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Onde Estão as Oportunidades de Investimento no Mercado Global nos Próximos 12 Meses

Executivo do Itaú explica por que a inteligência artificial e o aumento das dívidas públicas favorecem bolsa e pressionam os juros de longo prazo

6 min

Gerir investimentos em meio às mudanças dos mercados globais exige disciplina, mas também capacidade de adaptação ou, como diz a expressão popular, saberdançar conforme a música. ParaSylvio Castro, Head de Global Investment Solutions do Itaú, uma boa aplicação não depende de prever o futuro com precisão, mas sim de ajustar as carteiras às probabilidades que o cenário econômico apresenta a cada momento.

“Fazer um bom trabalho como investidor é, mais do que tudo, uma grande lição de humildade. A gente constrói narrativas e acaba se convencendo antes dos outros de que sabe o que vai acontecer. No final das contas, a gente não sabe o que vai acontecer, mas sabe como se adaptar ao que está acontecendo”, afirmou Castro durante o Avenue Connection 2026.

Na prática, essa adaptação passa por aumentar ou reduzir a exposição aos diferentes ativos, dentro dos limites definidos pela estratégia de longo prazo. Segundo o executivo, esse trabalho pode acrescentar entre1% e 2% de retorno por anoà carteira.

“Nos últimos 12 meses, esse trabalho de adaptação gerou quase 2% de ganho adicional ao que o estratégico já teria gerado para a gente”, disse. Em uma janela de três anos, acrescentou, a gestão tática acumulou aproximadamente4% de retorno excedente.

No horizonte de semanas ou meses, Castro considera que indicadores de crescimento e inflação são mais relevantes para a tomada de decisão do que ovaluationdos ativos. “Essa história de ficar olhando valuation como driver é mais perigosa do que parece. É mais importante você entender se o mundo está crescendo e a tendência da inflação”, afirmou.

Isso não significa abandonar as métricas de preço. De acordo com ele, ovaluationcontinua sendo fundamental para horizontes muito longos, superiores a dez anos. Para decisões, porém, a direção da economia tende a exercer maior influência sobre o comportamento dos mercados.

Onde estão as oportunidades?

No cenário atual, classificado por Castro como dereflação— combinação de crescimento forte e inflação mais pressionada —, a preferência está concentrada em ativos capazes de se beneficiar da expansão da atividade econômica.

Narenda variável, a visão é positiva. A resiliência da economia e o crescimento dos lucros corporativos sustentam uma posição sobrealocada em ações globais, especialmente em empresas ligadas aos ganhos de produtividade, como companhias de tecnologia, semicondutores e infraestrutura de inteligência artificial.Ativos reaistambém aparecem entre as posições favorecidas.

O movimento é diferente narenda fixa de longo prazo. A elevada emissão de dívida soberana e a perspectiva de juros estruturalmente mais altos levam a uma postura mais cautelosa. “Isso é uma das razões por que, no nosso comitê, o nosso viés está em ter menos aplicação em renda fixa com prazo longo e ter mais aplicação em bolsa”, afirmou.

Já ocrédito privado, principalmente nos vencimentos mais curtos, continua atraente. A atividade econômica aquecida e os níveis reduzidos de inadimplência favorecem essa classe de ativos. A estratégia, no entanto, não significa abandonar completamente uma classe para concentrar todos os recursos em outra. Castro ressaltou que a gestão tática funciona como um ajuste em torno de uma carteira estratégica construída para o longo prazo.

“Não estou falando para ter zero em uma coisa e 100% na outra. É o tático, dentro daquele orçamento que você vai desviar da sua alocação de longuíssimo prazo”, comentou.

IA impulsiona novo ciclo global de investimentos

A força da atividade econômica global nos últimos anos também tem outra explicação. Segundo Castro, o mundo atravessa o primeiro grande ciclo de investimentos em infraestrutura ecapexdesde o período entre 2002 e 2008. Nos últimos 36 meses, a economia global teria permanecido 30 meses em um ambiente de crescimento acelerado e disseminado. Um dos principais motores desse movimento é ainteligência artificial.

“A razão é a AI. Identificamos que finalmente a cognição virou um produto capaz de escalar, vender e ter preço. Pela minha própria área, percebo que coisas que demoravam meses estão demorando literalmente dias agora”, afirmou.

A transformação tem provocado uma corrida por infraestrutura, especialmente pordata centers. De acordo com Castro, empresas e investidores trabalham com taxas internas de retorno entre20% e 25% ao ano em dólarespara alguns desses projetos. Com uma rentabilidade esperada tão elevada, pequenas variações no custo do dinheiro deixam de ser suficientes para interromper os investimentos.

“Para esse cara, faz mesmo diferença tomar dinheiro a 4% ou a 5% se o retorno esperado está na casa de 20% a 25%? Provavelmente não. Eles vão continuar puxando o custo do capital para cima”, avaliou. Ele comentou que a disputa por uma quantidade limitada de capital ajuda a explicarpor que os juros globais devem permanecer em patamares mais elevados.

Esse novo nível tende a ampliar a diferença entre empresas e setores. Companhias capazes de gerar retornos elevados sobre o capital ficam em posição mais favorável, enquanto negócios dependentes de financiamento barato e de longo prazo enfrentam maior pressão, como o mercado imobiliário comercial. Nesse caso, o setor engloba ativos como escritórios, shopping centers, hotéis e galpões logísticos que são sensíveis ao aumento do custo do crédito.

Fiscal expansionista também pressiona os juros

A inteligência artificial, porém, explica apenas parte dessa dinâmica. O aumento dos gastos públicos e da dívida nas principais economias também contribui para manter os juros elevados. Castro chama atenção para um cenário em que governos ampliam despesas e emissões de títulos ao mesmo tempo que bancos centrais tentam controlar a inflação por meio de uma política monetária mais restritiva.

“Basicamente, o que a gente vê como fenômeno no mundo todo é o fiscal com o pé no acelerador e a política monetária com o pé no freio, junto com uma emissão de dívida que faz com que a curva longa também fique mais pressionada”, resumiu.

O resultado aparece principalmente nos vencimentos mais longos, com pressão sobre as taxas dos títulos de10 e 30 anos. Para o investidor, isso muda não apenas o custo do capital, mas também a forma de construir as carteiras, aponta o especialista do Itaú.

Nesta quarta-feira (16), o Federal Reserve (Fed) e o Banco Central (BC) decidemos rumos das taxas de juros nos Estados Unidos e no Brasil, respectivamente. A expectativa é de movimentos em direções opostas: alta de 0,25 ponto percentual nos juros americanos e corte de mesma magnitude na Selic, para 13,75% ao ano.

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