Adriana Leite, presidente da Colgate-Palmolive no Brasil, diz que a atuação das empresas não deve se restringir à venda de seus produtos. “Liderança de mercado também traz responsabilidade e acreditamos que o setor privado precisa atuar efetivamente onde detém expertise”, afirma, em entrevista à Forbes.
Na prática, a companhia destinou globalmente US$ 48 milhões a contribuições e programas comunitários em 2025, segundo a executiva. O valor inclui doações financeiras, produtos e despesas com iniciativas sociais. No Brasil, onde completa 100 anos em 2027, a Colgate prepara uma caravana que pretende levar educação e cuidados de saúde bucal a 100 mil crianças em 100 cidades.
O projeto ganha destaque neste Dia das Crianças, celebrado nesta segunda-feira (12), em um país onde o acesso à saúde bucal ainda é desigual. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal Brasil 2023, do Ministério da Saúde, 46,83% das crianças de 5 anos apresentavam experiência de cárie, indicador que considera dentes cariados, perdidos ou restaurados.
A atuação na prevenção de doenças bucais representa apenas parte da estratégia socioambiental da Colgate. A companhia também investe no desenvolvimento de embalagens recicláveis, na redução de resíduos industriais e em iniciativas para ampliar a coleta de materiais após o consumo.
Para Adriana, o setor privado deve concentrar esforços nas áreas em que possui conhecimento e capacidade de atuação, sem substituir o papel do poder público.
“Seguiremos contribuindo de forma consistente naquilo que mais conhecemos, que é saúde bucal, trabalhando em parceria e acompanhando os resultados do que fazemos”, diz.
Uma aposta de longo prazo
A caravana começará a percorrer o Brasil em fevereiro do ano que vem, com ações educativas, distribuição de kits de higiene e aplicação gratuita de flúor em praças selecionadas.
A iniciativa amplia o programa Sorriso Saudável, Futuro Brilhante, desenvolvido globalmente desde 1991 e presente no Brasil desde 1994. Segundo a companhia, mais de 100 milhões de crianças e famílias brasileiras já foram alcançadas pelas ações de educação e prevenção em saúde bucal.
Como parte das iniciativas relacionadas ao centenário, a Colgate também anunciou uma parceria com o Criança Esperança e a Unesco para a distribuição de 20 mil kits de higiene bucal às instituições atendidas pelo projeto.
“O nosso aniversário de 100 anos no Brasil será um momento importante para consolidar o que temos feito há décadas, sempre em busca de construir um futuro mais saudável para todos”, afirma Adriana.
Adriana afirma que a proposta é estimular hábitos de higiene que permaneçam ao longo da vida e ampliar a discussão sobre prevenção.
“Queremos combater a cárie infantil ao ampliar o acesso à informação e a ferramentas de cuidado, ajudando crianças e suas famílias a desenvolverem hábitos de higiene que possam acompanhá-las por toda a vida.”

Como a sustentabilidade entra na estratégia de crescimento
Os investimentos sociais e ambientais não estão separados das prioridades financeiras da companhia, diz a presidente. A estratégia da Colgate procura relacionar o desenvolvimento de produtos, a redução de impactos ambientais e a geração de valor para o negócio.
“Esses pilares andam de mãos dadas na Colgate-Palmolive, porque a promoção da saúde bucal está diretamente ligada aos nossos negócios e produtos, e é um elemento chave na nossa estratégia de sustentabilidade.”
A companhia adota o princípio que chama de “ganha-ganha-ganha”, voltado aos consumidores, à empresa e ao meio ambiente. A proposta é oferecer produtos que atendam às necessidades do mercado, ao mesmo tempo em que reduz riscos ambientais e busca novas oportunidades comerciais.
Na prática, isso significa incorporar critérios de sustentabilidade às decisões sobre embalagens, processos industriais e desenvolvimento de produtos.
A relação entre sustentabilidade e crescimento também aparece nos números da companhia. Em 2025, a Colgate-Palmolive registrou receita de US$ 4,78 bilhões na América Latina, onde as vendas orgânicas cresceram 3,9%, com o Brasil entre os mercados que impulsionaram a expansão. A rentabilidade, porém, recuou. O lucro operacional na região caiu 8%, pressionado principalmente pelo aumento dos custos de matérias-primas e embalagens. Segundo os dados globais da companhia, 96% de suas embalagens já eram recicláveis, reutilizáveis ou compostáveis ao final do ano. A empresa, no entanto, não discrimina quanto as iniciativas de sustentabilidade contribuíram para as vendas ou para a rentabilidade da operação brasileira.
A mudança nas embalagens de creme dental
Uma das principais transformações ambientais da Colgate ocorreu em uma embalagem presente em milhões de residências: o tubo de creme dental.
Tradicionalmente fabricados com diferentes camadas de materiais, esses tubos representam uma dificuldade para a cadeia de reciclagem. A companhia desenvolveu uma alternativa baseada em polietileno de alta densidade (PEAD), plástico utilizado em outras embalagens recicláveis.
Em 2019, a tecnologia recebeu o reconhecimento da Association of Plastic Recyclers (APR), nos Estados Unidos. A mudança exigiu adaptações no maquinário industrial e nos processos de fabricação.
“O desenvolvimento da tecnologia de um tubo que pudesse ser facilmente reciclado foi um passo desafiador e importante”, afirma Adriana.
A Colgate também decidiu compartilhar a tecnologia com outras empresas, sob o argumento de que a transformação da categoria depende da adoção de soluções em maior escala.
Mas existe uma diferença entre desenvolver uma embalagem reciclável e garantir que ela seja reciclada depois do consumo.
O destino do material depende da coleta, da separação adequada e da existência de uma cadeia capaz de processá-lo. Sem essas etapas, mesmo uma embalagem desenvolvida para reciclagem pode acabar em aterros sanitários.
Para tentar reduzir essa distância, a companhia afirma ter enviado materiais informativos a quase 250 cooperativas brasileiras, com orientações sobre a composição e a reciclagem dos novos tubos.
A empresa também apoia o projeto Mãos pro Futuro, voltado ao fortalecimento de cooperativas, e mantém uma colaboração com a Ambipar Triciclo para disponibilizar pontos de coleta de resíduos em supermercados.
“Além de desenvolver um tubo reciclável e alterar as embalagens de todo o nosso portfólio, contribuímos para fortalecer etapas da cadeia necessárias para que a reciclagem aconteça cada vez mais no pós-consumo”, explica.

Menos resíduos nas operações brasileiras
A redução de resíduos industriais é outra frente da estratégia ambiental. Segundo Adriana, todas as unidades da operação brasileira receberam a certificação TRUE Zero Waste, concedida a instalações que conseguem desviar pelo menos 90% dos resíduos sólidos não perigosos abrangidos pelo programa de formas de destinação final, como aterros e incineração, conforme os critérios da certificação.
O resultado envolve práticas como reutilização, reciclagem e compostagem. Isso não significa eliminar toda a geração de resíduos, mas reduzir a quantidade encaminhada para descarte.
As iniciativas fazem parte de três frentes definidas pela companhia: impacto social, apoio aos lares atendidos por seus produtos e preservação ambiental. Para Adriana, a integração dessas áreas à estratégia empresarial é uma forma de conciliar a expansão dos negócios com as demandas sociais e ambientais.