Algumas projeções indicam que o setor de saúde nos Estados Unidos crescerá para US$ 8,6 trilhões (R$ 43 trilhões) até 2033, representando 20% da economia do país. Isso ocorre paralelamente às mudanças demográficas nos EUA, à transformação das percepções sobre saúde e longevidade, e a um reconhecimento mais amplo do papel do ambiente construído em ambos os aspectos.
Doenças causadas por mofo e umidade custam à economia US$ 5,6 bilhões (R$ 28,5 bilhões) por ano. Os gastos médicos relacionados ao tratamento de asma decorrente de fungos nas residências ultrapassam US$ 3,6 bilhões (R$ 18,2 bilhões) anualmente. Além dessas condições respiratórias, produtos domésticos podem liberar compostos orgânicos voláteis, ou COVs, que trazem diversas consequências negativas para a saúde.
Outra frente na gestão da saúde ambiental é a restrição da exposição a campos eletromagnéticos (CEMs). Casas inteligentes com dispositivos conectados trazem novos desafios para minimizar a radiação eletromagnética, que, em alguns casos, pode causar problemas de sono, dores de cabeça e fadiga.
Para combater esses sintomas de forma proativa e ter uma vida mais sadia, os proprietários estão se informando e até mesmo ajudando a educar construtores, arquitetos e empreiteiros, que já começam a dar respostas a essa demanda.
Demanda por Produtos Saudáveis
Com o aumento de casos de moradores adoecendo devido a elementos presentes em seus lares ou no ambiente construído, cresce a exigência por transparência sobre os materiais utilizados nas habitações.
Esse movimento está provocando um afastamento de itens tradicionais — como espuma expansiva, pisos de PVC e materiais tratados com formaldeído —, abrindo espaço para que novas alternativas ocupem esse lugar.
Um marco que se destaca é o período pós-pandemia, quando uma parcela maior da população passou a se preocupar com a qualidade do ar interno e a buscar ventilação de alto desempenho, sistemas de filtragem para a casa inteira e monitores inteligentes de qualidade do ar.
Atualmente, as doenças respiratórias causadas por fungos também estão impulsionando o uso de matérias-primas mais naturais, respiráveis e resistentes ao mofo, como isolamento de lã ou concreto de cânhamo (hempcrete), além de tintas com níveis baixos ou nulos de COVs.
A consultoria McKinsey relata que saúde e bem-estar são a prioridade absoluta para 84% dos consumidores em relação ao que esperam de seus imóveis. Os compradores buscam maneiras de obter um sono melhor, melhoria na nutrição e bem-estar geral.
O relatório COGNITION Smart Data, da Green Builder Media, também mostra que o público prioriza características ligadas às três facetas do bem-estar — físico, mental e emocional —, procurando luz natural, ar fresco, água filtrada e áreas de convivência ao ar livre como atributos residenciais.
Os clientes estão interessados em janelas de alto desempenho integradas ao projeto arquitetônico para maximizar a iluminação e o fluxo de vento, assim como em sistemas embutidos de filtragem de água e varandas envidraçadas com vista para o exterior e fácil acesso à natureza.
O relatório aponta que o impacto financeiro para construtores e projetistas pode ser mínimo, pois o design focado no bem-estar não precisa ser complexo. Além disso, esses profissionais saem ganhando, uma vez que atributos passivos e integrados ao ecossistema têm forte apelo comercial.
Não apenas a demanda está crescendo, mas também a disposição do proprietário em pagar por essas comodidades. Segundo a COGNITION Smart Data, 27% dos compradores estão dispostos a desembolsar de US$ 5 mil a US$ 10 mil (R$ 25,4 mil a US$ 50,8 mil) a mais no ato da compra por recursos que tornem a casa saudável, desde que reduzam os custos de manutenção a longo prazo e melhorem a qualidade de vida. Outros 23% aceitam gastar US$ 10 mil ou mais.
A Demanda por Insumos Sustentáveis é Concentrada
Embora exista uma busca por opções salubres, Gareth Hayes, sócio sênior da consultoria de gestão Roland Berger, afirma que o foco recai majoritariamente sobre os imóveis de alto padrão.
