Em poucos meses, uma lista de nomes conhecidos passou a engrossar os tribunais e as mesas de negociação de credores. Casas Bahia. Marabraz. Tok&Stok e Mobly. St. Marché. Braskem. Raízen. Grupo Pão de Açúcar. Habib’s. As histórias por trás de cada caso são diferentes. Há empresas pressionadas por dívidas acumuladas, outras por problemas de gestão, mudanças no mercado ou choques específicos. Mas a sucessão de nomes revela um fenômeno maior. Companhias de setores distintos estão chegando, quase ao mesmo tempo, à mesma mesa: a da renegociação de suas dívidas.
Os dados ajudam a dimensionar a tendência. Em maio de 2026, o Monitor RGF de Recuperação Judicial registrava 6.341 empresas em recuperação judicial em sua base restrita – um recorte que exclui as microempresas e abrange um universo de cerca de 2,7 milhões de empresas ativas. O índice equivale a 2,32 empresas em recuperação para cada mil companhias acompanhadas.
A trajetória é ascendente desde 2023. No primeiro trimestre daquele ano, eram 4.014 empresas em recuperação judicial. Em pouco mais de três anos, o número avançou quase 58%. Entre os setores mais afetados estão comércio, indústria de transformação e agropecuária.

O fenômeno também não está concentrado nas grandes corporações que dominam as manchetes, ele atravessa diferentes portes, mas se concentra nas médias empresas, que respondem por 49% das 6.341 companhias em recuperação judicial no recorte. Em termos proporcionais, porém, a vulnerabilidade cresce entre as maiores: o Índice de Recuperação Judicial (IRJ) chega a 14,4 casos por mil empresas muito grandes e a 11,7 entre as grandes, ante 2,5 entre as médias e apenas 0,1 entre as microempresas.
As médias empresas são o centro numérico da onda. Os grandes grupos são sua face mais visível e, pelo tamanho de suas dívidas e pelo número de credores que envolvem, têm potencial para produzir os efeitos mais amplos.
A conta chegou
A crise que agora aparece nos tribunais começou a ser construída quando o dinheiro ainda era barato. Durante a pandemia, empresas brasileiras recorreram ao crédito para atravessar um período de receitas incertas, lojas fechadas e atividade econômica paralisada. Com a Selic em 2% ao ano e programas de financiamento subsidiado, tomar empréstimos era, em muitos casos, uma forma de sobreviver – pagar fornecedores, financiar estoques, manter funcionários e preservar a operação.
O problema é que a dívida não desapareceu quando a pandemia terminou. Em muitos casos, ela foi renovada. As empresas refinanciaram empréstimos, emitiram novos títulos e recorreram a diferentes fontes de capital para administrar passivos acumulados. O crédito barato ajudou a atravessar a crise, mas também contribuiu para ampliar o endividamento. E, quando chegou a hora de renovar essas dívidas, o cenário havia mudado radicalmente.
Segundo Carla Beni, economista e professora da FGV, parte das dificuldades atuais nasceu justamente desse descompasso. “Em 2020, a Selic chegou a 2%, e tivemos uma série de programas com crédito subsidiado. As empresas puderam tomar empréstimos, inclusive para financiar a folha de pagamentos e evitar demissões.” A mudança veio depois, com a rápida alta do custo do dinheiro. “Quando chegou o momento de renovar esses empréstimos, o custo do capital era completamente diferente.”
É essa passagem – do crédito barato para o refinanciamento caro – que ajuda a explicar por que problemas acumulados durante anos começaram a aparecer agora.
Para Armando Castelar, economista e ex-chefe do Departamento de Economia do BNDES, os juros elevados funcionaram como um agravante para empresas que já carregavam fragilidades próprias. “Não existe um único fator que explique tudo. Mas, sem dúvida, juros altos durante um período prolongado, em uma realidade de forte aumento do endividamento, contribuíram para agravar a situação de empresas que já enfrentavam problemas de gestão, de mercado ou outros choques.”
