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Copom Deve Pausar Cortes da Selic após Reeleição de Lula e Pressão sobre o Dólar

Inflação acumulada acima do teto da meta, real desvalorizado e incertezas fiscais reduziram o espaço para novos cortes; mercado vê Selic em 13,75%, mas não descarta redução de 0,25 ponto

10 min

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva mudou as perspectivas para a política monetária brasileira e tornou mais incerta a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na próxima semana. Depois de sinalizar a possibilidade de continuar reduzindo os juros, a autoridade monetária chega à reunião de 3 e 4 de novembro diante de um cenário de maior pressão sobre o câmbio, inflação persistente e dúvidas sobre a trajetória das contas públicas.

A expectativa predominante entre os analistas é que o Banco Central mantenha a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de cortes iniciado no começo de 2026. A possibilidade de uma redução de 0,25 ponto percentual, contudo, ainda não está completamente descartada. O argumento favorável a um novo corte é a avaliação de que a atividade econômica segue fraca, enquanto a piora recente das condições financeiras aumenta o risco de que a inflação permaneça acima da meta por mais tempo.

O ambiente mudou de forma significativa nas últimas semanas. O dólar, que negociava próximo de R$ 5 antes do resultado eleitoral, avançou para a faixa de R$ 5,35 a R$ 5,50. A desvalorização do real aumenta o risco de repasse cambial aos preços domésticos, sobretudo em produtos importados, insumos industriais e combustíveis.

Incertezas sobre a condução da política fiscal no próximo mandato elevaram a percepção de risco dos investidores. A preocupação é que medidas de expansão de gastos ou dificuldades para cumprir as metas fiscais comprometam a trajetória da dívida pública, pressionem os juros de mercado e dificultem a convergência da inflação para o objetivo perseguido pelo Banco Central.

Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest, avalia que a fragilidade das contas públicas continua sendo um dos principais obstáculos à redução sustentável da Selic. “O principal desafio continua sendo a deterioração das expectativas inflacionárias, especialmente para 2027, que limita o espaço para cortes mais expressivos dos juros”, afirma.

Segundo ele, o elevado prêmio de risco exigido pelos investidores dificulta uma redução consistente da taxa básica. O executivo considera que um corte de 0,25 ponto percentual ainda seria possível, mas avalia que a manutenção da Selic é a decisão mais prudente neste momento.

O desafio do governo será demonstrar que as medidas anunciadas não comprometerão a trajetória das contas públicas. Sem sinais concretos de controle das despesas e previsibilidade fiscal, a pressão sobre o câmbio e os juros de longo prazo pode persistir, restringindo a margem para flexibilização monetária em 2027.

O quadro internacional também adiciona incertezas. A alta do petróleo, que passou de US$ 90 para níveis próximos de US$ 115 por barril, amplia os riscos inflacionários. A postura cautelosa do Federal Reserve, o banco central americano, também limita a margem para flexibilização monetária em economias emergentes.

Inflação acima da meta

Os indicadores mais recentes de inflação reforçam o desafio do Banco Central para conduzir a política monetária. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação brasileira, subiu 0,82% em setembro, após registrar deflação de 0,32% em agosto. Com o resultado, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta perseguida pela autoridade monetária.

A prévia de outubro trouxe algum alívio na variação mensal, mas não alterou esse quadro. O IPCA-15 avançou 0,32%, após alta de 0,70% em setembro. No acumulado do ano, o indicador subiu 4,15% e, em 12 meses, chegou a 4,62%, acima dos 4,47% registrados na leitura anterior.

Os resultados indicam que a convergência para a meta ainda enfrenta obstáculos. Para o Copom, esse cenário reduz a margem para novos cortes da Selic, sobretudo diante do risco de que a desvalorização cambial e a alta das commodities provoquem pressões adicionais sobre os preços domésticos.

Um dólar mais caro encarece produtos importados e insumos negociados internacionalmente, enquanto a alta do petróleo pode elevar os custos de combustíveis, transportes e produção. Caso essas pressões persistam, o repasse aos preços poderá dificultar a desinflação e manter as expectativas inflacionárias elevadas.

Decisão divide analistas

Antes da mudança no ambiente político e financeiro, o Banco Central havia sinalizado a possibilidade de continuar reduzindo os juros, amparado pela perspectiva de desaceleração da atividade econômica e de moderação das pressões inflacionárias. Esse argumento ainda sustenta a avaliação de parte dos analistas, que considera possível um último corte de 0,25 ponto percentual na reunião de novembro.

O enfraquecimento da atividade tende a limitar as pressões de demanda, enquanto a manutenção de juros elevados por mais tempo encarece o crédito, restringe o consumo e desestimula investimentos. O problema é que esse movimento ocorre agora em meio a riscos adicionais para a inflação, como a desvalorização cambial, a alta do petróleo e as incertezas fiscais.

Para Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, o Copom precisará ponderar justamente esses dois vetores. “O Banco Central tinha sinalizado antes da questão do período eleitoral uma possibilidade de mais um corte para uma economia que vinha desacelerando e ele vinha ganhando confiança nesse cenário”, afirma.

Na avaliação de Kautz, a possibilidade de redução dos juros ainda existe. “Ainda há possibilidade de mais um corte na semana que vem, justamente porque a atividade continua fraca, mas esse cenário ficou mais incerto”, diz. Para o economista, a manutenção da Selic em 13,75% ao ano também seria um resultado esperado diante das novas condições econômicas.

Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos, considera que os riscos inflacionários já justificam uma interrupção do ciclo de flexibilização. “Os dados mostram uma inflação persistente em torno de 4,5%, bem acima da meta de 3%. As expectativas de inflação mostram expectativas desancoradas e subindo. E, recentemente, a gente teve um estresse na curva de juros e no câmbio”, afirma. Para a economista, uma pausa permitiria ao Banco Central avaliar a extensão dessas pressões antes de retomar os cortes, além de preservar a credibilidade da política monetária em um ambiente de maior incerteza.

A expectativa de interrupção do ciclo também é compartilhada pelo Itaú BBA. Diogo Guillen, economista-chefe da instituição, prevê manutenção da Selic em 13,75% ao ano. Segundo ele, a piora do cenário combina condições financeiras mais restritivas nas economias desenvolvidas e uma nova rodada de alta do petróleo, enquanto, no Brasil, o mercado de trabalho segue resiliente. “A decisão deve ser unânime e refletir a avaliação de piora do cenário base, que resulta de um contexto externo adverso e, domesticamente, de maiores pressões inflacionárias”, afirma.

Luis Felipe Vital, chefe de Estratégia Macro e Dívida Pública da Warren Rena, revisou sua projeção para a Selic e passou a esperar manutenção dos juros em novembro, em vez do corte de 0,25 ponto percentual anteriormente previsto. A Warren Rena projeta que o ciclo de flexibilização seja retomado em janeiro de 2027, com reduções de 0,25 ponto percentual, a depender da evolução dos indicadores econômicos e das condições de mercado.

Para Vital, um dos principais fatores por trás da mudança foi a reprecificação dos ativos financeiros após as eleições presidenciais. No primeiro momento, a perspectiva de vitória de Flávio Bolsonaro levou investidores a incorporar expectativas de ajuste fiscal mais intenso, menor intervenção estatal e melhora do ambiente de negócios, impulsionando os preços dos ativos. Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, parte desse movimento foi revertida, ao mesmo tempo que aumentou o prêmio de risco associado às perspectivas fiscais.

Segundo o estrategista, a devolução do movimento provocado pelas expectativas eleitorais representou cerca de 140 pontos-base nos juros de dez anos. A esse ajuste somou-se um prêmio adicional relacionado à percepção de risco fiscal, que tende a permanecer enquanto não houver maior clareza sobre o plano econômico do governo para 2027.

Outro fator de incerteza apontado é a reforma tributária. A proposta de alíquota de 11,3% para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), anunciada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), ficou acima das expectativas do mercado, que giravam em torno de 9%. “O anúncio se soma a outros choques esperados para 2027 e amplia as dúvidas sobre o comportamento dos preços”, diz.

Embora a manutenção seja o cenário predominante, a possibilidade de uma nova alta da Selic começa a aparecer nas discussões sobre os riscos para a política monetária. A hipótese dependeria, sobretudo, de uma deterioração adicional das expectativas de inflação e de uma pressão cambial persistente. André Matos, CEO da MA7 Capital, avalia que uma elevação dos juros pode entrar no radar nas próximas reuniões caso o dólar continue subindo e o governo não apresente medidas fiscais concretas.

Banco Central deve evitar sinalizar próximos passos

A avaliação predominante entre os analistas é que o comunicado do Copom terá importância semelhante à decisão sobre a Selic. Mais do que anunciar a taxa, o Banco Central precisará explicar como está incorporando as mudanças no câmbio, nas expectativas de inflação e nas perspectivas fiscais.

Uma sinalização de cautela, sem compromisso com cortes ou altas futuras, permitiria à autoridade monetária preservar flexibilidade para reagir aos próximos indicadores. Também ajudaria a evitar que o mercado interprete uma decisão pontual como uma indicação definitiva sobre a trajetória dos juros.

Carlos Lopes, economista do banco BV, espera que o Copom evite antecipar os próximos movimentos. “Considerando o elevado grau de incerteza, o Banco Central também deve evitar compromissos em relação aos próximos passos da política monetária”, afirma.

O economista avalia que a Selic pode permanecer em 13,75% por um período prolongado, possivelmente até pelo menos o primeiro trimestre de 2027. Segundo ele, o ambiente externo desfavorável, a pressão sobre os mercados locais e a ausência de sinais claros de convergência da inflação dificultam a retomada dos cortes.

O que pode destravar os cortes em 2027

A apresentação de medidas críveis para conter o crescimento das despesas e estabilizar a dívida pública poderia reduzir o prêmio de risco exigido pelos investidores. Isso contribuiria para aliviar a pressão sobre os juros de mercado e o câmbio, embora os efeitos não fossem imediatos.

A avaliação de Patrus, da Bossa Invest, resume o dilema enfrentado pela política monetária. ” O país precisa de juros menores para estimular a economia, mas ainda não reúne condições fiscais e inflacionárias suficientemente sólidas para sustentar esse movimento”, diz.

A decisão da próxima semana deverá refletir esse impasse. A manutenção em 13,75% é o resultado mais provável entre os analistas ouvidos, mas a possibilidade de um último corte permanece no debate. Mais do que a escolha entre as duas alternativas, o sinal decisivo será a avaliação do Banco Central sobre a duração dos choques recentes e as condições necessárias para voltar a reduzir os juros.

No curto prazo, o espaço para cortes parece menor. Para 2027, a trajetória da Selic dependerá não apenas dos indicadores de inflação e atividade, mas também da capacidade do governo de reduzir as incertezas sobre as contas públicas.

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