“Bem-estar, luz natural e qualidade do ar interior ainda não decolaram”, disse ele. “Fora de hotéis e hospitais, onde a filtragem e a pureza do ar interno são exigências básicas para a funcionalidade do edifício, não vemos esse conceito engrenar. Em um empreendimento multifamiliar padrão, de preço de mercado, o apelo à saúde e ao bem-estar não está vencendo.”
Ainda que exista conectividade residencial por meio de equipamentos integrados a dispositivos vestíveis (wearables), a adoção continua limitada. Hayes acredita que os moradores não se sentem motivados a investir financeiramente apenas por uma questão de saúde, mas farão a transição se houver impacto no bolso.
“No segmento de casas unifamiliares, as empresas de cozinhas e banheiros, como Kohler e Moen, possuem investimentos em desenvolvimento”, acrescentou.
“Qual é o impacto da filtragem de água em toda a casa? Como você está infundindo a água no sistema do chuveiro? Como monitorar a saúde intestinal? Tudo isso é uma extensão do bem-estar pessoal conectada ao ecossistema de smart home. No entanto, ainda é relativamente cedo.”
O especialista comparou a tendência de saudabilidade ao movimento das construções ecológicas (green building), em que hoje quase um terço dos edifícios alcança certificações ambientais. No caso das certificações de saúde, ainda não há uma atividade forte voltada para exigências do código de obras — como a remoção total do formaldeído — que apresentem resultados normativos mais expressivos.
Além disso, como a procura ainda não ganhou escala, os materiais sustentáveis enfrentam um gargalo na cadeia de suprimentos devido à escassez de insumos. Esses entraves logísticos têm origem direta na coleta da matéria-prima.
“Se você observar o concreto ecológico, ele não consegue atender a toda a demanda porque não há material suficiente”, exemplificou.
“As empresas de concreto usinado representam 20% do mercado e têm capacidade de produzir um cimento mais sustentável, mas, se todos fizerem a transição, o sistema não dará conta. Em relação ao aço verde, a construção civil é o uso de maior valor agregado. Como o aço está presente em outros setores e a oferta é limitada, para onde ele irá? Para os automóveis, trens ou novas edificações? Não há volume suficiente para abastecer integralmente o mercado.”
Hayes também avalia que a inovação só ganhará força quando uma grande construtora ou uma legislação específica exigir a mudança.
“Se empresas como Pulte, Meritage e KB Home decidirem usar apenas janelas de vidro triplo, haverá inovação para sustentar isso, e o canal de distribuição descobrirá uma forma de fazer o produto chegar à ponta final”, completou.
Enquanto a regulação e o mercado de massa não resolvem a equação, algumas incorporadoras e fabricantes já estão tratando o tema como prioridade.
A Prática no Mercado Imobiliário
Na Flórida, Bekah Wagner, especialista em negócios imobiliários voltados para o bem-estar na Corcoran Reverie, tem prestado consultoria a empresas focadas em retrofits para tornar os edifícios mais sadios.
“Na cidade de Destin, a mentalidade e os métodos de construção convencionais estão ultrapassados”, relatou. “Temos graves problemas de mofo em razão da umidade, mas as construtoras insistem na madeira e no drywall. Também passei a analisar o impacto ambiental dos terrenos, visando frear o desmatamento — o que evita alagamentos — para, então, erguer empreendimentos de melhor qualidade sobre eles.”
A especialista atua ao lado de incorporadores e arquitetos para ajudá-los a entender a certificação WELL, um programa que avalia e mensura como os projetos e a gestão dos prédios impactam a qualidade de vida.
Em um projeto recente, os desenvolvedores alegavam ter o selo de “imóvel saudável” apenas por instalarem piscinas de imersão no gelo. Wagner orientou a equipe a evitar o greenwashing e a direcionar o foco para os recursos de design e de engenharia que atestassem o real compromisso do ativo com a saúde do morador.