A diferença em relação a outros ciclos de aperto monetário, argumenta Castelar, está no tamanho da dívida acumulada. O Brasil já conviveu com juros ainda mais elevados. Mas, no passado, o crédito representava uma parcela menor da economia e empresas e famílias carregavam menos obrigações financeiras. Desta vez, o aperto encontrou uma economia muito mais endividada.
Nos últimos anos, a expansão do crédito foi acompanhada pelo crescimento do próprio mercado de capitais como fonte de financiamento. Empresas passaram a ter mais instrumentos para captar recursos – de debêntures a CRAs e CRIs, entre outras estruturas. Isso ampliou as alternativas de financiamento e reduziu a dependência exclusiva dos bancos. Mas também multiplicou os canais pelos quais a dívida se espalhou pela economia.
“O que mais mudou foi o forte aumento do endividamento, impulsionado também pelo desenvolvimento do mercado de capitais”, diz Castelar. “Hoje existem instrumentos como CRAs, debêntures incentivadas e outras formas de financiamento que não tinham a mesma relevância no passado. Isso facilitou muito o endividamento empresarial.”
A imagem é a de uma conta que foi sendo rolada de um ano para o outro, enquanto havia crédito disponível e expectativa de que o custo do dinheiro cairia. Quando os juros permaneceram elevados por mais tempo do que muitas empresas esperavam, essa estratégia ficou mais difícil de sustentar.
O juro alto, portanto, não criou necessariamente a crise de cada companhia. Mas tornou muito mais caro conviver com problemas que já existiam. Essa distinção é central para entender 2026. Há empresas com modelos de negócio pressionados pela transformação do consumo. Há companhias afetadas por problemas de governança, decisões de gestão ou choques específicos. Outras carregam passivos que vêm de muitos anos. O elemento comum é que, em um ambiente de crédito mais caro, ficou mais difícil adiar o acerto de contas.
Juros são o pano de fundo, não o roteiro
Seria tentador encontrar um único culpado para a sucessão de recuperações. Com os juros elevados e o custo do crédito pressionando balanços empresariais, a explicação mais imediata seria atribuir a onda de crises à política monetária. Mas os casos mostram uma realidade mais complicada.
Os juros são o pano de fundo. Não são o roteiro de cada crise. Uma taxa elevada pode transformar uma dívida administrável em um problema urgente. Pode dificultar o refinanciamento, reduzir o caixa disponível para investimentos e aumentar o risco de inadimplência. Mas não explica, por si só, por que empresas de setores tão diferentes chegaram à recuperação judicial ou extrajudicial. (Ver imagem abaixo dos diferentes setores em RJ)

A história da Braskem, por exemplo, não é a mesma da Casas Bahia. A companhia petroquímica carrega os efeitos de um problema específico e de um passivo bilionário relacionado ao desastre geológico em Maceió. A Oi, cuja trajetória de dificuldades financeiras atravessa mais de uma década, tampouco pode ser explicada pelo atual ciclo de juros. No varejo, a equação é outra: além do endividamento, empresas tradicionais enfrentam uma transformação acelerada no comportamento do consumidor e a necessidade de sustentar estruturas físicas em um mercado cada vez mais digital
O que as aproxima não é necessariamente a origem da crise, mas o ambiente em que essas fragilidades passaram a ser testadas. Juros altos funcionam como um teste de estresse para problemas que antes podiam ser administrados ou, simplesmente, adiados.
Uma empresa pode ter tomado decisões ruins de investimento. Outra pode ter demorado a adaptar seu modelo de negócios. Uma terceira pode ter sido atingida por um evento extraordinário. Nenhuma dessas situações foi necessariamente criada pelos juros. Mas todas se tornam mais difíceis de administrar quando o dinheiro custa mais.
Carlos Honorato, economista e professor da FIA, faz uma distinção semelhante ao analisar o varejo. O setor que concentra o maior número de empresas em recuperação judicial no levantamento, com 1.333 casos. Para ele, os juros elevados são uma parte importante da explicação, mas não podem servir como justificativa universal. “Os juros explicam parte do problema, mas não justificam tudo.”
