo valor podem tornar o mercado brasileiro mais atrativo para plataformas estrangeiras. O relatório afirma que o Brasil eliminou temporariamente, em maio, o imposto federal de importação de 20% sobre compras de até US$ 50 dentro do Remessa Conforme, medida que, segundo o próprio documento, ainda depende de aprovação do Congresso.
Renner, C&A e Riachuelo estão mais preparadas
Uma eventual ofensiva maior da Shein, contudo, encontraria concorrentes brasileiros mais preparados do que na primeira fase de expansão da empresa no país.
Na avaliação do BTG, Renner, C&A, Riachuelo e outras varejistas passaram os últimos anos investindo em operação digital, integração entre lojas físicas e comércio eletrônico, velocidade de lançamento de coleções, gestão de relacionamento com clientes e programas de fidelidade.
As empresas também adaptaram suas estratégias de fornecimento e preços ao novo padrão competitivo imposto pelas plataformas asiáticas.
Ainda assim, o risco permanece. Caso a desaceleração nos Estados Unidos e a pressão regulatória na Europa levem a Shein a disputar o mercado brasileiro de maneira mais agressiva, a competição pode voltar a se concentrar em preços, promoções e gastos para conquistar consumidores.
Nesse cenário, mesmo varejistas locais mais eficientes poderiam ter dificuldade para recuperar integralmente suas margens ou repassar a inflação para os preços.