1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. IA Não Está Substituindo Corretores de Ações — Está Tornando-os Melhores
Forbes Money

IA Não Está Substituindo Corretores de Ações — Está Tornando-os Melhores

Em vez disso, está ajudando esses profissionais a serem mais produtivos do que nunca

10 min

A inteligência artificial deveria tornar os consultores financeiros obsoletos. Em vez disso, está ajudando esses profissionais a serem mais produtivos do que nunca.

Ritik Malhotra se lembra de ter corrido sob uma tempestade em San Francisco, em 2014, desesperado para chegar aos correios antes que fechassem. Aos 21 anos, o ex-aluno da Universidade da Califórnia em Berkeley havia vendido sua startup de armazenamento em nuvem, a Stream, para a Box, em um negócio que lhe rendeu mais de US$ 20 milhões (R$ 102 milhões). Mas administrar sua nova fortuna ainda significava enviar documentos físicos pelo correio para seu consultor financeiro.

“Passei de um estudante universitário que não tinha dinheiro a alguém com uma quantia de dinheiro capaz de mudar sua vida”, disse Malhotra, hoje com 34 anos. “Meus pais não vieram de uma família rica. Eu precisava encontrar alguém que me ajudasse a ser responsável.”

Na época, os consultores automatizados, conhecidos como robo-advisors, como Betterment e Wealthfront, estavam ganhando espaço ao oferecer uma alternativa mais barata e automatizada à consultoria financeira tradicional. Mas, de repente responsável por mais dinheiro do que sabia administrar, Malhotra foi tomado por uma ansiedade que comparava ao medo de enfrentar uma crise de saúde. Seus investidores sugeriram que ele procurasse um consultor financeiro.

Malhotra valorizava a orientação humana, mas os processos que a cercavam pareciam presos ao passado. Nos seis anos seguintes, ele conversou com seu próprio gestor de patrimônio e com mais de 100 outros profissionais e descobriu que papelada, softwares que não se comunicavam entre si e anotações de reuniões espalhadas por diferentes lugares ocupavam grande parte do trabalho deles.

Em 2021, ele lançou a Savvy Wealth para oferecer aos consultores softwares de IA capazes de assumir uma parcela maior do trabalho nos bastidores. Seus agentes conseguem acessar os investimentos, o plano financeiro e o histórico de reuniões de um cliente para analisar carteiras, executar cenários de planejamento e atualizar registros para que o consultor os revise. A Savvy agora conta com cerca de 150 consultores que administram mais de US$ 8 bilhões (R$ 40,8 bilhões), ante pouco mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) no início de 2025. A empresa levantou mais de US$ 100 milhões (R$ 510 milhões) nos últimos cinco anos e está avaliada em US$ 210 milhões (R$ 1,071 bilhão), segundo a PitchBook.

O avanço da inteligência artificial colocou em alerta os potenciais dinossauros da gestão de patrimônio — que empregam centenas de milhares de consultores financeiros e são responsáveis por mais de US$ 330 trilhões (R$ 1,683 quatrilhão) em ativos. Na verdade, quando a fintech californiana Altruist anunciou, em fevereiro, uma ferramenta de planejamento tributário baseada em IA que seria integrada à plataforma usada pelos consultores, uma onda de vendas fez o valor de mercado de diversas gestoras de patrimônio e plataformas de capital aberto despencar em mais de US$ 140 bilhões (R$ 714 bilhões). [Desde então, a Altruist foi adquirida pelo Vanguard Group por um valor estimado em US$ 5 bilhões (R$ 25,5 bilhões).]

A Altruist e a Savvy fazem parte de um número crescente de startups de tecnologia que buscam fortalecer o trabalho dos consultores financeiros, em vez de substituí-los. Atualmente, os consultores financeiros passam apenas cerca de metade do tempo com seus clientes, segundo Renaud Fages, sócio e diretor-gerente do Boston Consulting Group. O restante do tempo é consumido pela preparação de reuniões e por tarefas administrativas. Fages estima que a IA poderia reduzir esse trabalho pela metade, permitindo que os consultores dediquem até 75% do tempo à orientação dos clientes. O BCG estima que as startups de IA desenvolvidas para auxiliar consultores financeiros poderiam conquistar até US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões) em gastos anuais com softwares por parte de gestoras de patrimônio nos Estados Unidos.

Parker Ence, cofundador e CEO da Jump, com sede em Salt Lake City, Utah, e Mark Gilbert, cofundador e CEO da Zocks, de San Francisco, comandam duas dessas empresas que apostam que a IA pode automatizar boa parte do trabalho tedioso, mas necessário, realizado pelos consultores. Fundadas em 2022, as duas companhias se conectam aos softwares que os consultores já utilizam e, em seguida, usam IA para preparar resumos de reuniões, fazer anotações, atualizar registros de clientes e elaborar e-mails de acompanhamento. A Jump levantou mais de US$ 100 milhões (R$ 510 milhões) e é utilizada por mais de 35 mil consultores financeiros. A Zocks, utilizada por mais de 5 mil empresas, levantou US$ 65 milhões (R$ 331,5 milhões), incluindo uma rodada Série B de US$ 45 milhões (R$ 229,5 milhões) em janeiro, liderada pela Lightspeed Venture Partners e pela QED Investors. Segundo a PitchBook, a Jump e a Zocks foram recentemente avaliadas em US$ 525 milhões (R$ 2,6775 bilhões) e US$ 266 milhões (R$ 1,3566 bilhão), respectivamente.

