No fim de abril, Donald Trump embarcou no Air Force One rumo a Palm Beach. Era sua 26ª viagem ao local desde o início do segundo mandato.
A guerra ganhava força no Oriente Médio. Os preços da gasolina e dos alimentos subiam nos Estados Unidos. Mesmo assim, o presidente tinha um compromisso que considerava mais importante. Seu destino era Mar-a-Lago, onde quase 300 detentores de sua memecoin se reuniam para um evento privado.
A criptomoeda foi lançada três dias antes da posse. Em um ano de governo, já havia rendido a Trump cerca de US$ 635 milhões (R$ 3,26 bilhões). O evento em Mar-a-Lago reforçou o apelo de um ativo sem valor intrínseco. Os maiores compradores ganharam acesso a uma lista de convidados ilustres. Entre eles, o bilionário Tim Draper, a investidora Cathie Wood e o ex-boxeador Mike Tyson. A atração principal, porém, era o próprio presidente.
Os convidados entraram em um salão com a estética típica da marca Trump. Lustres de cristal. Paredes com detalhes dourados. Produtos estampados com o nome do presidente. Cada assento tinha uma sacola de brindes com cards colecionáveis, estatuetas douradas e relógios vermelhos com o slogan MAGA, personalizados com a assinatura de Trump.
“O presidente ligou de madrugada”
Bill Zanker, idealizador do evento, subiu ao palco para aquecer a plateia. Contou uma história pessoal.
“Há dois meses recebi uma ligação do presidente”, disse. “Eu já estava na cama, meio sonolento. Ele perguntou o que eu estava fazendo. Respondi que estava dormindo. Ele disse que tinha olhado o logotipo dos nossos relógios Trump e achado ruim. Estamos falando do presidente dos Estados Unidos. Um homem ocupado. E ele continuou. Disse que precisávamos deixar o logotipo mais moderno.”
“Eu concordei na hora. Na manhã seguinte, o novo logotipo já estava pronto. Fui dormir por volta da meia-noite e meia e acordei às 7h. O design já tinha mudado. E o mais impressionante é que, com o novo logotipo, os relógios passaram a vender ainda mais rápido.”
A história parece corriqueira. Mas revela algo central sobre a trajetória política de Trump. Há anos, ele e sua família afirmam que o presidente segue dono de seus ativos, mas está completamente afastado das decisões da Trump Organization. Não é bem assim.
Os filhos Eric e Donald Trump Jr. cuidam da administração do dia a dia. Mas pessoas próximas ao presidente dizem que ele continua opinando sempre que quer. Às vezes entra em decisões estratégicas, como a venda de um imóvel. Em outras, discute detalhes operacionais. Paisagismo de campos de golfe. Manutenção de Mar-a-Lago. Até o design de um logotipo de relógio. Trump fala de negócios com os filhos, com funcionários, com parceiros e até com líderes mundiais. Ainda assim, a posição oficial da Casa Branca não muda.
“Não existe conflito de interesses”, repete o governo sempre que é questionado. A vice-secretária de imprensa Anna Kelly apresentou recentemente um novo argumento. Disse que todos os ativos do presidente estão em contas com gestão discricionária integral, administradas por instituições financeiras independentes. Além disso, acusou a imprensa de promover “anos de mentiras e falsas acusações”.
Na prática, a afirmação não corresponde aos fatos. Com exceção da carteira de ações e títulos, os ativos de Trump não são administrados por instituições financeiras independentes. Informada disso, Kelly recuou e afirmou que era possível usar o restante da declaração, caso a primeira frase não fosse aproveitada.
A promessa de 2017
Em 11 de janeiro de 2017, nove dias antes da primeira posse, Trump convocou uma coletiva na Trump Tower. Foi ali que explicou como pretendia separar a Presidência de seus negócios privados.
Ele ressaltou que não venderia os ativos nem os colocaria em um blind trust. Em vez disso, eles seriam transferidos para um trust administrado por familiares e por um executivo de longa data da empresa. Esse executivo cumpriria depois duas penas de prisão por fraude fiscal, falsificação de registros empresariais e falso testemunho.
Trump também prometeu restrições voluntárias para reduzir conflitos de interesse. Uma delas era deixar de participar das decisões da empresa. “Não vou ter absolutamente nada a ver com a administração da companhia”, declarou. Disse que a lei não o impedia de continuar nos negócios, mas que isso passaria uma imagem inadequada.
Um mês depois, Eric Trump afirmou à Forbes que o pai cumpria a promessa à risca. “Existe uma separação muito clara entre Igreja e Estado”, disse. “Eu não converso sobre governo com ele, e ele não conversa sobre negócios conosco.”
Mas Trump continuou frequentando seus empreendimentos.
Nada passava despercebido
No primeiro mandato, Trump passou 133 dias em Mar-a-Lago e 83 dias em seu clube de golfe em Palm Beach, segundo registros. Também esteve 99 dias em uma propriedade em Nova Jersey e 85 dias em outra, na Virgínia. Visitou seu hotel em Washington em 28 dias diferentes.
