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O Que as Empresas Que Mais Crescem Fazem Diferente, Segundo o CEO da Grant Thornton

Exclusivo: Pesquisa global com mais de 550 executivos mostra que 59% das empresas de alto crescimento se consideram muito preparadas para enfrentar rupturas, ante 19% das que menos crescem

9 min

Empresas que conseguem manter suas operações durante uma crise, adaptar planos rapidamente e aprender com problemas passados também aparecem entre as que mais crescem. Uma pesquisa global da consultoria Grant Thornton com mais de 550 executivos mostra que 59% das organizações de alto crescimento classificam sua capacidade de enfrentar rupturas como muito elevada ou de classe mundial. Entre as empresas de baixo crescimento, são apenas 19%.

A diferença não significa que se preparar para crises garanta, por si só, maior expansão. Os dados são baseados na avaliação dos próprios executivos sobre o desempenho e o grau de resiliência de suas organizações. Ainda assim, a distância entre os dois grupos se repete nos investimentos, no planejamento, na velocidade das decisões e na forma como as empresas encaram a inteligência artificial.

Em entrevista exclusiva à Forbes, Daniel Maranhão, CEO da Grant Thornton Brasil, afirma que as companhias que mais crescem não tratam a preparação para períodos de instabilidade como uma iniciativa isolada ou um plano guardado para emergências.

“As empresas mais resilientes incorporam a gestão de caixa, riscos e a capacidade de adaptação ao redirecionamento do negócio, em vez de tratá-las como iniciativas isoladas”, diz Maranhão. “Elas investem de forma mais consistente em planos de contingência, continuidade dos negócios, planejamento e orçamento e, principalmente, têm uma liderança responsável por essa agenda.”

Segundo o executivo, é essa combinação que permite às empresas continuar investindo e tomando decisões mesmo quando as condições econômicas ou de mercado mudam. “Entre as empresas de alto crescimento, 59% se classificam como muito resilientes ou de classe mundial, contra apenas 19% das organizações de baixo crescimento. Isso mostra que resiliência e crescimento caminham muito próximos.”

Afinal, o que significa ser uma empresa resiliente?

No levantamento, 80% dos participantes definiram resiliência empresarial como a capacidade de manter as principais operações durante períodos de pressão ou ruptura. Para 72%, o conceito envolve recuperar-se rapidamente de incidentes, com o menor impacto possível sobre os clientes.

A capacidade de aprender com crises anteriores foi mencionada por 69% dos executivos. Outros 65% citaram a existência de sistemas de segurança e estruturas de apoio capazes de manter os serviços em funcionamento. A preservação da saúde financeira diante de choques externos apareceu nas respostas de 61%.

Também fazem parte dessa definição a capacidade de adaptar planos e processos quando o mercado muda, indicada por 58%, e a incorporação da gestão de riscos e da conformidade às decisões da empresa, com o mesmo percentual.

Na prática, portanto, uma empresa resiliente não é aquela que consegue apenas sobreviver a uma crise. É a organização que se prepara antes do problema, mantém suas atividades durante a ruptura e usa o episódio para melhorar sua resposta futura.

“Um dos principais erros é pensar em resiliência apenas como um plano para ser acionado quando o problema acontecer”, afirma Maranhão. “Os dados indicam que as organizações mais resilientes transformam essa agenda em uma capacidade permanente do negócio: investem, testam seus planos, definem responsabilidades e incorporam riscos desde o início de seus processos de inovação.”

Para o CEO, a preparação precisa fazer parte da maneira como a companhia opera. “Resiliência não é ter um documento pronto para uma crise; é ter uma organização preparada para aprender, adaptar-se e continuar operando quando o cenário muda.”

Empresas que crescem mais investem mais

A diferença entre os dois grupos aparece no orçamento. Entre as empresas de baixo crescimento, 68% dos executivos consideram que os investimentos em preparação e continuidade dos negócios estão pelo menos um pouco abaixo do necessário. Nas companhias de alto crescimento, esse percentual cai para 30%.

Nas empresas que mais crescem, 24% destinaram menos de 2% do orçamento a essas iniciativas nos 12 meses anteriores à pesquisa. Outros 42% aplicaram entre 2% e 5%, enquanto 24% investiram de 6% a 10%. Uma parcela de 10% destinou mais de 10% do orçamento ao tema.

Entre as organizações de baixo crescimento, 35% investiram menos de 2% do orçamento. Outros 43% ficaram entre 2% e 5%, 17% aplicaram de 6% a 10% e apenas 6% destinaram mais de 10%.

O levantamento também contraria a percepção de que os recursos usados na prevenção de riscos necessariamente concorrem com os investimentos em expansão. Metade das empresas de alto crescimento afirma que sua capacidade de enfrentar rupturas é um fator importante para conquistar novos negócios. Entre as companhias de baixo crescimento, o percentual é de 31%.

As organizações que crescem menos também têm uma probabilidade três vezes maior de dizer que essa capacidade não tem qualquer influência na conquista de clientes ou chega a prejudicar a geração de novos negócios.

“Resiliência deixou de ser apenas uma gestão de crises e passou a dar às empresas confiança para investir, inovar e buscar novas oportunidades mesmo em ambientes de incerteza”, diz Maranhão. “Quando a organização sabe responder a uma ruptura e se adaptar rapidamente, ela consegue avançar enquanto outras ainda estão avaliando o cenário.”

