Para brasileiros e demais latinos, habituados com a associação entre o litoral e uma cultura própria de lazer e entretenimento com os pés na areia, a China definitivamente não vem à cabeça quando se fala de praia. Não é um país tropical, e dificilmente alguém lembra do amarelo das faixas de areia ou do azul do mar ao lembrar do dragão asiático. Entretanto, uma parte do litoral do país é permeada por resorts – que dão vida a uma história não contada sobre a costa chinesa.
Em Shenzhen, ao fim de maio, fazia calor. Em todos os dias da última semana do mês as temperaturas máximas ficavam acima dos 35ºC, com sensação térmica que batia ou ultrapassava os 40ºC. A cidade fica na província de Guangdong, a mais rica e industrializada da China, e usualmente é chamada de “vale do silício chinês”.
Por lá, há headquarters de companhias como BYD, Huawei, Tencent, DJI e UBTech Robotics, donas de produtos, serviços e sites que são amplamente utilizados também no Ocidente. Entretanto, não é uma cidade restrita a arranha-céus, concreto e tecnologia.
Shenzhen beira os 2 mil quilômetros quadrados de área, sendo 2,5 vezes maior que Nova York, e dentro desse espaço há 260 quilômetros de litoral que são relevantes em um universo de mais de 14 mil quilômetros de litoral chinês.
As praias mais conhecidas são Dameisha, Xiaomeisha e a península de Dapeng. Na primeira, alguns resorts pé na areia ocupam a costa. Um deles é o InterContinental Shenzhen Dameisha Resort, que fica no distrito de Yantian, na porção leste da cidade.
O endereço exato é 9 Yankui Road, e o hotel está a 35 metros da faixa de areia dourada de dois quilômetros da região — uma das poucas praias de acesso público que restam na cidade.

O entorno é bem pacato, calmo e arborizado.
O empreendimento é relativamente imponente, com uma estrutura que é inspirada no corpo de um dragão, com o lobby, por onde os hóspedes entram, representando o estômago.
Em um bar anexo ao lobby, que representa o órgão digestivo deste animal mítico e lendário, Carrie Wu (吴悦), diretora-assistente de Vendas e Marketing do Shenzhen Dameisha Resort, conta que a vista do hotel (estampada nas vidraças a metros do local) é um dos, se não o maior, diferencial da propriedade, que tem um acesso direto e umbilical com a praia.
“Não são muitos os resorts à beira-mar que têm essa distância entre o prédio em si e o oceano”, diz, em entrevista à Forbes.
A alguns metros dali, em um hotel dentro do hotel, o Club InterContinental – mais exclusivo e com cerca de 60 quartos –, Carrie conta algo peculiar.
Ao lado de uma piscina de borda infinita, ela atesta que aquele tipo de propriedade simplesmente não pode ser replicado nos dias de hoje, inclusive por questões regulatórias.
Fim dos (novos) resorts pé na areia na China cria peças raras à beira do mar
O governo chinês implementou, ao longo da última década e meia, restrições que impactam diretamente construções de resorts pé na areia.
Esse processo foi se endurecendo progressivamente desde meados de 2012, quando a Administração Oceânica do Estado (SOA) anunciou o primeiro teste do sistema de linhas vermelhas ecológicas no Mar de Bohai. Esse sistema, então, passou a ser consolidado gradualmente ao longo dos próximos anos.
À época, o Estado passou a exigir que atividades de exploração que danificam ecossistemas marinhos — como aterros e cercamentos costeiros — fossem proibidas nas zonas de proteção estrita, enquanto nas zonas de desenvolvimento restrito as atividades são limitadas e controladas.
Em 2017, o governo central endureceu regras para aterros costeiros, especialmente em manguezais, aumentando ainda mais o rigor.
Cerca de cinco anos depois, a Lei de Proteção de Terras Úmidas da República Popular da China reforçou o arcabouço legal, reforçando a proteção das áreas úmidas e restringindo atividades como drenagem e aterros.