“O empreendimento conta com três edifícios de apartamentos e duas townhouses (casas geminadas), e eu queria que o foco estivesse nos sistemas estruturais, não só nas comodidades da área comum”, explicou Wagner. “Privilegiei tintas e acabamentos com baixo teor de COVs, adicionei luzes dimerizáveis, baixa voltagem para ajustar o ritmo circadiano e blindagem contra CEMs nos dormitórios. Incluímos sistemas de filtragem de água. E estamos trabalhando com estruturas 100% em concreto, o mais recomendado para a topografia da região.”
Esse case reflete a grande oportunidade de investir na qualificação dos stakeholders envolvidos no ciclo construtivo, um desafio enfrentado por grande parte do mercado.

Supply Chain Responsiva
Para que produtos não-tóxicos sejam amplamente adotados, a transformação precisa ocorrer nas etapas logísticas, atrelada à originação da matéria-prima. Vários programas setoriais estão encampando esse desafio por meio de novas certificações de governança e produção.
Ben Christensen é o CEO do marketplace madeireiro Cambium, que atua na modernização da economia florestal salvando árvores, gerindo florestas de manejo sustentável e facilitando a compra legalizada da madeira.
“Nos EUA, cerca de 426 milhões de toneladas de madeira são desperdiçadas anualmente”, alertou. “Esse volume poderia ser reaproveitado para suprir mais da metade da demanda vigente. Temos uma escala gigantesca, mas reciclamos menos de 5% da produção hoje.”
Não é tarefa simples reinventar um nicho estagnado em processos analógicos. A Cambium trabalha no advocacy regulatório para a originação da madeira, ao mesmo tempo em que cria eficiência em uma cadeia ainda ineficiente, especialmente por lidar com um produto extraído do meio ambiente, e não de uma linha de montagem.
“Coletamos um volume denso de dados operacionais, de rastreabilidade, precificação e métricas ambientais”, detalhou Christensen. “Com esses quatro pilares, construímos o melhor banco de dados da indústria. Nosso trabalho é garantir a auditoria direto na fonte, entregando um portfólio verdadeiramente limpo. Os fabricantes respondem às agências certificadoras, e nós operamos a logística final de distribuição.”
Entidades setoriais também articulam medidas para forçar o compliance do varejo. A Associação Europeia de Varejistas de Bricolagem (EDRA) e a Rede Global de Melhorias Domésticas (GHIN) publicaram uma diretriz para impulsionar a economia circular, com a meta de que 35% dos plásticos usados em artigos de reforma residencial contenham material reciclado até 2035.
O programa global Make it Zero (Faça Zero) promete reduzir as emissões industriais no mercado de “faça você mesmo” (Do It Yourself) em 15%. Para isso, a iniciativa exigirá mandatos de compras, inclusão de plástico reciclado na rota de produção dos fornecedores e uso ampliado de insumos renováveis.
Ray Baker, diretor de sustentabilidade das duas entidades, explicou que a sinergia entre o mercado europeu (coberto pela EDRA) e o mercado global (pela GHIN) resulta em um ecossistema com 230 redes de home centers e 35 mil lojas em 79 países, movimentando US$ 2,6 bilhões (R$ 13,2 bilhões) em vendas, englobando gigantes como The Home Depot e Lowe’s.
Apesar da magnitude do conglomerado, atingir o net zero é complexo. Em boa parte dos casos, a indústria sequer mapeia os dados dos próprios produtos.
Alavancados por novas regulações, esses consórcios mapearam quatro eixos prioritários de descarbonização: plástico, siderurgia (aço), redução de carbono no chão de fábrica e tintas/revestimentos.
“O grande gargalo é como parametrizar essas metas e medir o impacto”, admitiu Baker. “A primeira etapa é engajar a base. Os grandes varejistas e os maiores atacadistas contam com consultorias robustas, mas a maioria não dispõe de capital ou técnicos qualificados. Então, como vamos apoiá-los na redução de emissões se não possuem infraestrutura interna?”
Às vezes, a inovação disruptiva mostra que não é preciso seguir a cartilha burocrática; as próprias empresas assumem o risco de liderar a pauta por entenderem que essa é a forma mais perene de proteger o capital investido.
P&D e o Design de Interiores
A Sekisui House, maior construtora de casas do mundo sediada no Japão, aplica metodologias estruturais bem diferentes do convencional wood frame americano. Em 2024, a companhia introduziu a filosofia construtiva asiática nos EUA com o lançamento de casas e loteamentos assinados pela grife SHAWOOD.
