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Panda Bonds: China Abre Nova Rota de Financiamento para Governo e Empresas Brasileiras

Brasil planeja captar 5 bilhões de yuans e pode se tornar o primeiro país latino-americano a emitir títulos soberanos no mercado doméstico chinês

8 min

A China quer levar o yuan para além de suas fronteiras, e o Brasil está de olho nesse movimento. Em busca de mais espaço para sua moeda no mercado internacional, Pequim vem atraindo governos e empresas estrangeiras interessados em levantar recursos no país.

Os chamados Panda Bonds, títulos de dívida denominados em yuans e emitidos no mercado doméstico chinês por governos, empresas ou instituições estrangeiras, vivem um momento de expansão. Só no primeiro semestre de 2026, foram ao menos 60 emissões, que movimentaram mais de 160 bilhões de yuans. O volume representa uma alta de 69% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados do Banco Popular da China.

Apesar do dólar seguir como a principal moeda das grandes captações globais, a alternativa chinesa abre uma nova rota para quem busca diversificar suas fontes de financiamento.

De acordo com Alexei Remizov, diretor de debt capital markets para a América Latina no HSBC, há um apetite crescente por emissões de tomadores estrangeiros no mercado doméstico de dívida chinês. “Esse nicho é visto como um meio complementar de financiamento, e não como um substituto para fontes tradicionais, como o mercado americano.”

Na prática, uma emissão de Panda Bonds funciona de maneira semelhante à de outros títulos de dívida: uma empresa ou governo capta recursos com investidores e se compromete a devolver o principal acrescido de juros. A diferença está no mercado em que os papéis são emitidos e na moeda utilizada. Nesse caso, os títulos são denominados em renminbi, a moeda oficial da China, cuja unidade é o yuan.

Para os emissores estrangeiros, a operação abre uma alternativa de financiamento fora dos mercados tradicionais, como o americano e o europeu.

De acordo com Alexei Remizov, diretor de debt capital markets para a América Latina no HSBC, há um apetite crescente por emissões de tomadores estrangeiros no mercado de dívida local chinês. “Esse nicho é visto como um meio complementar de financiamento, e não como um substituto para fontes tradicionais, como o mercado americano.”

Pandas ganham espaço

Criado em 2005, o mercado de Panda Bonds cresceu lentamente em sua primeira década. O crescimento ganhou impulso a partir de 2015, com políticas voltadas à internacionalização do renminbi e à abertura do mercado financeiro chinês a investidores e emissores estrangeiros.

Segundo relatório da agência de classificação de risco China Chengxin International (CCXI), medidas adotadas pelo Banco Popular da China, como a redução das taxas de juros (historicamente de 1,98% a 4,5%) e dos depósitos compulsórios, contribuíram para baratear o crédito e estimular o mercado.

O mercado atingiu um recorde em 2024, quando 109 emissões de Panda Bonds levantaram, juntas, 194,8 bilhões de yuans (cerca de US$ 29,2 bilhões, pela cotação de referência de outubro de 2026). Em 2025, o volume captado recuou para 183,6 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 27,5 bilhões), embora o número de operações tenha aumentado para 124. Entre 2020 e 2025, o valor das emissões cresceu cerca de 210%.

“Agentes financeiros globais vêm diversificando o mix de moedas em seus portfólios, e o renminbi (nome oficial da moeda da China) é uma delas. A maior parte da demanda por Panda Bonds vem de investidores locais, e o mercado chinês tem registrado uma demanda robusta“, comenta Alexei Remizov do HSBC.

O CIO do banco suíço EFG, Luis Ferreira, também concorda que há demanda de investidores institucionais globais. “Eles vêm aumentando gradualmente a exposição a ativos em renminbi, incluindo Panda Bonds”, afirma.

O movimento foi facilitado pelo Bond Connect, programa que permite a investidores estrangeiros negociar títulos no mercado doméstico da China por meio de Hong Kong, reduzindo algumas das barreiras de acesso ao país.

A presença internacional do renminbi, porém, ainda é limitada quando comparada à do dólar. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que a moeda chinesa representa cerca de 2,3% das reservas cambiais globais oficialmente alocadas pelos bancos centrais.

Brasil entra no jogo

Em junho de 2026, durante visita a Xangai, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que o governo Lula (PT) planeja captar 5 bilhões de yuans (US$ 750 milhões) em sua primeira emissão de Panda Bonds. Se a operação se concretizar, o Brasil será o primeiro país da América Latina a acessar esse mercado por meio de uma emissão soberana.

