A situação é a mesma no Brasil e nos Estados Unidos. A inflação está alta. Os motivos são semelhantes. A alta dos preços do petróleo, os gastos excessivos dos governos e o retorno das barreiras comerciais e tarifárias, que elevam os preços de matérias primas e de produtos industrializados. Há vários índices de inflação no Brasil, mas o “oficial” é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado pelo Banco Central (BC) como medida para a meta de inflação.
Nos 12 meses até julho de 2026, dado mais recente disponível, o IPCA mostrou uma inflação acumulada de 4,44%. No entanto, esse resultado tende a subestimar a variação do custo de vida para as famílias com mais dinheiro. “Essas famílias pagam uma inflação acima da média”, diz Rafael Pereira, fundador da fintech Zeom.
Sua empresa calculou uma inflação para as faixas de renda mais alta, a partir de R$ 30 mil por mês. E a constatação é que os preços de itens como saúde, educação e eletrônicos fazem com que a mordida nos preços chegue a ser o dobro do registrado pelo índice do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que calcula o IPCA. Em vez dos 4,44% indicados, a inflação da alta renda foi quase o dobro, 8,19% nos 12 meses até julho.
Escolas e planos de saúde
No último IPCA divulgado pelo IBGE, os preços do grupo Habitação tiveram a maior alta, 0,99%, puxada pelo reajuste da energia elétrica residencial, que subiu de 1,53% para 3,09% no mês. O grupo Saúde e cuidados pessoais avançou 0,40%, com peso do reajuste dos planos de saúde autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), de até 5,11% para contratos mais novos. Já os preços do grupo Alimentação e bebidas recuaram 0,67% no mês.
É justamente essa divisão — moradia e saúde subindo mais que a média, enquanto alimentos caem — que a Zeom tenta capturar com mais detalhe. A empresa usa os pesos da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, mas substitui os preços médios por preços efetivamente pagos por quem ganha mais. Uma família com renda de R$ 40 mil, segundo Pereira, gasta a mesma fatia do orçamento com moradia, escola e saúde que a média nacional. A diferença está no produto: plano de saúde e mensalidade escolar de padrão mais alto em vez de básico. Para chegar a esse retrato, a Zeom vem analisando dados disponíveis desde 2018. “A principal descoberta do estudo está nos preços efetivamente pagos por esse público”, afirma Pereira.
O acumulado desde 2018 reforça a distância entre os dois indicadores. Nesse período, o Índice Zeom de Alto Padrão soma alta de 83,5%, contra 55,2% do IPCA. Na prática, uma família que gastava R$ 100 mil por mês em 2018 para manter seu padrão de vida precisaria hoje de cerca de R$ 183,5 mil para consumir a mesma cesta de bens e serviços. Pela inflação oficial, o mesmo padrão custaria cerca de R$ 155,2 mil — uma diferença próxima de R$ 28 mil por mês.
Pereira afirma que o objetivo não é substituir o IPCA como referência oficial, mas mostrar que diferentes faixas de renda convivem com dinâmicas de preços distintas. E chamar a atenção para as necessidades diferentes de investimentos das famílias de renda mais alta no longo prazo. “A preservação do patrimônio requer uma diversificação maior”, diz ele.