Como decidir mais rápido sem assumir riscos demais

A pesquisa relaciona a preparação das empresas à velocidade das decisões. Isso não significa, segundo Maranhão, reduzir controles ou ignorar riscos para responder mais rapidamente.

“Velocidade não significa ausência de controles. É justamente o contrário: quando a empresa tem processos e controles claros, gestão e responsabilidades definidas, planos e cenários testados e uma visão comum sobre quais riscos está disposta a assumir, ela consegue decidir com mais segurança e assertividade.”

A dificuldade está em criar regras que protejam o negócio sem impedir mudanças. Controles rígidos demais podem retardar decisões e aumentar a exposição da empresa quando as condições se alteram rapidamente.

“O desafio é construir uma governança que salvaguarde a organização sem engessá-la”, afirma o CEO. “Controles excessivamente rígidos também podem gerar risco, porque impedem a empresa de se adaptar quando o contexto muda.”

Entre as organizações que se consideram altamente resilientes, 70% apontam os planos e sistemas de apoio como uma de suas principais fortalezas. A continuidade das operações aparece em seguida, citada por 67%.

Planejamento anual e definição de orçamento foram mencionados por 60%. A capacidade de acompanhar mudanças no mercado aparece em 58% das respostas, enquanto 57% destacam a existência de uma liderança responsável pela preparação da companhia.

Nas empresas menos preparadas, a continuidade operacional é justamente a deficiência mais citada, com 64%. A falta de um ambiente no qual os funcionários se sintam seguros para relatar problemas aparece em 57%, mesmo percentual registrado pela falta de preparação das equipes e por falhas nos sistemas de apoio.

A diferença começa ainda durante a criação de novos projetos. Entre as empresas de alto crescimento, 54% afirmam incorporar a avaliação de riscos desde o início dos processos de inovação. Nas companhias que crescem menos, são 20%.

IA é ameaça para umas e oportunidade para outras

A inteligência artificial tornou-se um dos principais testes da capacidade das empresas de administrar mudanças. Organizações altamente resilientes têm o dobro da probabilidade de acreditar que a tecnologia vai gerar novos produtos, serviços ou modelos de negócio. As menos preparadas têm uma probabilidade três vezes maior de considerar a IA uma ameaça.

Entre as empresas de alto crescimento, 51% já usam ou pretendem usar a tecnologia para identificar riscos de forma antecipada. Nas organizações de baixo crescimento, são 33%.

O uso da IA para acelerar a resposta e a recuperação depois de incidentes aparece em 44% das companhias que mais crescem, ante 30% entre as demais.

“O estudo mostra que a IA já começa a fazer parte dessa agenda de forma concreta, embora o maior desafio ainda seja transformar projetos-piloto em impacto em escala”, diz Maranhão. “As organizações mais resilientes também têm o dobro da probabilidade de enxergar a IA como impulsionadora de novos produtos, serviços ou modelos de negócio.”

Para o CEO, a diferença não decorre apenas da disposição de investir em tecnologia. Ela está ligada à estrutura que a empresa possui para avaliar riscos, implantar mudanças e medir resultados.

“Organizações com planos de continuidade, governança, capacidade de adaptação e responsabilidades claras conseguem avaliar melhor os riscos e, ao mesmo tempo, enxergar o potencial da tecnologia”, afirma.

Na avaliação de Maranhão, as empresas menos preparadas não necessariamente enfrentam riscos maiores ao adotar IA. O problema é que possuem menos condições de administrar a transformação.

“As empresas menos resilientes têm três vezes mais probabilidade de considerar a IA uma ameaça. Não necessariamente porque a tecnologia seja mais arriscada para elas, mas porque possuem menos estrutura para administrar essa mudança.”

O que a pesquisa diz sobre o Brasil

O levantamento é global e não divulga um recorte que permita comparar as empresas brasileiras com as de outros países. Por isso, não é possível usar os resultados para afirmar qual é o grau de preparação das companhias do país.

Maranhão avalia, porém, que a principal conclusão também vale para empresas brasileiras expostas a mudanças econômicas, tecnológicas e regulatórias.

“O que podemos trazer para o Brasil é a principal conclusão do estudo: em ambientes mais incertos, planejamento, governança, continuidade dos negócios, tecnologia e capacidade de adaptação precisam ser tratados de forma integrada.”

Para o executivo, preparar-se para crises deixou de ser apenas uma medida de proteção. Passou a determinar se a companhia continuará capaz de investir, inovar e buscar oportunidades quando o cenário piorar.

“A resiliência passa a ser uma competência para qualquer organização que queira manter sua capacidade de investir e crescer”, afirma.

A pesquisa não prova que a preparação para crises causa maior crescimento. Os executivos foram convidados a classificar, em uma escala de cinco pontos, a resiliência de suas empresas, o desempenho em comparação com os concorrentes e os resultados de crescimento, eficiência e rentabilidade nos dois anos anteriores.

Os números mostram, no entanto, uma associação recorrente. As empresas que declaram crescer mais também investem mais na preparação do negócio, incorporam riscos mais cedo às decisões e demonstram maior confiança para avançar durante períodos de incerteza.

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