Quando se fala emSuíça, o que vem à sua cabeça? Além dos Alpes, dos relógios e dos chocolates, o país é conhecido por suaneutralidade política, estabilidade institucional e discrição financeira. Uma combinação pouco comum que, há décadas, atrai grandes fortunas com um trunfo tão importante quanto a rentabilidade: previsibilidade.
Em um cenário de dívidas públicas crescentes, tensões geopolíticas e mudanças constantes nas regras de tributação, essa estabilidade ganhou ainda mais valor. Para famílias milionárias, proteger o patrimônio já não significa apenas escolher bons investimentos, mas também decidir em quais países, moedas e instituições manter sua riqueza.
É essa mudança de comportamento que Luis Ferreira, Chief Investment Officer (CIO) do EFG International para as Américas, observa no mercado internacional. Em entrevista exclusiva à Forbes Brasil, o executivo explica que o aumento do endividamento dos governos, o envelhecimento da população e a instabilidade geopolítica estão levando investidores a repensar a concentração de suas fortunas em uma única moeda ou jurisdição.
“Tudo começa com o aumento dos déficits dos governos. Para estimular as economias e evitar uma grande depressão após 2008, e de forma ainda mais acelerada na pandemia, os governos gastam mais do que arrecadam”, pontua Ferreira. Somado a isso, o envelhecimento demográfico amplia a pressão fiscal sobre os Estados. “E no mundo que tem déficit, é o mundo que vai ter mais imposto. A verdade é que você não quer ter tudo num lugar só. Você tem que estar diversificado em moedas, em países e em jurisdições.”

Isso porque a preocupação vai além dos benefícios fiscais. Envolve preservar o poder de compra, reduzir a exposição a riscos institucionais e garantir que o patrimônio construído ao longo de décadas possa ser transmitido às próximas gerações.
Ou seja, em meio à concorrência de centros financeiros como Estados Unidos, Singapura e Emirados Árabes Unidos, aSuíça busca preservar sua vantagem histórica na atração de grandes fortunas.Embora não esteja imune aos desafios econômicos internacionais, o país apresenta indicadores fiscais sólidos, mantém uma moeda forte e abriga um dos maiores centros de gestão de patrimônio do mundo.
O que sustenta a força econômica suíça?
ASegunda Guerra Mundialeoperíodo pós-guerraforam decisivos para a consolidação da Suíça como centro financeiro internacional. Enquanto grande parte da Europa enfrentava os impactos econômicos do conflito e os desafios da reconstrução, a neutralidade suíça contribuiu para fortalecer a posição do país como destino para a preservação e a gestão de grandes fortunas.
A proteção jurídica e a tradição bancária contribuíram para atrair recursos internacionais. Com o tempo, a concentração de capital estimulou a expansão dos serviços financeiros e a formação de profissionais especializados em gestão de investimentos, planejamento sucessório e atendimento a famílias de alta renda. “Não é só a questão fiscal, mas a questão institucional, a questão de segurança e tudo mais”, diz Luis Ferreira.
Segundo a Associação Suíça de Banqueiros, os ativos administrados por bancos sediados na Suíça atingiram 9,73 trilhões de francos suíços (US$ 11,93 trilhões ou R$ 65,21 trilhões) em 2025, um recorde e um crescimento de 4,8% em relação ao ano anterior. Desse total, 45,9% pertenciam a clientes domiciliados no exterior. A expansão continuou em 2026, pois nos primeiros meses do ano, o patrimônio sob gestão ultrapassou 10,1 trilhões de francos suíços (US$ 12,39 trilhões ou R$ 67,69 trilhões).
Entre 2015 e 2025, o patrimônio de clientes estrangeiros administrado pelos bancos suíços cresceu 37,9%, um acréscimo de mais de 1,2 trilhão de francos suíços (US$ 1,47 trilhão ou R$ 8,04 trilhões). Somente no ano passado, os ativos desses investidores avançaram 5,7%, acima do crescimento de 4% registrado entre clientes residentes no país.
Em relatório publicado em setembro de 2026, oFundo Monetário Internacional (FMI)destacou a capacidade da economia suíça de resistir às turbulências globais, sustentada por instituições sólidas, inflação baixa e finanças públicas robustas. O FMI destacou que a inflação ficou em apenas0,2%, uma das menores do mundo.
