Uma fortuna de R$ 22,1 bilhões coloca José João Abdalla Filho entre os bilionários brasileiros da lista Forbes de 2026. Conhecido como Juca Abdalla, o controlador do Banco Clássico reúne participações em empresas que fornecem energia, produzem petróleo e extraem minério. Sua presença nesses negócios aparece em comunicados ao mercado, registros acionários e eleições de conselhos, enquanto as entrevistas são raras.
Aos 81 anos, o banqueiro tem investimentos em Petrobras, Cemig e Axia Energia, antiga Eletrobras, por meio de veículos ligados a ele. O Banco Clássico também figura como acionista da Vale em documento divulgado pela mineradora em julho deste ano. É uma presença que combina propriedade de ações e participação na governança de grandes companhias.
Na Cemig, essa participação ganhou tamanho ao longo de 2026. Em maio, a companhia comunicou que o Clássico havia comprado 7,4 milhões de ações preferenciais por meio do fundo exclusivo Dinâmica Energia. A operação levou a posição do veículo a 17,63% do capital total. Na carta enviada à elétrica, o banco informou que as movimentações tinham o objetivo de diversificar seus investimentos em energia e direcionar recursos à infraestrutura brasileira.
Abdalla é um investidor de peso da Cemig. Em agosto, a fatia já era de 18,32%, conforme a composição acionária publicada pela Cemig. O fundo detinha 32,82% das ações ordinárias, que dão direito a voto. O governo de Minas Gerais permanecia no controle, com a maioria desses papéis.
O ponto de partida dessa trajetória foi uma herança empresarial. Juca é filho de José João Abdalla, conhecido como J. J. Abdalla, que reuniu negócios imobiliários, têxteis e de cimento e também teve carreira política. Segundo a Forbes.com, o filho utilizou recursos herdados para abrir o Banco Clássico. O currículo publicado pela Petrobras o identifica como presidente e controlador da instituição desde 1989.
O patrimônio familiar também esteve ligado à área onde foi implantado o Parque Villa-Lobos, em São Paulo. Em perfil publicado em 2022, a Folha de S.Paulo relatou que a indenização pela desapropriação reforçou os recursos da família. A reportagem mencionou R$ 2,5 bilhões e registrou que o processo foi questionado à época. O valor se refere à indenização familiar, não a um pagamento individual integral a Juca.
No mercado de capitais, sua trajetória é marcada por posições duradouras. O currículo divulgado pela Petrobras descreve investimentos mantidos por mais de uma década, concentrados em petróleo e gás, energia e mineração. O mesmo documento aponta controle de custos e disciplina na aplicação do capital entre os focos de sua atuação como conselheiro.
Bilionário tem 223,3 milhões de ações ordinárias da Petrobras
Na Petrobras, a dimensão do investimento aparece em uma declaração apresentada à SEC, o órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos. Em março de 2026, Abdalla informou participação indireta em 223,3 milhões de ações ordinárias da petroleira. Os papéis estavam distribuídos entre o fundo Dinâmica Energia, o Banclass e a empresa Dinâmica Energia S.A.
Abdalla integra o conselho de administração da Petrobras desde 2022. Naquele ano, sua eleição fez parte de um avanço dos minoritários no colegiado. A ocupação da cadeira levou o investidor a participar diretamente do órgão responsável pelas orientações estratégicas da companhia.
Uma de suas manifestações públicas ocorreu na assembleia de abril de 2024. Ao participar por meio digital, elogiou a administração de Jean Paul Prates, então presidente da Petrobras. A reunião aconteceu em meio à discussão sobre dividendos extraordinários. “Além de parabenizar, eu quero mais agradecer”, afirmou.
Na Axia Energia, os registros também mostram a combinação entre investimento e assento no conselho. A companhia o apresenta como membro independente do colegiado. Em formulário assinado em setembro de 2026 e entregue à SEC, Abdalla declarou posições indiretas por meio dos fundos Banclass e Dinâmica Energia.
Após a conversão de parte das ações preferenciais em ordinárias naquele mês, os dois fundos detinham, juntos, 117,8 milhões de ações ordinárias da Axia. O documento também registra ações preferenciais remanescentes. A mudança informada decorria da conversão dos papéis, não de uma compra daquele volume no mercado.
A atuação do Clássico se estende à Vale. Em julho, o banco e o fundo Geração L. Par encaminharam à Comissão de Valores Mobiliários um questionamento sobre a eleição do presidente do conselho da mineradora. O documento os identificava como acionistas que, somados, detinham mais de 0,5% do capital. Essa participação conjunta não permite atribuir o percentual integral ao banco de Abdalla. [12]
O questionamento tratava, entre outros pontos, da independência de um candidato apoiado pela Previ. Na resposta divulgada ao mercado, a Vale rejeitou a interpretação de que esse apoio, por si só, retiraria a condição de independente ou impediria o fundo de pensão de votar. O episódio mostra o Clássico usando sua posição acionária para participar de uma disputa sobre as regras de governança da companhia.
Fora da Bolsa, o currículo divulgado pela Axia relaciona cargos de Abdalla em empresas como Agro Imobiliária Primavera, Navegação Porto Morrinho e Socal Mineração. São registros de atuação executiva que ampliam o retrato de sua carreira para além do banco e das participações nas companhias abertas.