Em suma, a China ainda não possui um código nacional específico para proteção costeira, mas possui legislações centrais como a Lei de Administração do Uso das Áreas Marítimas e a Lei de Proteção do Meio Ambiente Marinho, que se somam a regras regionais que aumentam o grau de rigor.
As regras urbanas para construção em praias na China, em 2026, mostram um quadro regulatório com leis nacionais, regulamentos setoriais e normas locais.
Em Shenzhen, em específico, há um regime de proteção costeira relativamente sofisticado, dada a pressão de urbanização sobre sua costa.
Em Dapeng, há uma das principais áreas marítimas de Shenzhen, com mais de 1,3 mil km² de mar planejado e 125 km de costa. A estratégia oficial é torná-la um destino de turismo sustentável, combinando turismo temático, conferências e esportes marítimos, segundo comunicados oficiais do governo local.
Em Dameisha, uma das maiores praias de Shenzhen, o parque costeiro é descrito pelo próprio governo de Yantian como um parque ecológico verde, cercado por colinas verdes em três lados e voltado para o mar, com uma praia de 1,8 km de extensão.
Assim, existem diversas camadas regulatórias sobrepostas, dado que no plano nacional, qualquer ocupação da faixa marítima exige concessão da autoridade oceânica e as Medidas para Proteção e Utilização de Costas de 2017 classificam a costa de Yantian, em partes, como zona de desenvolvimento restrito ou proteção estrita.
No plano regional e local, as linhas vermelhas ecológicas marinhas de Guangdong protegem a Baía de Mirs com múltiplas zonas de restrição, e o sistema nacional das Três Zonas e Três Linhas aplicado estritamente pelo governo de Yantian exige que qualquer novo projeto prove estar fora da linha vermelha ecológica e dentro dos limites de desenvolvimento urbano.
O resultado prático é que os resorts existentes na orla — como o InterContinental —, construídos antes do endurecimento regulatório, se tornaram uma gama restrita e, agora, mais exclusiva.
São peças escassas em um novo panorama regulatório.
Vale destacar que esse cenário motivou passos da gestão em direção às práticas ESG. O InterContinental Shenzhen Dameisha Resort foi a primeira marca internacional de toda a rede global a ter o certificado de hotel de baixo carbono.
“Nós organizamos nossos hóspedes e nossa equipe para fazer a manutenção da praia. […] Nós precisamos limpar todos os dias, todas as manhãs”, conta Carrie Wu, que também relata práticas mais ecológicas nas trocas de amenidades e mudanças de material que contemplam até mesmo os cartões dos quartos, agora feitos de bambu.
O quão grande (e exclusivo) é o Resort InterContinental em Shenzhen
Segundo Carrie Wu e Tiffany Tang, que também atua no departamento de marketing e vendas do resort, boa parte do público do hotel é de chineses “da Grande Baía” na região, mas estrangeiros têm vindo com mais frequência nos últimos anos.
Para os ocidentais, o local imprime muito da cultura chinesa, da culinária local e de todas as experiências que derivam disso.
“Uma das diferenças mais interessantes é que a hotelaria chinesa foi construída muito menos em torno do conceito de lazer ligado ao sol e muito mais em torno de bem-estar, experiência e hospitalidade integrada à cultura local. Vivendo há mais de 15 anos na China, percebi que muitos hotéis e resorts incorporam elementos como a cultura do chá, spas, medicina tradicional chinesa, massagens terapêuticas e até experiências ligadas às águas termais”, diz Theo Paul Santana, brasileiro e especialista em negócios China/Brasil e fundador do Destino China.
Com base em documentos enviados à Forbes, o resort de praia cinco estrelas no leste de Shenzhen fica a 70 km do Aeroporto Internacional de Bao’an e a 37 km da Estação Ferroviária Norte de Shenzhen.
A região concentra ainda o Dameisha Seaside Park, o Yacht Club, a área cênica das Montanhas Wutong, o complexo OCT East, o Dameisha Binhai Cultural and Tourism Art Town, a Xiaomeisha Waterfront Boardwalk e o Dameisha Outlets.