As visitas, isoladamente, não provam que ele administrava os negócios. Mas, quando o presidente fazia pedidos ou dava ordens, ficava impossível distinguir se agia como cliente ou como chefe.
O ex-funcionário de Mar-a-Lago Bobby Langlois cuidava de alimentos e bebidas quando viu o presidente apontar para o chão e falar com Bernd Lembcke, homem de confiança responsável pela administração do clube. Logo depois, Lembcke fez sinal para que ele limpasse o local. Parecia que alguém tinha derramado refrigerante no carpete.
“Ele apontava essas coisas para o senhor Lembcke, e então o senhor Lembcke chamava um gerente ou algum funcionário”, lembra Langlois. “Ele estava sempre indicando pequenos problemas. Nada parecia limpo o suficiente.”
Às vezes Trump ia além de observações sobre a aparência do local. Determinava mudanças. Tinha muitas opiniões sobre paisagismo. Durante partidas de golfe, costumava perguntar às pessoas ao redor se certas árvores deveriam ser removidas.
“Ele continuava perguntando até encontrar alguém que concordasse”, conta um ex-funcionário de seu clube na Virgínia. Depois disso, o superintendente ou o diretor de agronomia era acionado. A árvore saía rapidamente. “Quando ele dizia ‘faça isso’, o serviço precisava estar concluído, ou pelo menos em andamento, até a próxima visita dele.”
O mesmo ex-funcionário lembra o dia em que Trump descobriu que a empresa havia gasto alguns milhões de dólares reformando os bunkers de areia do clube em Bedminster, Nova Jersey. Do campo de treinamento de seu clube na Virgínia, ligou para Eric Trump e para funcionários do empreendimento, com o viva-voz ligado.
“O senhor Trump realmente perdeu a cabeça. Soltou uma sequência bastante criativa de palavrões”, contou o ex-funcionário.
Na época, a equipe da Virgínia buscava aprovação para construir uma nova área de treino de jogo curto. “Ele deu sua opinião e basicamente disse que não valia o dinheiro.” Na prática, o presidente em exercício avaliou e rejeitou um investimento estimado entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão (R$ 2,57 milhões a R$ 5,14 milhões). O projeto só foi aprovado depois da pandemia, quando o boom do golfe elevou os lucros do clube.
Pouco depois de garantir a separação entre o pai e a empresa, Eric Trump disse que pretendia atualizar o presidente a cada trimestre sobre os resultados financeiros. Lucro líquido, relatórios de rentabilidade, informações do tipo. No mesmo ano, durante um encontro com o primeiro-ministro da Geórgia, Trump perguntou sobre o andamento de seu projeto imobiliário no país, segundo parceiros de negócios.
Em 2020, afirmou ao New York Post que havia pensado em vender seu hotel em Washington, mas desistira. “Eu gosto dele”, afirmou. “Ele vai bem.” Na realidade, o hotel acumulava prejuízos. Ainda assim, Trump acertou ao adiar a venda até a recuperação do mercado após a pandemia. Em 2022, vendeu o imóvel por cerca de US$ 375 milhões (R$ 1,93 bilhão).
A expansão depois da Presidência
Com mais tempo livre e menos restrições ao fim do primeiro mandato, Trump ampliou seu império empresarial. Sete dias após deixar a Casa Branca, recebeu em Mar-a-Lago dois ex-participantes do reality show “The Apprentice”. Entre hambúrgueres e sorvete, discutiram um projeto que depois viraria a Trump Media & Technology Group, dona da rede social Truth Social. Hoje a empresa vale US$ 2,8 bilhões (R$ 14,39 bilhões) na Nasdaq. Trump detém US$ 1,1 bilhão (R$ 5,65 bilhões) dessa fatia.
Pouco depois, Bill Zanker propôs vender imagens caricatas do ex-presidente como NFTs. Trump nunca foi entusiasta de ativos digitais. No primeiro mandato, chegou a dizer que o valor das criptomoedas era “baseado no nada”. Mas sempre gostou de oportunidades de ganhar dinheiro fácil.
Em 2022, na véspera do lançamento da coleção de NFTs, Trump pediu a opinião das pessoas ao redor. Fez o mesmo tipo de consulta que fazia antes de derrubar árvores nos campos de golfe.
“Fomos ouvindo um por um”, contou Zanker no evento de Mar-a-Lago em abril. “Todos os conselheiros disseram que ele não deveria fazer aquilo. Que podia ser um suicídio político, um desastre.” Então Trump perguntou a opinião de Zanker. “Respondi que eram 45 mil cartões, que levaria uns seis meses, mas que venderíamos tudo.” Segundo Zanker, Trump respondeu que gostava das imagens. Estava vestido de super-herói, de caçador. Decidiu seguir em frente.
Os NFTs se esgotaram em menos de um dia. Renderam US$ 4 milhões (R$ 20,56 milhões). Vieram novas coleções, além de relógios, tênis e fragrâncias com a marca Trump, todos em parceria com Zanker.