No varejo, a pressão é particularmente complexa porque atua nos dois lados do negócio. As empresas dependem de crédito para financiar estoques e capital de giro, mas também dependem de um consumidor com disposição, e capacidade, para comprar. Quando o crédito fica caro, a conta aperta simultaneamente no caixa da companhia e no bolso do cliente.
Mas o setor também enfrenta problemas que não nasceram do atual ciclo de juros. A expansão do comércio eletrônico alterou hábitos de consumo e elevou a concorrência, enquanto empresas tradicionais precisaram adaptar redes de lojas, logística e modelos de negócio a uma dinâmica mais digital. Em alguns casos, essa transformação ocorreu sobre estruturas construídas para outro mercado e financiadas por dívidas acumuladas ao longo de anos.
A diferença importa. Atribuir todas as recuperações à economia atual transformaria empresas com histórias radicalmente distintas em vítimas do mesmo acidente. O quadro parece ser outro: 2026 reuniu, sob a mesma pressão financeira, problemas que já vinham se formando em ritmos diferentes.
Em alguns casos, a recuperação representa a etapa mais recente de uma crise longa. Em outros, é a tentativa de reorganizar uma estrutura financeira que deixou de ser sustentável. E, em empresas que dependem fortemente do mercado interno, a dificuldade é dupla: ao mesmo tempo em que o custo de suas dívidas aumenta, o consumidor também se torna mais cauteloso e endividado.
A consequência é uma espécie de seleção financeira. Em tempos de dinheiro barato, empresas frágeis podem sobreviver por mais tempo. Quando o capital se torna caro, as diferenças entre modelos de negócio sustentáveis e insustentáveis, entre dívidas administráveis e excessivas, e entre problemas temporários e estruturais ficam mais evidentes.
A crise sai da empresa e entra no sistema
Uma recuperação judicial começa com uma empresa. A conta, porém, raramente fica restrita a ela. Quando uma grande companhia reestrutura suas dívidas, o prejuízo precisa encontrar novos donos. Fornecedores podem receber menos ou mais tarde. Bancos e investidores precisam reconhecer perdas ou rever o risco de suas carteiras. Fundos podem descobrir exposição a títulos que, até pouco tempo antes, pareciam apenas mais uma fonte de rendimento.
É essa dispersão da dívida que torna a sequência de grandes recuperações mais relevante para a economia do que a simples contagem de pedidos. Nicole Berto, executiva do Instituto Empresa, observa que o colapso financeiro costuma ser precedido por sucessivas tentativas de financiamento. Antes de chegar à recuperação, a empresa pode ter recorrido a debêntures, CRIs, CRAs e outras formas de captação. Quando a crise finalmente explode, o risco já não está concentrado em seu balanço. “A crise de uma empresa nunca é só dela”, diz.
A recuperação, portanto, não elimina o prejuízo. Ela reorganiza quem terá de absorvê-lo. E quanto maior a empresa, maior tende a ser a rede atingida. Um grande cliente em recuperação pode pressionar o caixa de seus fornecedores. Um título em dificuldade pode afetar fundos e investidores. Uma renegociação que impõe perdas aos credores altera o capital disponível para financiar outras empresas. É assim que uma crise empresarial deixa de ser apenas empresarial.
Não é dominó. É contágio
Isso não significa que uma recuperação provoque automaticamente outra. Os especialistas ouvidos pela reportagem rejeitam a ideia de uma fila inevitável de empresas rumo aos tribunais. Cada caso tem sua própria origem. A Braskem não é a Casas Bahia; uma crise societária não é o mesmo que um modelo de negócios em transformação.
O que pode se espalhar é outra coisa: a desconfiança. Quando grandes empresas deixam de honrar suas dívidas nas condições originalmente contratadas, o mercado recalcula o preço do risco. Bancos podem reduzir limites. Fornecedores podem encurtar prazos. Investidores podem exigir mais garantias e retornos maiores.
Marco Túlio, advogado especializado em recuperação judicial da Abi Ackel Advogados, vê esse como um dos principais canais de transmissão dos casos recentes. O efeito não é jurídico, mas financeiro: uma sequência de crises torna o crédito mais seletivo.
