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“Melhor Segurar Louco do Que Empurrar Morto”: o Jeito Pedro Valério de Gerenciar um Hub de Inovação

O executivo combina bagagem no mercado de entretenimento, comunicação e ambiente de negócios para liderar uma comunidade de R$ 45,8 milhões de receita

8 min

Pedro Valério lidera o Instituto Caldeira, um hub privado e sem fins lucrativos de inovação instalado em 55 mil metros quadrados no bairro Navegantes, em Porto Alegre. O complexo ocupa antigas instalações industriais desativadas e centros comerciais revitalizados, em uma iniciativa que conecta recuperação urbana, empreendedorismo e desenvolvimento econômico. Sob sua gestão, o instituto reúne mais de 550 empresas associadas, cerca de 700 startups e dez programas ativos voltados a negócios e inovação. Em 2025, registrou receita operacional de R$ 45,8 milhões.

A operação nasceu em um momento pouco convencional para um empreendimento baseado em conexões presenciais. Em plena pandemia, quando escritórios e espaços para eventos enfrentavam restrições e incertezas, criar um ambiente físico dedicado à inovação parecia uma aposta arriscada. Para Valério, porém, o projeto dependia menos de previsões sobre o cenário e mais da capacidade de colocar a ideia em prática.

“O exercício de começar o instituto no meio de uma pandemia já era um tanto cético, porque criar um hub de inovação com escritórios e ambientes de eventos naquele momento parecia um nonsense”, afirma. “Mas o trabalho é o melhor elemento de transformação. Num contexto em que todo mundo fala que sabe tudo, o que importa é a entrega e a disciplina associadas ao dia a dia da execução.”

A ênfase na execução reflete uma trajetória construída em setores distintos. Antes de assumir o Caldeira, Valério foi gerente regional da Câmara Americana de Comércio (AmCham), experiência que o aproximou das discussões sobre ambiente de negócios e fomento ao empreendedorismo. Posteriormente, atuou no Grupo RBS, liderando operações nos mercados de entretenimento e cultura.

Essa experiência multissetorial chamou a atenção do empresário Marciano Testa em 2019, quando o projeto do hub ainda dava seus primeiros passos em Porto Alegre. O convite era para transformar uma iniciativa nascente em uma plataforma capaz de aproximar empresas estabelecidas, empreendedores e investidores.

“Quando fui convidado pelo Marciano para assumir o projeto e criar um instituto sem fins lucrativos para fomentar a inovação no estado, muitos amigos e conhecidos diziam que eu era maluco”, lembra Valério. “Mas a minha tese é que o maior risco na vida é tentar controlar tudo e não tomar risco nenhum. A vida é incontrolável. Se você entra no jogo para ganhar, com verdade e coração no processo, a dedicação contagia a equipe e o ecossistema.”

Do pós-crise à tração de capital

Transformar o Caldeira em uma operação de escala exigiu conciliar a expansão da infraestrutura com a construção de um ecossistema de negócios. O desafio ganhou outra dimensão com as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, impondo novas pressões à continuidade das atividades e à recuperação operacional. Segundo dados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,, o ecossistema ligado ao hub representa aproximadamente 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do estado.

Em 2025, o instituto destinou R$ 13,7 milhões em investimentos de capital (Capex) à infraestrutura e à expansão. Segundo a organização, a geração de caixa operacional voltou a 93% do nível registrado antes das enchentes.

A dimensão econômica do Caldeira, entretanto, não se limita à operação do próprio instituto. Seu modelo de atuação busca conectar grandes companhias a startups capazes de desenvolver soluções para desafios corporativos, criando oportunidades de negócios e acesso a capital para empresas emergentes.

Em 2025, os programas de inovação aberta e atração de investimentos do hub movimentaram R$ 83 milhões em negociações de rodadas de captação para startups aceleradas, alta de 20% em relação ao ano anterior. As empresas participantes registraram faturamento anual acumulado de R$ 48 milhões.

Outro exemplo é o Conecta Caldeira, programa que atraiu 437 startups, incluindo 13 internacionais de seis países, para trabalhar em 15 desafios corporativos propostos por multinacionais como Gerdau, John Deere, CMPC e Irani.

