O Nubank escolheu os Estados Unidos para iniciar uma nova etapa. Depois de construir o maior banco digital da América Latina, com mais de 140 milhões de clientes, a companhia iniciou operações no maior mercado financeiro do mundo e apresentou o Nu Global, uma conta multimoeda que permitirá à empresa chegar a mais de 35 países sem precisar abrir inicialmente um banco em cada um deles.
Entre esses mercados está a Argentina. “O Nu Global é a forma de começarmos a atender a Argentina. Temos uma equipe que continua crescendo no país, com pessoas excelentes em diferentes áreas, e esperamos poder dar os próximos passos nos próximos anos”, afirmou David Vélez, fundador e CEO do Nu, em entrevista à Forbes Argentina.
O lançamento foi realizado em Miami, no estádio do Inter Miami, onde joga Lionel Messi e que, como parte do acordo comercial com a instituição financeira, passará a se chamar Nu Stadium. De lá, Vélez e Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank e CEO do Nu US, apresentaram a estratégia com a qual a companhia pretende deixar de ser identificada apenas como um banco latino-americano para se tornar uma plataforma financeira global.
Como funcionará o Nu Global na Argentina
O Nu Global estará disponível para usuários argentinos nas próximas semanas. Segundo Vélez, inicialmente o serviço funcionará a partir da Suíça, por meio de um banco parceiro. “Os clientes dos 35 países, incluindo a Argentina, poderão efetivamente abrir uma conta em um banco na Suíça (Sygnum Bank), manter seu dinheiro em dólares, enviá-lo para outros países onde estivermos operando em tempo real e sem custo, ter um cartão de débito e investir em alguns ativos digitais”, detalhou.
A conta será estruturada sobre stablecoins. Os saldos em dólares serão mantidos em USDC e os denominados em euros, em EURC. Ambos os ativos digitais buscam manter paridade de um para um com suas respectivas moedas.
A oferta inicial inclui rendimento anual de 3,5% para os dólares digitais e de 2,2% para os euros digitais, com crédito diário. Os clientes também poderão gerar um cartão virtual Mastercard para adicioná-lo ao Apple Pay ou Google Pay e realizar compras internacionais.
O produto permitirá transferir dinheiro entre os países incluídos na rede. O Nu anunciou que não cobrará tarifas por essas movimentações e que aplicará uma variação cambial reduzida, com o objetivo de que a operação não gere ganhos nem perdas para a empresa.
Os usuários argentinos poderão baixar o aplicativo, selecionar o país, concluir o processo de cadastro e abrir a conta. Embora o cadastro já esteja habilitado, Vélez afirmou que o serviço começará a funcionar nas próximas semanas.
A conta internacional não equivale, pelo menos inicialmente, à chegada do Nubank como banco regulado na Argentina. Da mesma forma, os saldos mantidos em stablecoins não devem ser confundidos com depósitos bancários tradicionais. As condições de custódia, proteção dos recursos e acesso aos rendimentos deverão ser consultadas nos termos definitivos do produto.
Estados Unidos como plataforma global
A chegada à Argentina por meio do Nu Global faz parte de uma expansão mais ampla. Nos Estados Unidos, o Nubank começou a oferecer uma conta que remunera os depósitos em dólares a uma taxa anual de 3,5%, juntamente com um cartão Mastercard metálico sem anuidade e cashback inicial de 1,5%.
O cashback poderá chegar a 2% para os clientes que receberem seus rendimentos na conta e cumprirem as condições estabelecidas. A taxa da conta, por sua vez, aumentará para 4,5% para determinados saldos vinculados ao cartão.
Durante a primeira etapa, os depósitos serão administrados pelo Lead Bank e terão cobertura da Federal Deposit Insurance Corporation dentro dos limites aplicáveis. O Nu também recebeu aprovação condicional para constituir seu próprio banco nacional e projeta iniciar essa operação em 2027.
“O maior desafio nos Estados Unidos será construir uma marca conhecida e fazer isso de maneira orgânica, por recomendação dos próprios clientes, como crescemos no Brasil, no México e na Colômbia. Os serviços financeiros são baseados em confiança”, afirmou Vélez.
O Nu Stadium cumpre um papel nessa estratégia. Sua localização em Miami permite à companhia ganhar visibilidade nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, manter um vínculo com a América Latina por meio de Messi, do futebol e da forte presença do público hispânico. “Cerca de 50 milhões de pessoas passam por este aeroporto todos os anos. A primeira e a última coisa que verão será o logo do Nu. Isso nos ajudará a construir uma marca global de serviços financeiros”, explicou.
O Nubank chega a essa etapa depois de superar US$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões) em lucro líquido trimestral e registrar retorno sobre o capital superior a 32%. Para Vélez, a expansão está apenas começando.
O Nu Global será a primeira oportunidade para medir o tamanho da demanda existente na Argentina. Se a resposta dos usuários e o cenário regulatório forem favoráveis, o produto poderá se tornar o passo anterior a um retorno que a companhia havia avaliado sete anos atrás e que agora volta a aparecer em seus planos.