Nas proximidades, há mais pontos de interesse, como o Farol de Beizaijiao, a Yantian Seadfood Street e o Yunhai Park. O resort oferece ainda acesso a passeios de jet ski e helicóptero na região.
O prédio principal tem formato de dragão e foi pensado para se encaixar entre as Montanhas Wutong e o Mar do Sul da China — um recurso estético que o hotel usa como diferencial.
Nos interiores, a arquitetura faz o máximo possível para unir luxo ao feng shui, conceito de arte e filosofia chinesa que preconiza a harmonização das pessoas com os espaços ao seu redor.
A fachada de vidro curvo é diferente da dos demais resorts vistos da faixa de areia e reflete a paisagem costeira.
No total, a propriedade possui 432 quartos no total, divididos entre o prédio principal (370 unidades) e o Club InterContinental (62 quartos e suítes). Todos os quartos têm vista para o mar.
Outras atrações incluem o Kids Club “Dameisha Wonderland”, trem infantil, carrossel, padrão de entretenimento noturno com performances de dança do fogo, aulas de stand-up paddle e festas à beira da piscina.
A academia do resort usa maquinário TechnoGym, marca que une luxo, alta performance e wellness (conceito que é praticamente um slogan da empresa) do bilionário italiano Nerio Alessandri.
O resort opera sob gestão do grupo britânico IHG (InterContinental Hotels Group), uma das maiores empresas de hotelaria do mundo. O IHG opera sob o modelo de franquias e contratos de gestão.
Quartos de até 395 m²
No total, o prédio principal possui 12 tipos de quarto, com área total de 50m² a 395m².
Os colchões são das marcas Serta e Slumberland e as amenidades de banho são da Byredo Blanche.
Além da ducha, os banheiros têm banheira separada, box walk-in e duas pias.
Entre as categorias disponíveis no prédio principal estão:
- 1 King Bed Classic Ocean View (50–56 m²) — 63 unidades
- 2 Twin Beds Classic Ocean View (50–56 m²) — 127 unidades
- 1 King Bed Classic Ocean View High Floor (50–56 m²) — 49 unidades
- 2 Twin Classic Ocean View High Floor (50–56 m²) — 79 unidades
- 1 King Bed Classic Accessible (50–56 m²) — 3 unidades
- 1 King + 1 Bunk Beds Junior Suite Kids Theme (80 m²) — 10 unidades
- 1 King Stay Curious Ocean Child Themed Family Suite (90 m²) — 6 unidades
- 1 King 1 Bedroom Suite Ocean View (90 m²) — 15 unidades
- 1 King 1 Bedroom Suite Living Area Ocean View (85 m²) — 6 unidades
- 1 King 1 Bedroom Suite Ocean View Balcony (100 m²) — 5 unidades
- 1 King + 1 Bunk 2 Bedroom Suite Kids Theme (85 m²) — 1 unidade
- 2 King 2 Bedroom Suite Ocean View (170 m²) — 5 unidades
- 2 Bedroom Presidential Suite (395 m²) — 1 unidade
O resort tem também suítes temáticas para famílias com crianças com decoração de fundo do mar e uma estrutura em formato de submarino no espaço infantil. Há também os Ai Family Themed Ocean View Rooms, com decoração voltada ao público familiar.

Alta gastronomia
O hotel opera três restaurantes e bares, além de room service 24 horas.
O Commune é o restaurante principal do resort, com buffet e à la carte com cozinha global e especialidades locais.
Já o Mankok é o restaurante voltado à culinária do Sudeste Asiático com influências chinesas. O cardápio usa ingredientes sazonais e tem um segmento kid-friendly com espaço próprio para famílias.
O Lobby Lounge é o espaço de chá e drinks no primeiro andar, com janelas do piso ao teto com vista para a linha costeira e biombos que criam espaços semiprivados para conversas e reuniões.

Club InterContinental
O Club InterContinental é a ala exclusiva da propriedade, com entrada independente e arquitetura própria.
O conceito de design une elementos da cidade, da natureza e do oceano, com uso de madeira, pedra, aço, tijolos e vidro.

Os pilares cobertos por vegetação e as paredes vivas marcam os corredores de acesso. Por lá, uma obra de arte enorme no corredor, que precede a chegada ao balcão da recepção – onde a maioria dos hóspedes costuma tirar fotos para as redes sociais.
O lounge exclusivo da ala, chamado The Abode, funciona como espaço social contemporâneo e oferece chá da tarde e coquetéis noturnos para hóspedes do Club.
As 62 unidades do Club ficam entre 45 e 50 m² (quartos) e 58 a 136 m² (suítes).
Os quartos do Club têm amenidades de nível superior, com secador Dyson, produtos de banho Byredo Blanche e sistema de ducha Hansgrohe, além de decoração em tons de madeira natural com vista para o mar ou jardim.
O restaurante Azure, dentro do perímetro do Club, tem inspiração na Côte d’Azur francesa e serve culinária global com foco em frutos do mar. O espaço tem estrutura de vidro com vista direta para o oceano.

