O Federal Reserve (Fed) confirmou as apostas majoritárias do mercado financeiro e manteve as taxas básicas de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano.
A decisão, amplamente precificada, veio em um tom duro — hawkish, no jargão do mecrado — marcado por discordâncias internas no comitê, escalada nas cotações globais de energia e um anúncio que altera a dinâmica de governança da autoridade monetária para os próximos anos.
“Em relação à decisão em si, nós não tivemos surpresas, dado que o CME Group já mostrava que 93% de probabilidade era que os juros ficassem no atual patamar de 3,75% a 4%”, observa Bruna Centeno, economista e advisor na Blue3 Investimentos.
O placar de dez votos favoráveis contra dois dissidentes expôs o racha em torno do patamar restritivo necessário para conter a inflação.
“A decisão veio em linha com as expectativas do mercado, mas não foi unânime: foram dez votos favoráveis à manutenção dos juros e dois votos dissidentes”, analisa Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue.
Entre as vozes divergentes, a preferência declarada foi por uma elevação imediata de 0,25 ponto percentual.
A próxima deliberação do comitê ocorre em dezembro, e o mercado já considera um aperto.
“Os investidores buscam sinais sobre os próximos passos da política monetária, e as expectativas para a reunião de dezembro já indicam uma probabilidade próxima de 80% de uma nova alta de juros“, complementa Benati.
Para o estrategista da Avenue, o atual Presidente do Fed, Kevin Warsh, reforçou em diversos momentos o compromisso da instituição com a meta de inflação de 2%.
“Para Warsh, trata-se de um objetivo único, sem intervalo de tolerância, e esse compromisso vem sendo enfatizado pelo banco central americano nas últimas reuniões.”
Petróleo força possível correção de rota do Fed
As tensões no Oriente Médio impulsionaram o barril de petróleo para patamares entre US$ 100 e US$ 115, gerando repasse imediato aos preços de combustíveis e ameaçando contaminar a cadeia produtiva.
Para Centeno, a alta do insumo adiciona volatilidade severa às projeções.
“Isso tem feito preço principalmente no petróleo que traz a ponta de inflação para cima. A gente ainda tem toda essa escalada dos preços do petróleo que se não administrada podem sim acarretar em aumentos adicionais ali para os próximos meses. Então isso acrescenta mais riscos à trajetória de preços e consequentemente à trajetória de juros.”
Soma-se a isso a resiliência da economia americana, sustentada pelo consumo doméstico e por investimentos corporativos com tração no segmento de tecnologia.
“A própria ponta da atividade econômica tem se mostrado com bastante resiliência, principalmente sustentada pelo consumo doméstico, o que é realmente dosado com juros. E nós tivemos ali um avanço também, quando a gente olha o lado das empresas, na produtividade”, analisa Centeno.
Menos reuniões deliberativas
A partir de 2027, o FOMC reduzirá a frequência de decisões de política monetária para abrir espaço a debates de conjuntura e planejamento macroeconômico — decisão que foi comunicada por Warsh nesta quarta-feira (28).
“O maior destaque de sua entrevista foi o anúncio de que em 2027 uma das reuniões do FOMC não terá decisão sobre juros e comunicado, visando deliberações estratégicas, com foco em horizontes temporais mais longos; em 2028 serão duas reuniões”, explica Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital.
O movimento reduz o calendário deliberativo para sete encontros em 2027 e para seis a partir de 2028.
“Há ao menos 2 meses ele vinha sugerindo que 8 reuniões por ano são muita coisa, e este parece ter sido o jeito encontrado para reduzir a necessidade de decisões sobre política monetária. A medida sugere uma busca por movimentos menos bruscos na política monetária e maior foco no longo prazo”, acrescenta o gestor.
Dólar avança sobre o real
Enquanto o índice DXY registrou leve recuo diante das divisas de economias centrais, o real brasileiro perdeu tração e encerrou o dia em desvalorização ante a moeda americana.
“Enquanto isso, o dólar apresenta uma desvalorização marginal no cenário global. Na contramão desse movimento, a moeda americana sobe em relação ao real, indicando um enfraquecimento da moeda brasileira no pregão de hoje”, aponta Benati.
Segundo o analista, o descolamento evidencia a sensibilidade do ativo local ao fluxo financeiro externo: “Esse comportamento mostra que o real está se desvalorizando mais intensamente frente ao dólar do que a média das principais moedas desenvolvidas, representadas pelo índice DXY”.
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