A proposta é aproximar a capacidade de experimentação das startups das necessidades de empresas consolidadas. Para Valério, essa conexão é especialmente relevante em um momento no qual a velocidade de adoção de novas tecnologias pode se confundir com a geração efetiva de resultados.

“A tecnologia em si não pode criar uma roda viciosa em que se busca apenas a última ferramenta ou a última feature sem propósito”, afirma. “O termo essencial é a geração de valor. Num contexto em que vivemos em uma sociedade absolutamente desatenta, a capacidade de obter a atenção das pessoas e dos clientes se torna uma arte que exige repertório, discernimento e foco no que realmente importa.”

Disciplina de execução e o papel da liderança

A pandemia e as enchentes impuseram ao Instituto Caldeira crises de naturezas diferentes, mas com uma exigência em comum: tomar decisões sob incerteza e mobilizar equipes sem a garantia de uma recuperação rápida. Para Valério, a resposta está menos em grandes discursos do que na capacidade de estabelecer prioridades, comunicar com clareza e transformar problemas complexos em entregas menores e concretas.

Sua abordagem combina ciclos curtos de trabalho, conhecidos como sprints, com a busca por resultados rápidos (quick wins) e o alinhamento frequente com a equipe. A lógica é reduzir a distância entre o diagnóstico e a ação, evitando que a incerteza paralise a operação.

“Diante de momentos difíceis, como foram a pandemia e as enchentes, o papel da liderança não é se colocar como salvador da pátria, mas dizer: ‘Galera, eu vou recomeçar e enxugar os móveis’. O simples fato de se colocar em movimento alivia a angústia”, avalia.

Duas orientações, diz ele, sintetizam essa filosofia. A primeira veio de Marciano Testa durante a pandemia: “Desliga a TV e vai trabalhar”. A segunda é uma máxima de seu pai: “É melhor segurar louco do que empurrar morto”.

A mesma lógica de execução orienta sua visão sobre a disputa por profissionais qualificados, especialmente na área de tecnologia. Em vez de tratar a retenção de talentos como um objetivo isolado, Valério defende a construção de ambientes que ofereçam desafios relevantes, autonomia e condições para que profissionais de alto desempenho queiram permanecer.

“Eu não gosto muito da ideia de reter talentos, porque talento não se prende: talento é para voar”, afirma. “O que precisamos é criar ambientes tão desafiadores e inspiradores que um talento olhe e diga: ‘Ali tem algo especial’. Craque quer jogar com craque.”

Na avaliação do executivo, a qualidade do ambiente de trabalho depende também de padrões claros de desempenho e de relações baseadas na confiança. Quando as empresas toleram entregas inconsistentes e deixam de estabelecer critérios objetivos, a cultura organizacional perde força, e os profissionais mais qualificados tendem a buscar oportunidades em outros lugares.

“Quando as companhias se acomodam com pessoas que não entregam valor, o ambiente vai se intoxicando. As pessoas de alto desempenho querem regras claras, ambiente de confiança e projetos com propósito”, diz.

Uma instituição para além dos fundadores

A próxima etapa do Instituto Caldeira, segundo Valério, é consolidar um modelo capaz de atravessar gerações e manter sua relevância para além de seus fundadores. O desafio será conciliar expansão e disciplina operacional, ampliar as conexões entre empresas e empreendedores e transformar a inovação em uma fonte duradoura de desenvolvimento econômico para o Rio Grande do Sul.

Essa ambição exige uma visão de longo prazo, mas também uma rotina de execução. Para Valério, instituições duradouras não são construídas apenas por grandes decisões estratégicas ou momentos de ruptura. Dependem da capacidade de sustentar o trabalho, aperfeiçoar processos e gerar resultados de maneira consistente.

“Mais do que o destino final, a alegria e a diversão estão na jornada e no processo do fazer”, conclui. “Eu me sinto no início de uma caminhada. Fazer coisas extraordinárias exige uma dedicação ordinária e disciplinada todos os dias. O que nos move aqui é ver milhares de pessoas se conectando, gerando negócios e usando essa plataforma para transformar não só as suas trajetórias, mas a matriz econômica de toda uma região.”

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