A avaliação é compartilhada pelaOrganização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que, também em setembro, ressaltou a resiliência da economia suíça diante dos choques internacionais e atribuiu esse desempenho à qualidade de suas instituições e à gestão prudente das contas públicas.
De acordo com dados divulgados pela Administração Federal de Finanças da Suíça, a dívida bruta do governo geral correspondia a 40,7% do PIB em 2025, enquanto o setor público registrou um superávit estimado em 4 bilhões de francos suíços (US$ 4,91 bilhões ou R$ 26,81 bilhões).

Além disso, em 2025, o país ocupou, pelo15º ano consecutivo, a primeira posição no Índice Global de Inovação, elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). O levantamento avalia quase 140 economias a partir de aproximadamente 80 indicadores, incluindo investimentos em pesquisa e desenvolvimento, registros de propriedade intelectual, capital de risco, exportações de alta tecnologia e capacidade de inovação.
A liderança no índice não significa que a Suíça registre o maior número de patentes do planeta. Economias maiores, como China e Estados Unidos, possuem escalas superiores em diversas métricas. No entanto, o destaque suíço está na combinação de indicadores de inovação e na capacidade de transformar conhecimento em atividade econômica.
Para Ferreira, a necessidade de manter competitividade diante de uma moeda forte ajudou a criar incentivos para investimentos em educação, pesquisa e desenvolvimento. “Tinha que investir muito em inovação, para que eles pudessem ser competitivos”, afirma.
O resultado é uma estrutura que atrai empresas internacionais de tecnologia, saúde e indústria farmacêutica. Também, a presença de centros de pesquisa e universidades qualificadas contribui para ampliar a relevância econômica do país muito além do setor financeiro. Na avaliação do CIO, essa combinação ajuda a explicar por que a Suíça continua relevante mesmo diante da ascensão de novos centros financeiros.
Mas por que outros países entraram na disputa?
Acrise financeira de 2008ajuda a explicar por que outros países passaram adisputar o patrimônio de investidores internacionais. Na época, governos e bancos centrais adotaram medidas emergenciais para evitar que a quebra de instituições financeiras desencadeasse umadepressão econômica. Os pacotes de estímulo, os resgates bancários e a queda da atividade econômica contribuíram paraelevar o endividamento público.
Somado a isso,uma década depois, a pandemia de Covid-19 voltou a pressionar as contas públicas. Com empresas paralisadas, restrições à circulação e a necessidade de financiar programas emergenciais de apoio à população, governos ampliaram novamente seus gastos. O resultado foi um aumento ainda maior do endividamento público, que passou a representar um dos principais desafios para a sustentabilidade fiscal no longo prazo.
O relatório Fiscal Monitor, publicado pelo FMI em abril de 2026, ressalta que a dívida pública global ficou pouco abaixo de 94% do PIB mundial em 2025. Na ocasião, a instituição projetava que o indicador alcançaria 100% até 2029, impulsionado principalmente pelo endividamento das maiores economias.
Nos Estados Unidos, a dívida pública representava 123,9% do PIB em 2025, enquanto na China o percentual chegou a 99,2%.
Além das dívidas já acumuladas, os governos precisam lidar com o envelhecimento da população, o aumento dos gastos com aposentadorias e a necessidade de ampliar investimentos em infraestrutura. São despesas que tendem a crescer nos próximos anos, tornando ainda mais difícil equilibrar os orçamentos.
De acordo com Ferreira, os países enfrentam uma escolha cada vez mais complexa: precisam elevar suas receitas, estimular o crescimento econômico ou reorganizar suas despesas para estabilizar a dívida. A tributação é uma das alternativas, mas aumentos excessivos podem provocar efeitos negativos sobre a atividade econômica e os incentivos dos contribuintes. “Então, como é que eu faço para atrair capital?”, questiona Ferreira.
É nesse cenário que adisputa internacional pela riqueza ganha uma nova dimensão.Governos passaram a competir não apenas pela atração deempresas e investimentos produtivos,mas tambémpelo patrimônio de famílias milionárias,capaz demovimentar diferentes setores da economia, do mercado imobiliário aos serviços financeiros,econtribuir para o financiamento da dívida pública.
Em outras palavras, um investidor que transfere sua residência para outro país pode adquirir imóveis, contratar profissionais, matricular os filhos em escolas e consumir bens e serviços. Mesmo quando os benefícios tributários reduzem a incidência de determinados impostos sobre a renda ou o patrimônio, outras atividades podem gerar receitas para a economia local.