O primeiro passo antes de uma possível operação local
Para o Nubank, o Nu Global também funcionará como uma ferramenta para avaliar novos mercados. A plataforma permitirá medir o nível de interesse pela marca, a demanda por contas internacionais, a utilização de transferências e a necessidade de produtos financeiros locais.
“É o primeiro passo para começar a construir um negócio de serviços bancários em todos esses países. Não necessariamente teremos bancos em cada um deles, mas claramente vemos uma oportunidade em alguns mercados da América Latina, como a Argentina”, explicou Vélez.
Segundo o fundador, uma segunda etapa poderia incluir uma maior adaptação da oferta ao mercado local, a obtenção de licenças e o lançamento de meios de pagamento ou produtos de crédito adaptados ao país. A decisão dependerá tanto da resposta dos usuários quanto das condições regulatórias. Alguns mercados permitem oferecer serviços internacionais sem uma licença bancária local, mas estabelecem limites para a captação ativa de clientes ou para a integração com sistemas nacionais de pagamentos.
“Há países muito mais abertos à concorrência e outros mais fechados. Em geral, cinco ou seis bancos concentram entre 70% e 80% do sistema. Dependendo do quanto o governo ou o regulador estiver interessado em trazer concorrência e mais benefícios para os consumidores, esse sistema se abre ou se fecha”, afirmou.
Nesse contexto, Vélez disse que a evolução da Argentina nos últimos anos foi favorável à companhia. “O desenvolvimento dos últimos dois ou três anos foi bastante positivo em termos de regulação dos serviços financeiros. Era um mercado muito protegido e houve muitas medidas para desregulá-lo e torná-lo mais aberto à concorrência. A Argentina nos parece um mercado mais atraente a cada dia”, afirmou.
O executivo também destacou que a baixa penetração do crédito representa uma oportunidade. Na sua avaliação, as restrições às taxas cobradas em anos anteriores reduziram os incentivos para conceder empréstimos a clientes de maior risco e deixaram parte da população fora do sistema formal.
A chegada que não aconteceu em 2019
O interesse do Nubank pela Argentina não é novo. Vélez confirmou que o país seria o terceiro mercado da companhia, depois do Brasil e do México. No entanto, a empresa mudou os planos após a mudança política e econômica ocorrida em 2019. “A Argentina seria nosso terceiro país. Com a mudança de governo, as condições mudaram completamente e tivemos que dizer: ‘Não vamos’. Então fomos para a Colômbia”, revelou.
Apesar dessa decisão, o Nubank manteve equipes de tecnologia no país e recentemente voltou a ampliar sua presença por meio de um hub de talentos. A companhia ainda não definiu se uma eventual operação financeira local será construída do zero ou por meio da aquisição de uma instituição existente.
Vélez explicou que o Nu analisou aquisições nos diferentes países considerados para sua expansão, mas ressaltou que a prioridade continua sendo o crescimento orgânico. “Nossa preferência continua sendo construir do zero porque acreditamos que essa é a melhor maneira de controlar a experiência. Pode ser um pouco mais lento, mas estamos apostando no longo prazo. Não descarto que entremos em algum desses países por meio de uma aquisição, mas, neste momento, a meta é fazer isso organicamente”, afirmou.
O executivo não confirmou que o Nubank tenha negociado especificamente a compra do Brubank, uma operação que circulou como rumor no mercado argentino.
A concorrência com o Mercado Pago e os bancos
Um eventual retorno também colocaria o Nubank frente a frente com o Mercado Pago, um dos principais players financeiros digitais da região. No entanto, Vélez descartou que se trate de uma competição de soma zero. “Sempre tivemos uma relação excepcional com o Mercado Livre e o Mercado Pago. Conheço bem Marcos Galperin e Ariel Szarfsztejn. Temos muito respeito por eles. Eles continuarão crescendo e nós também”, afirmou.
Para o fundador do Nu, o principal espaço para conquistar clientes não está necessariamente entre outras fintechs, mas nos bancos tradicionais, no uso de dinheiro em espécie e na informalidade. “95% do sistema financeiro global ainda está nas mãos dos bancos tradicionais. Esse é o concorrente. Esses mercados são muito grandes e há espaço para que o Nubank e o Mercado Pago continuem crescendo”, explicou.
Ele também considerou que as transferências instantâneas e os cartões podem coexistir. Sistemas como o Pix, no Brasil, reduziram o uso de dinheiro em espécie e pressionaram os cartões de débito, mas não eliminaram a demanda por crédito.
Na Argentina, onde as transferências instantâneas e os pagamentos por QR Code alcançaram elevada adoção, o Nubank vê espaço para desenvolver produtos de financiamento. Essa capacidade, segundo Vélez, representa uma diferença em relação às plataformas digitais concentradas exclusivamente em pagamentos ou contas transacionais.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com