Os imóveis da SHAWOOD são concebidos com foco na experiência e na neuroarquitetura: controle avançado do ar, alvenaria de baixa toxicidade, amplitude espacial, incidência solar e conforto termoacústico. Os pilares de ventilação, luminosidade e design elevam a saúde física e mental das famílias, um diferencial de valor percebido na hora da compra.
“Transformamos a casa no lugar mais feliz para se estar, e parte dessa premissa passa por torná-la também a mais saudável”, destacou David Viger, CEO da subsidiária americana da Sekisui House. “O pilar mais crítico é o da fundação e da envoltória do projeto, onde as margens de erro precisam ser milimétricas. A maior patologia construtiva é a infiltração de água e de ar no sistema. Se entregamos um produto livre disso, o imóvel torna-se automaticamente imune a fungos.”
Viger reconhece que o motor desse sucesso é o pesado orçamento que os japoneses injetam no departamento de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
“Sem dúvidas, o P&D é a nossa principal vantagem competitiva. São mais de 60 anos de histórico que ajudaram não só o nosso balanço financeiro, mas toda a engenharia global”, elogiou. “Desconheço outra incorporadora do segmento que tenha alocado tanto capital em pesquisa residencial.”
A centralidade no cliente e a coleta constante de métricas indicam que a Sekisui House é proativa. Se o fornecedor não tiver o insumo com o padrão de pureza exigido para a obra, a própria holding assume a fabricação do componente, garantindo o padrão do catálogo.
Para a marca nipônica, a diretriz não é sobre reduzir despesas operacionais.
“Temos ciência de que nossos custos são mais altos para entregar essas tecnologias”, reconheceu Viger. “Apostamos que, se o cliente decodificar o valor intrínseco que acompanha o esqueleto do imóvel, a decisão de fechamento do negócio fica fácil. O mercado erra toda vez que prioriza o custo em detrimento da entrega de valor.”
Projetar ativos premium envolve um alto nível de fricção técnica. Boa parte dessas implementações fica embutida e camuflada dentro do contrapiso ou do gesso, mas a Sekisui House entende a governança socioambiental como um passivo obrigatório de sua atuação corporativa.
“O que torna a marca especial é que a SHAWOOD está anos-luz à frente dos concorrentes, migrando 100% de seus catálogos para compostos clean (limpos)”, avaliou Viger. “Não é o nicho mais fácil para se atuar, mas é o core business inegociável do grupo. Quem olha pelo retrovisor construtivo dificilmente vai encontrar algo desse calibre. Nosso horizonte de negócios é extremamente promissor.”
O movimento endossado pela gigante corporativa deu origem a uma casa-conceito que está sendo documentada pela Green Builder Media, cujo escopo servirá como benchmark técnico para capacitar a próxima geração de incorporadores a remodelar suas plantas arquitetônicas.
O Futuro dos Produtos Saudáveis
A configuração imobiliária está em transição, e as linhas de materiais não-tóxicos são o principal gatilho dessa curva evolutiva.
O Global Wellness Institute estima que o subnicho de Real Estate com foco em saúde vai ultrapassar o valuation de US$ 1,8 trilhão (R$ 9,1 trilhões) até 2030, um número que já direciona o fluxo de caixa das construtoras de capital aberto.
Simultaneamente, o mercado assiste à introdução de novos frameworks e agências de classificação que medem a qualidade dos suprimentos da indústria de base. O guia ESG Defining Principles (Princípios ESG Definidores), criado pela Green Builder Media, consolida métricas técnicas para avaliar a toxicidade das obras, classificando poluentes em referências abertas ao público. Plataformas colaborativas, como a Mindful Materials, também formatam parâmetros para auditar a especificação de commodities em portfólios de grande porte.
A tese macroeconômica é unânime: no longo prazo, a aliança entre tecnologia, regulação florestal e design de interiores irá pautar o consumidor, aquecendo a pressão compradora e asfixiando os gargalos iniciais da cadeia logística — garantindo um teto cada vez mais sustentável.
Reportagem publicada originalmente em Forbes.com