Novos destinos das fortunas?
A mobilidade internacional de pessoas e capitais ampliou o número de destinos considerados por famílias de alta renda. Entre os principais estão os Emirados Árabes Unidos, especialmente Dubai e Abu Dhabi. O país investiu na modernização de sua infraestrutura, na expansão do mercado imobiliário e na construção de um ambiente de negócios voltado à atração de empresas e investidores estrangeiros.
Para Ferreira, os investimentos em infraestrutura tiveram papel importante nesse processo. A disponibilidade de imóveis de alto padrão, serviços internacionais e oportunidades empresariais ajudou a transformar os Emirados em uma alternativa para famílias interessadas em diversificar sua presença geográfica.
O executivo, porém, ressalta que a escolha de um país para residência envolve fatores que vão além dos impostos. Diferenças culturais, características do cotidiano e riscos geopolíticos também influenciam as decisões. A proximidade dos conflitos no Oriente Médio, por exemplo, pode pesar na avaliação de famílias que procuram estabilidade de longo prazo.
Singapura representa outro modelo de atração de patrimônio. O país combina uma economia aberta, infraestrutura financeira sofisticada e uma localização estratégica para investidores interessados na Ásia. Sua presença entre os líderes mundiais de inovação reforça a posição como centro financeiro e empresarial.
Mônaco, por sua vez, continua associado a um estilo de vida de altíssimo padrão e a condições tributárias específicas. O principado, entretanto, apresenta limitações territoriais e custos elevados de moradia, fatores que restringem sua acessibilidade.
Já os Estados Unidos permanecem no centro das estratégias de investimento internacional. Para Ferreira, o chamado excepcionalismo americano ajuda a explicar essa posição. Ou seja, características econômicas que diferenciam o país de outras grandes economias desenvolvidas, incluindo a profundidade de seus mercados financeiros, a capacidade de inovação e a presença de empresas globais de tecnologia. O executivo afirma que a economia americana conseguiu ampliar sua vantagem em indicadores de renda e produtividade em relação a diversos países desenvolvidos nas últimas décadas.
Segundo aOrganização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a produtividade do trabalho nos Estados Unidos cresceu2,2% em 2024, enquanto a União Europeia (UE) registrou avanço de 0,2%.
A expansão das empresas de tecnologia também criou oportunidades de valorização patrimonial. Companhias como Nvidia, Microsoft e Alphabet tornaram-se protagonistas do desenvolvimento da inteligência artificial, atraindo investimentos e ampliando a relevância dos mercados acionários americanos.
A expansão dainteligência artificialtornou essa diferença ainda mais evidente. De acordo com o relatórioAI Index 2026, da Universidade Stanford, os investimentos privados em IA nos Estados Unidos atingiramUS$ 285,9 bilhões (R$ 1,56 trilhão) em 2025, volume 23 vezes superior ao registrado na China. A Nvidia, por exemplo, registrou receita recorde deUS$ 215,9 bilhões (R$ 1,18 trilhão) no ano fiscal de 2026, crescimento de 65% em relação ao exercício anterior.
Ferreira comenta que a multiplicidade de alternativas demonstra que não existe uma única jurisdição ideal para todos os investidores. Uma família interessada em estabelecer residência permanente pode atribuir maior importância à educação, à saúde e à qualidade de vida. Outra, que pretende apenas diversificar seus investimentos, pode priorizar acesso a mercados, segurança jurídica e custos de administração.
“Você pode abrir uma conta aqui nos Estados Unidos, abrir uma conta na Suíça e morar em Malta, e morar na Espanha e morar no Brasil”, comenta o especialista do EFG.
O país onde uma pessoa reside não precisa ser necessariamente aquele em que mantém todos os seus investimentos. Um brasileiro pode continuar morando no Brasil e, observadas as obrigações legais e tributárias aplicáveis, administrar parte do patrimônio por meio de instituições financeiras internacionais. O especialista ressalta que a separação entre residência, investimentos e estruturas sucessórias amplia as possibilidades de planejamento, mas também exige atenção às legislações de cada país.
“Se você for diversificar para investir fora, tem que ter boas opções. Se fica muito ruim de um lado, fica bom do outro; ele balanceia e faz uma proteção. Esse que é o conceito de proteção no final das contas: não é uma proteção para pagar menos impostos, mas para preservar o seu legado“, afirma Luis Ferreira.
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