Palco de casamentos
O hotel tem capacidade expressiva para eventos corporativos e sociais. O Grand Ballroom tem mais de 1 mil metros quadrados, sem colunas, e comporta até 1,2 mil pessoas em formato teatro, podendo ser dividido em três salas menores (Ballrooms I, II e III, de 330, 360 e 330 m², respectivamente).
Há ainda 10 salas de reunião adicionais com layouts flexíveis e o espaço Caspian de 960 m² com vista para o mar.
No Dragon Arena, espaço para eventos à beira-mar inaugurado em 2024, há uma cobertura em cúpula branca com design contemporâneo e vidros do piso ao teto.
Por lá, há um salão de 880 m² (Dragon Arena I), um espaço auxiliar de 120 m² (Dragon Arena II) e um gramado externo de 243 m² para cerimônias ao ar livre.
A capacidade em formato banquete é de 360 pessoas; em teatro, 650.
É neste local que o hotel oferece casamentos em formato chinês tradicional no Grand Ballroom e cerimônias ocidentais ao ar livre na praia ou no deck do Yun Qi.
Quem são os donos
O InterContinental Shenzhen Dameisha Resort é um empreendimento de propriedade do grupo chinês Kingkey Group e administrado pela IHG Hotels & Resorts sob a bandeira InterContinental.
O Kingkey foi fundado por Chen Hua, um empresário chinês. O conglomerado privado é sediado em Shenzhen. Sob sua liderança, o grupo tornou-se um dos principais desenvolvedores imobiliários do sul da China.
A InterContinental Hotels Group (IHG), aliás, é listada na Bolsa de Valores de Londres sob o ticker IHG. Os papéis da multinacional sobem 38% nos últimos 12 meses, cotados a cerca de US$ 160. O valor de mercado da companhia fica na casa dos US$ 24 bilhões.
O grupo opera mais de um milhão de quartos espalhados em quase 7 mil hotéis em mais de 100 países.
A receita do grupo em 2025 foi de US$ 5,19 bilhões, com lucro operacional de US$ 1,19 bilhão. O número de funcionários ultrapassou 385 mil neste ano.

Como quem mora na China vê as praias
O turismo de praia na China ganhou tração a partir dos anos 1980, impulsionado pelas reformas econômicas de Deng Xiaoping, que aumentaram a renda disponível da população.
Nesse contexto, as gerações mais jovens passaram a adotar uma atitude mais aberta em relação a férias na praia e atividades ao ar livre.
Culturalmente, porém, a relação dos chineses com a praia destoa da relação dos ocientais.
Existe uma preferência histórica por evitar o sol na China, dado que pele clara é associada a status social, historicamente. Há milênios, melanina e divisão de classes dialogam, dado que os trabalhadores rurais do dragão asiático que trabalhavam sob o sol ficavam com a pele bronzeada ou escura, enquanto a elite e os intelectuais que trabalhavam em ambientes fechados mantinham a pele mais clara.
Assim, é comum ver guarda-sóis, roupas protetoras e “facekinis” (máscaras de neoprene) em praias na China.
O Chefe de Estado chinês, Xi Jinping, já disse que “águas límpidas e montanhas verdes são ativos inestimáveis”, e que “um bom meio ambiente é a forma mais inclusiva de bem-estar público”.
Há uma frase que figura como uma das traduções mais poéticas e conhecidas dos versos de despedida do poeta chinês Wang Bo, da Dinastia Tang, que em suas palavras celebra a amizade verdadeira, indicando que a distância física não separa corações.
Em um poema chamado “Despedida do Vice-Prefeito Du Shaofu para seu posto em Shuzhou”, o poeta da China diz: “Embora separados pelos mares, permanecemos vizinhos sob o mesmo céu”.