“Cinco minutos depois da minha reunião, meu assistente já tem um rascunho do e-mail de acompanhamento pronto para eu revisar, as anotações estão no nosso CRM e tenho uma lista objetiva de tarefas”, diz Robert Gorman, cliente da Zocks e cofundador da Apollon Wealth Management. “De 10% a 15% do tempo administrativo de um consultor foi devolvido a ele. Isso permite uma conexão mais profunda com os clientes, mais tempo para buscar novos ativos, bem-estar mental ou geração de novas receitas.”

A IA da Jump, acessível por meio de uma extensão do navegador Chrome ou de um aplicativo, vai além ao ajudar os consultores a aprimorar seu desempenho profissional, criando um ciclo de feedback baseado em “melhores práticas”. Ence explica a funcionalidade “Jump Grow” da startup: “Nossa IA analisa a reunião depois que você termina de conversar com o cliente e basicamente diz: ‘Veja o que deu certo e veja o que os melhores consultores da sua empresa normalmente fariam nessa situação’.”

Em empresas maiores, as informações sobre um único cliente podem estar espalhadas por diferentes sistemas que armazenam suas contas de investimento, apólices de seguro, empréstimos, plano financeiro e histórico de reuniões. A Avantos, com sede em Nova York, conecta essas informações para que seus agentes de IA possam sinalizar o que um consultor deve fazer em seguida. Se um cliente tiver um bebê, por exemplo, o software pode sugerir uma conversa sobre um plano 529 ou a atualização de um testamento, diz o cofundador Bassam Chaptini. Para clientes como Mercer Advisors e Guardian Life, Chaptini afirma que o software aumentou em até 30% o número de clientes que um consultor pode atender.

“Tradicionalmente, esses compradores são muito conservadores, mas hoje estamos em um momento muito diferente de adoção da IA em relação ao que estávamos há dois anos”, diz Eric Kaplan, da Bessemer Venture Partners, que liderou a rodada Série A de US$ 25 milhões (R$ 127,5 milhões) da Avantos em julho de 2025. “Todas as salas de reunião de conselhos de administração estão perguntando como podem adotar a IA da maneira mais adequada para seus negócios.”

A IA também está avançando para áreas mais especializadas da consultoria financeira. A Luminary, com sede em Nova York, ajuda consultores a descobrir o que aconteceria com o patrimônio de um cliente caso ele morresse hoje, diz o cofundador e ex-executivo da AllianceBernstein, David Barnard. O software utiliza modelos da OpenAI para ler documentos como testamentos e trusts, combina essas informações com os ativos do cliente e cria um mapa visual de como o patrimônio seria distribuído.

“O que realmente importa para alguém é: ‘Meus filhos vão ficar bem?’”, diz Barnard. “Essas são as coisas mais importantes para clientes de alta renda, mas nenhum consultor tinha uma ferramenta para responder a essas perguntas de maneira ágil, muito menos de forma proativa.”

A Moment, fundada em Nova York em 2022, ajuda consultores a decidir como alterar a carteira de investimentos de um cliente. Os consultores podem fornecer aos agentes de IA da empresa as posições de um cliente e descrever o que desejam mudar, como aumentar a diversificação ou reduzir a concentração em uma única ação. Os agentes interpretam a solicitação, enquanto o software da Moment calcula quais investimentos comprar e vender, levando em conta os impostos e as regras de investimento da empresa. Um ser humano aprova as operações antes que qualquer coisa aconteça.

Mesmo com a IA avançando para além das tarefas administrativas e entrando no trabalho analítico que está no centro da consultoria financeira, Fages, do BCG, não espera que ela substitua os consultores. Segundo ele, o relacionamento com o cliente e a empatia serão ainda mais importantes à medida que a profissão se tornar menos técnica.

“A moeda é a confiança”, diz Fages. “Há muitas pessoas com dinheiro que simplesmente não sabem o suficiente, não querem saber ou não querem dedicar tempo para saber, e precisam da validação de outras pessoas.”

Mesmo que a IA não consiga substituir o consultor financeiro, ela poderia reduzir drasticamente a necessidade de equipes de apoio. A Waypoint West, uma jovem empresa de gestão de patrimônio com sede em San Francisco, é um dos primeiros exemplos de consultores adotando uma abordagem do tipo faça você mesmo com o uso de IA. As irmãs Haley e Brooks Schaffer lançaram a Waypoint em 2025, depois de passarem por BlackRock, ICONIQ Capital e Alkeon Capital. Frustradas porque até mesmo pequenas mudanças no Salesforce podiam levar de quatro a seis semanas, elas construíram seu próprio CRM em um fim de semana usando Airtable e o Claude, da Anthropic. Agora, quando querem acompanhar uma nova informação sobre um cliente, podem adicioná-la ao sistema e pesquisar anotações antigas de reuniões para preencher os dados em menos de uma hora.

Quase um ano após o lançamento, a Waypoint West ainda é administrada exclusivamente pelas duas irmãs, que juntas gerenciam ativos de seis famílias com patrimônio líquido ultra elevado. Schaffer diz que trabalhos como analisar a carteira de um potencial cliente e reunir as pesquisas necessárias teriam exigido um analista em tempo integral em uma empresa tradicional. “No mundo antigo, antes da IA, não haveria nenhuma possibilidade de Brooks e eu estarmos administrando nosso negócio sem ter contratado alguém a essa altura”, afirma.

Mas Schaffer vê uma vantagem maior do que simplesmente operar com menos pessoas. Ela acredita que a IA pode ajudar a Waypoint West a conquistar a próxima geração de clientes ricos.

“A próxima geração se importa com a forma como o patrimônio afeta sua vida e a maneira como passa seu tempo”, diz ela. “Posso montar muito rapidamente algo completamente personalizado para aquela pessoa e fazer isso em escala por causa da IA.”

Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.