Historicamente, pe comum que buscas por mudar de país aumentem pontualmente após períodos de eleição, mas neste ano, especialistas têm notado uma intensificação mais longa do interesse em deixar o Brasil.
Escritórios que atuam com imigração e negócios internacionais relataram à reportagem da Forbes Brasil que a procura por informações sobre mudança para os Estados Unidos explodiu após a reeleição do presidente Lula e continuou em alta depois que o candidato derrotado Flávio Bolsonaro deixou subitamente o Brasil. Alexandre Piquet, sócio-fundador da Piquet Law Firm P.A., afirma que seu escritório em Miami recebeu 724 consultas dia seguinte ao resultado eleitoral. O número bem acima da média mensal de 500 a 600 contatos na área migratória.
O ritmo de solicitações de potenciais clientes continua alto. Apenas na sexta-feira, 30, até o meio-dia, o painel interno da empresa registrava 420 novas mensagens. “São os pedidos pra gente entrar em contato”.
O advogado diz que, em eleições anteriores, a procura costumava atingir um pico nas primeiras 24 horas e depois diminuía. Desta vez, segundo ele, a demanda continuou crescendo. Piquet associa a alta à repercussão da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e à cobertura da imprensa. “Está numa curva ascendente”, afirmou.
Após a eleição, o escritório enviou mensagens a cerca de 10 mil contatos. Piquet afirma que a ação não mencionava candidatos nem explorava a disputa política. “A gente se mantém 100% imparcial”, disse. Segundo ele, a comunicação apresentava alternativas para quem pensava em diversificar negócios, patrimônio ou planos familiares nos Estados Unidos. “A gente nem fala mudar, a gente fala diversificar.”
Qualificados lideram mas outros perfis aparecem
Entre os interessados que buscaram o primeiro atendimento com o escritório, profissionais qualificados, se destacam. O visto EB-2 NIW aparece com maior frequência entre os caminhos indicados pelo escritório aos clientes que fizeram a primeira conversa com sua equipe, indicando que tratam-se de profissionais com formação, experiência e trajetória qualificadas. Em seguida estão o visto EB-1A, voltado a pessoas com habilidades extraordinárias, e o EB-5, direcionado a investidores.
O seu escritório também registra consultas sobre expansão de negócios, exportação, imóveis e outras formas de investimento nos Estados Unidos.
Piquet afirma que o escritório dobrou, nos últimos 30 dias, a equipe que recebe os contatos, de quatro para oito profissionais. “A gente já vinha se preparando”, disse. “Todo ano de eleição, a gente já se prepara antes.”
Os contatos que recebe incluem profissionais qualificados, empresários que avaliam ampliar operações e famílias interessadas em alternativas de residência. Segundo Piquet, muitos empresários querem, com a alta do dólar, expandir para os Estados Unidos sem encerrar a operação brasileira. “Muitas vezes é expansão, para poder faturar em dólar”, afirmou.

O advogado Daniel Toledo, fundador da Toledo e Associados, também relata aumento nas consultas sobre morar e trabalhar nos Estados Unidos. Ele diz que, além de empresários e profissionais qualificados, o escritório tem recebido mais contatos de trabalhadores assalariados e pessoas de renda mais baixa.
“O que mais chama a atenção é a mudança no perfil dessas pessoas em comparação com o que observamos nas eleições de 2022”, afirmou Toledo. Segundo ele, naquele ano a procura se concentrou principalmente em empresários, profissionais liberais e famílias de classe média e média alta. Agora, o escritório também recebe perguntas sobre vagas em atividades operacionais, agricultura, transporte e serviços que exigem trabalho físico.
“A diferença salarial entre os dois países, a desvalorização do real e as dificuldades econômicas enfrentadas por parte da população brasileira ajudam a explicar esse interesse”, disse Toledo. Ele acrescenta que ganhar em dólar não significa automaticamente ter maior poder de compra e que moradia, alimentação, transporte, seguro-saúde e impostos precisam entrar na conta.
O advogado afirma que empresários e profissionais liberais costumam buscar previsibilidade para planejar as atividades. “Para um empresário, não basta saber quanto vai pagar de imposto. Ele precisa ter confiança de que conseguirá planejar suas atividades e tomar decisões de longo prazo com maior estabilidade”, afirmou.
Toledo explica que o aumento de consultas não significa que todos os interessados tenham condições de obter autorização para trabalhar ou residir nos Estados Unidos. “A vontade de trabalhar nos Estados Unidos não garante a obtenção de um visto”, disse. A possibilidade depende dos requisitos de cada categoria migratória e, em alguns casos, de uma oferta de emprego e do patrocínio de uma empresa americana.
O que significam os vistos mais procurados
Segundo Piquet, o EB-2 NIW é uma opção para profissionais com formação e trajetória que atendam aos critérios da categoria. De acordo com a explicação do advogado, não é preciso ter oferta de emprego nem fazer um investimento. “Você precisa ter um histórico bom”, disse. Ele citou formação superior e experiência, artigos publicados, cartas de recomendação e cargos de destaque entre os elementos que o escritório avalia. “Você precisa ter 3 de 7 critérios”, afirmou.
O EB-1A é voltado a profissionais com habilidades extraordinárias. Piquet o descreve como uma categoria mais seletiva. “O negócio com o EB1A é para quem está topo da pirâmide. Esse você precisa estar no top, no top da profissão.” Segundo ele, o candidato precisa atender a pelo menos três de dez critérios. O advogado também explicou que, ao contrário do EB-2 NIW, o EB-1A não exige demonstrar que a atuação atende a um interesse nacional específico.
Já o EB-5 é uma opção para investidores. Piquet citou um investimento de US$ 800 mil e disse que a categoria pode levar ao Green Card. As exigências variam conforme o projeto e o caso analisado.

Portugal e Paraguai também atraem interesse
Em Portugal, a procura por diversificação patrimonial e mudança também cresceu. Marcelo Rubin Goldschmidt, advogado e sócio-fundador da GMZ Advisors, consultoria voltada a negócios entre Brasil e Portugal, afirma que a demanda semanal ficou 70% acima da média após a eleição.
“Esta semana foi 70% mais demandada […] do que na semana média”, disse Goldschmidt, referindo-se tanto às consultas sobre investimentos quanto às mudanças para Portugal.
O Paraguai também entrou nas pesquisas de quem considera deixar o Brasil. Dados do Google Trends mostram que, após o resultado do segundo turno, as buscas pelo termo “como morar no Paraguai” cresceram 1.700%. O dado mede o interesse pelo assunto na ferramenta de buscas, não o número de pessoas que efetivamente planejam emigrar.
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