A diferença entre dominó e contágio é importante. No primeiro, uma empresa cai porque a outra caiu. No segundo, a queda de uma muda as condições de sobrevivência das demais.
Empresas saudáveis também podem sentir esse efeito. Não porque tenham os mesmos problemas das companhias em recuperação, mas porque passam a negociar com credores mais cautelosos. Para as mais frágeis, isso pode criar um círculo particularmente perigoso: quanto maior a percepção de risco, mais caro o dinheiro; quanto mais caro o dinheiro, mais difícil sustentar uma dívida elevada. A recuperação de uma empresa pode não derrubar a próxima. Mas pode tornar sua dívida mais difícil de carregar.
Solução ou brecha?
A expansão das recuperações também recoloca uma pergunta desconfortável: até onde deve ir a proteção dada a uma empresa em crise?
A lógica da recuperação judicial é preservar negócios economicamente viáveis. Se uma empresa vale mais funcionando do que sendo liquidada, credores, trabalhadores e a economia podem se beneficiar de uma reestruturação.
Mas preservar a empresa não significa preservar integralmente os créditos. Planos podem alongar prazos e impor deságios. Para o devedor, é fôlego. Para o credor, é a aceitação de que receberá menos e mais tarde.
o advogado Marco Túlio chama atenção para a inexistência de um limite legal específico para o percentual de deságio. Na prática, a negociação pode envolver cortes profundos no valor das dívidas, desde que observadas as regras do processo e a aprovação dos credores.
A recuperação, assim, abre uma disputa sobre como repartir perdas que já existem. É nesse ponto que Armando Castelar faz sua ressalva. O instrumento, diz, precisa ser usado para salvar empresas cuja continuidade faça sentido econômico, e não como um mecanismo oportunista para simplesmente deixar de pagar dívidas. “Precisa ser alguma coisa que não gere oportunismo das empresas para simplesmente tentar não pagar suas dívidas”, afirma.
A questão não é sugerir que as empresas que entraram em recuperação em 2026 tenham recorrido indevidamente ao processo. É outra: quanto mais comum se torna o instrumento, maior se torna o debate sobre seus incentivos.
Um sistema rígido demais pode empurrar empresas viáveis para a falência. Um sistema tolerante demais pode fazer os credores cobrar mais caro de todos antes de emprestar.
A recuperação judicial resolve uma crise dividindo seu custo. A discussão é sobre até que ponto essa divisão preserva a empresa sem destruir a confiança necessária para financiar a próxima.
A próxima conta
A onda de 2026 pode não ter terminado. Para algumas empresas, uma futura queda dos juros poderá trazer alívio. Para outras, talvez chegue tarde demais. Uma redução no custo do dinheiro melhora a matemática da dívida, mas não corrige automaticamente problemas de gestão, modelos de negócio ultrapassados ou mercados que mudaram.
Há ainda outro risco. Uma desaceleração econômica pode ajudar a abrir espaço para juros menores, mas também reduzir receitas justamente das empresas que precisam de caixa para sobreviver até que o alívio chegue.
Armando Castelar resume esse dilema: a atividade mais fraca pode facilitar a queda dos juros, ao mesmo tempo em que torna mais difícil a vida das companhias financeiramente vulneráveis.
O desafio, portanto, não é apenas quanto os juros vão cair. É quem conseguirá esperar por eles.
As empresas que ainda não recorreram à recuperação continuam enfrentando vencimentos, fornecedores e um mercado de crédito mais atento ao risco. E, depois de uma sequência de grandes crises, ganhar tempo deixou de ser uma estratégia tão simples quanto antes.
2026 pode entrar para a história como o ano das recuperações judiciais não porque todas as empresas tenham sofrido da mesma doença. Pelo contrário. Foi o ano em que crises muito diferentes chegaram, quase ao mesmo tempo, ao mesmo ponto de encontro: a dívida que já não podia mais ser carregada nas condições anteriores.
O crédito barato ajudou a adiar algumas decisões. A recuperação judicial oferece uma nova oportunidade para reorganizá-las. A próxima conta será saber quantas empresas ainda precisam dessa segunda chance, e quantas conseguirão usá-la para voltar a ser viáveis.