Já no universo cripto, Trump lançou com os filhos a World Liberty Financial, cerca de um mês antes da eleição de 2024. Pouco antes de assumir o segundo mandato, lançou a memecoin em parceria com Zanker.
Os números do primeiro ano do novo governo impressionam. Em torno de US$ 5 milhões (R$ 25,7 milhões) vieram de contratos de licenciamento de produtos. Outros US$ 1,4 bilhão (R$ 7,20 bilhões) vieram de operações com criptomoedas.
Sem freios pelo mundo
As restrições que Trump havia imposto a si mesmo no primeiro mandato praticamente desapareceram. Em abril de 2025, o advogado responsável por orientar a Trump Organization em questões éticas assumiu um caso envolvendo Harvard. Trump reagiu na Truth Social e exigiu a demissão do advogado. Poucas horas depois, ele já não fazia mais parte da equipe.
No mês seguinte, Trump fez sua primeira grande viagem internacional do segundo mandato. Não escolheu um aliado tradicional como Canadá ou México. Foi ao Oriente Médio, região onde mantinha negócios novos, alguns ainda não divulgados ao público americano.
A primeira parada foi Riad. Trump participou de um almoço com autoridades sauditas e parceiros privados. À noite, visitou uma cidade histórica cujo projeto de desenvolvimento urbano é conduzido pelo príncipe herdeiro saudita.
“Foi uma jogada excelente, talvez com um pouco de esperteza da nossa parte, falar com ele como incorporador imobiliário”, disse Jerry Inzerillo, executivo do empreendimento e vice-presidente do Forbes Travel Guide, ao New York Times. “Ele adorou.”
Meses depois, a Trump Organization criou uma empresa para atuar nesse projeto. Trump ficou com 80% de participação. Os familiares dividiram os 20% restantes. Um porta-voz da empresa negou qualquer relação com políticas do governo americano.
Trump seguiu para o Catar. A Trump Organization havia acabado de anunciar um empreendimento dentro de um grande projeto patrocinado pelo Estado catariano. Durante a visita, Trump se reuniu com dirigentes do fundo soberano do país e da Qatari Diar, braço imobiliário responsável pela área do projeto. No ano passado, recebeu pessoalmente US$ 5 milhões (R$ 25,7 milhões) desse acordo.
Por fim, foi a Abu Dhabi. Uma empresa que atuava em nome do presidente havia criado ali duas novas sociedades. Elas ainda não tinham sido divulgadas quando a viagem aconteceu. Renderam a Trump US$ 5 milhões (R$ 25,7 milhões) no ano passado. Dois meses depois, um representante seu abriu mais duas empresas na cidade. Os nomes, DT Marks Al Raha Beach LLC e DT Marks Al Raha Beach Member Corp, sugerem um acordo ainda não anunciado ligado ao empreendimento Al Raha Beach.
Um ex-diplomata com experiência na região disse à Forbes que os líderes do Golfo sabem exatamente com quem estão negociando. “Isso é, de forma totalmente explícita, um caso de enriquecimento usando o cargo público”, afirmou. “Eles sabem que é ele? Claro que sabem. E o que alguém poderia dizer diante disso? Que não tem certeza se aquilo está de acordo com as leis e as normas éticas dos Estados Unidos?”
A Casa Branca rejeitou as críticas. Um porta-voz disse que o único interesse especial por trás das decisões do governo é o interesse do povo americano, citando os acordos econômicos com Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos.
Pouco depois da viagem ao Oriente Médio, Trump voltou ao exterior. Desta vez foi à Escócia, onde é dono de dois resorts de golfe. Visitou os dois. Em Turnberry, comentou com o primeiro-ministro britânico sobre a qualidade das janelas do resort. Mostrou ao presidente da Comissão Europeia o salão de festas do local. Depois fez uma visita rápida à propriedade em Aberdeenshire.
Ao lado de Donald Trump Jr. e Eric Trump, que seguem se apresentando como vice-presidentes executivos da empresa, Trump inaugurou um novo campo de golfe. Cortou a fita como se ainda presidisse o conselho da Trump Organization.
O trust
No ano passado, a Trump Organization apresentou um documento regulatório no Reino Unido. Ele revela a estrutura de controle do grupo. O documento, chamado “notice of individual person with significant control”, afirma que Trump tem o direito de exercer, ou efetivamente exerce, influência significativa sobre as atividades de um trust.
O detalhe importa. O trust que controla as propriedades escocesas de Trump também detém praticamente todo o restante de seu patrimônio empresarial. Ao reconhecer oficialmente esse controle compartilhado, a própria empresa admitiu, em documento oficial, o que evita dizer ao público americano.
Trump transferiu parte da autoridade aos filhos. Mas nunca abriu mão do próprio poder.
As pessoas próximas aos negócios da família parecem entender bem essa dinâmica. Bill Zanker já planeja novos eventos como o de Palm Beach. E sabe exatamente quem precisa aprová-los.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com