Empresas brasileiras, porém, já chegaram lá. A pioneira foi a Suzano, que realizou sua primeira emissão de Panda Bonds em 2024 e captou 1,2 bilhão de yuans ( US$ 180 milhões).

Na avaliação de Alexei Remizov, companhias brasileiras de grande porte e com notas de crédito mais elevadas estão entre as candidatas com maior potencial para acessar o mercado dos Panda.

Entre as vantagens para os investidores, Ferreira do EFG destaca a possibilidade de diversificar a carteira com ativos denominados na moeda chinesa, e obter retornos maiores do que os oferecidos pelos títulos públicos do país. Para quem emite, os Panda Bonds abrem uma fonte adicional de financiamento em moeda chinesa, com custos competitivos e acesso a uma base crescente de investidores.

“O crescimento do mercado e o apoio das autoridades chinesas tendem a aumentar a liquidez e a relevância dos panda bonds no sistema financeiro global”, aponta o CIO.

Além disso, Alexei Remizov do HSBC explica que nos últimos anos, o custo de emissão dos panda bonds convertido para dólares americanos por meio de swap, tem ficado geralmente abaixo dos custos de financiamento equivalentes na moeda americana. “A vantagem de custo dependerá da curva de swap e de outros fatores de mercado”, afirma o diretor.

Apesar das oportunidades, a captação na China traz alguns pontos de atenção para os emissores estrangeiros. Remizov afirma que o mercado chinês é altamente regulado e conta com uma estrutura robusta de governança. Porém, nos últimos anos, as regras ganharam flexibilidade, inclusive para permitir que os recursos captados por meio dessas emissões sejam remetidos para fora da China.

Ainda, as emissões de Panda Bonds costumam ter volumes menores e de menor liquidez, enquanto os emissores ficam expostos às oscilações do yuan.

Há também fatores regulatórios, dado que o arcabouço legal e contábil chinês difere dos mercados desenvolvidos. “Questões de liquidez e familiaridade com o risco de crédito de emissores estrangeiros podem limitar a saída rápida de posições. Aspectos políticos e geopolíticos, incluindo tensões entre China e economias ocidentais, podem afetar o acesso ao mercado”, conclui Luis Ferreira.

Os Panda Bonds são regidos pela legislação da República Popular da China e supervisionados pelo People’s Bank of China (PBOC), pela National Association of Financial Market Institutional Investors (NAFMII) e pela China Securities Regulatory Commission (CSRC).

Em comparação com bonds emitidos nos Estados Unidos, Gustavo Secaf, sócio do Machado Meyer e especialista em mercado de capitais, explica que as diferenças abrangem desde o processo de registro (que é sempre obrigatório na China) e as normas contábeis exigidas até a lei aplicável aos documentos da transação, os mecanismos de proteção ao investidor e a resolução de disputas. “É certo que o mercado estadunidense possui um regime de proteção aos investidores mais antigo e testado que o regime de proteção da China.”

O banco suíço EFG, especializado em gestão de patrimônio e investimentos, acompanha títulos de dívida denominados em moeda chinesa, mas não mantém recomendações ativas de investimento nesses papéis. Segundo Luis Ferreira, CIO da instituição, o banco tem 98 títulos de renda fixa denominados em renminbi offshore (CNH) em seu universo de cobertura. Isso significa que os papéis são monitorados e analisados pela instituição, embora não sejam objeto de recomendação ativa. O EFG não acompanha, atualmente, títulos denominados em renminbi negociados no mercado doméstico chinês (CNY).

Barreiras de entrada

Do ponto de vista jurídico, Gustavo Secaf, afirma que o mercado chinês apresenta desafios, principalmente por ser um ambiente ainda pouco acessado pelos emissores brasileiros. “A decisão de acessar um ou outro mercado é mais comercial que jurídica, observado que a remessa dos recursos da China para outras jurisdições é ainda menos regulada que dos Estados Unidos para outras jurisdições.”

Entre os principais obstáculos no acesso estão na necessidade de atenção nas regras específicas, além da necessidade de divulgação de informações financeiras em língua chinesa. O advogado ressalta que o descumprimento de obrigações pelos emissores pode causar penalidades administrativas e responsabilização civil por eventuais prejuízos a investidores.

As empresas interessadas em emitir Panda Bonds também precisam atender a exigências contábeis específicas da China. “Mesmo que já preparem seus balanços de acordo com as normas internacionais de contabilidade (IFRS) ou com o padrão adotado nos Estados Unidos (US GAAP), os emissores podem ter de apresentar uma reconciliação de determinadas informações financeiras com as regras contábeis chinesas, conhecidas como PRC GAAP”, conclui Secaf.

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