Os proprietários esperam muito de suas casas. Privacidade, segurança, conforto, eficiência, espaço e estilo são apenas alguns dos requisitos. É possível reunir tudo isso em um único projeto? Exemplos de diferentes partes do mundo mostram que sim, e a preços acessíveis.
A habitação está se tornando cada vez mais inteligente em todo o mundo, não apenas na forma como é projetada, mas também na maneira como é construída e entregue. Materiais, processos e desempenho estão evoluindo para atender às altas expectativas dos moradores e, ao mesmo tempo, reduzir os custos.
Alguns exemplos inovadores começam com conceitos habitacionais que conheci no Utopian Hours, evento realizado em Turim, na Itália. Eles representam algumas das soluções mais inovadoras do mundo, capazes de atrair tanto investidores quanto compradores.
Casas com grande potencial que começam pequenas

A Beyome é uma casa compacta e flexível, projetada pelo Enorme Studio, escritório com sede em Madri, na Espanha, fundado por Rocío Pina. Diante dos altos custos da habitação no país, Pina quis desenvolver um produto versátil, capaz de otimizar o uso do espaço ao longo de todo o dia.
“A Beyome se adapta ao usuário, e não o contrário”, afirmou. “Os espaços precisam evoluir conosco. Não devemos criar prisões nem ambientes fechados.”
A casa foi projetada para maximizar o aproveitamento de cada ambiente ao longo do dia. Pina observa que, normalmente, o quarto é utilizado por cerca de um terço do dia, durante o sono. Isso não significa, porém, que o espaço deva ficar sem uso nos demais períodos. A Beyome conta com paredes móveis que permitem transformar o quarto desocupado em áreas comuns, como sala de estar ou de jantar, tornando o ambiente multifuncional.
Em imóveis urbanos, uma área de 800 pés quadrados (aproximadamente 74,3 m²) é comum, mas pode impor limitações. A Beyome busca repensar esse modelo, criando maneiras de utilizar os ambientes para diferentes finalidades ao longo do dia.
“Em uma casa pequena, você precisa de todo o espaço o tempo todo”, disse Pina. “É possível utilizar 100% da área e, quando precisar de privacidade, você ainda terá isso. A ideia combina o conceito de loft com o de quarto, sem abrir mão do conforto e da acessibilidade financeira. As paredes podem ser movimentadas por mecanismos ou manualmente e ficam suspensas no teto.”
A flexibilidade do projeto também permite prolongar a vida útil do imóvel, tornando-o uma alternativa mais sustentável. A Beyome tem se mostrado uma opção interessante para o mercado de locação residencial, pois os inquilinos não precisam fazer alterações para adaptar a casa às próprias necessidades: o espaço já se ajusta a eles.
“Isso pode reduzir os recursos e a energia necessários para reformas e renovações”, acrescentou Pina.
Outros conceitos têm uma escala maior.
O auge do projeto: casas que reúnem todos os atributos

Nas proximidades, em Roterdã, na Holanda, a NICE Developers criou o empreendimento SAWA, que reúne todos esses atributos. Com um método construtivo altamente eficiente, inspirado na lógica de montagem da IKEA, o projeto entregou 109 unidades habitacionais com uma equipe de seis pessoas em seis meses.
Segundo Robert Winkel, um dos cofundadores da NICE Developers, chegar a esse resultado não foi simples. A empresa trabalhou com universidades e especialistas em construção para conhecer novas possibilidades e revisar suas ideias de projeto diversas vezes. Ao longo do processo, concluiu que as normas convencionais de construção eram pouco adequadas ao método que pretendia utilizar. O trabalho rigoroso também levou o grupo a desenvolver novos padrões de segurança contra incêndio para estruturas de madeira laminada cruzada (CLT).
“Investimos em métodos construtivos que reduzem as emissões de carbono e também favorecem a biodiversidade do entorno”, afirmou Winkel. “Quando o objetivo é construir emitindo menos CO₂, é preciso inovar na maneira como os edifícios são construídos.”
A inovação aparece em todas as etapas do empreendimento. A estrutura pré-fabricada foi projetada com um nível muito elevado de precisão, com margens de erro de apenas 1 a 2 milímetros — dez vezes menores do que as associadas ao concreto.
“O empreiteiro geral não precisou assumir esse risco para o negócio”, disse Winkel. “Normalmente, os sistemas da indústria da construção apresentam uma taxa de falhas de 5% a 10%, mas isso não acontece com a pré-fabricação. Não é necessário ter um empreiteiro geral, e isso representa uma ameaça ao modelo tradicional. É revolucionário.”
A biodiversidade também foi incorporada ao projeto, com fachadas e terraços que incluem jardineiras e estruturas para abrigar ninhos de pássaros, morcegos e insetos. O edifício conta ainda com coberturas marrons, sistemas de retenção de água e terraços verdes, que contribuem para um ambiente urbano saudável e adaptado às mudanças climáticas.
O prédio não precisa de refrigeração mecânica. Foi projetado para permitir a entrada do sol durante o inverno e bloquear a incidência solar nos horários mais quentes do verão. Além do sombreamento solar passivo, o sistema de ventilação equipado com sensores só é acionado quando a concentração de dióxido de carbono fica elevada demais.
O SAWA foi viabilizado por um modelo pouco convencional: a incorporadora reinvestiu no próprio empreendimento todo o lucro que ultrapassasse 5%.
“Por que eu deveria ter mais lucro do que consigo gastar?”, questionou Winkel. “Eu ganho esse dinheiro e o devolvo ao lugar — isso é regeneração. É o que acredito que precisamos fazer. Se você ocupa uma parte da Terra, deve deixá-la três ou cinco vezes melhor do que a encontrou. Os recursos precisam ser destinados diretamente ao local para enfrentar problemas como estresse térmico, emissões e excesso de nitrogênio.”
A NICE adota essa abordagem singular de desenvolvimento imobiliário, que gera benefícios para os moradores, a comunidade e o meio ambiente.
A madeira utilizada na construção armazena carbono, e o SAWA afirma reter 2,5 toneladas desse elemento. O empreendimento oferece aos moradores certificados relativos a essas compensações de carbono, que podem ser utilizados para gerar receita.
Esse incentivo aos residentes é um aspecto importante para a viabilidade econômica do projeto. Outro diferencial é a possibilidade de desmontar o edifício. Segundo Winkel, essa característica de projeto agrega até 10% de valor ao empreendimento.
Muitos outros projetos estão buscando aumentar a eficiência e devolver benefícios ao meio ambiente.
Casas que devolvem benefícios ao meio ambiente
A Powerhouse Company, empresa que atua de forma integrada em diferentes etapas do desenvolvimento imobiliário, entregou em 2025 o primeiro empreendimento residencial de Roterdã construído com madeira maciça, com 82 unidades habitacionais.
O objetivo era demonstrar que é possível construir de forma sustentável a preços acessíveis. A empresa também está desenvolvendo um projeto residencial em madeira em Amsterdã, que vai além dos benefícios ambientais do material e explora seus efeitos sobre a saúde dos moradores.
A madeira aparente utilizada nesses imóveis pode melhorar o bem-estar mental, pois oferece aconchego, textura e estímulos sensoriais que, segundo estudos, ajudam a reduzir o estresse e favorecem o equilíbrio emocional. Como elemento de design, a madeira natural contribui para criar ambientes tranquilos, acolhedores e restauradores.
Soluções como essas, que representam a habitação do futuro, exigem uma abordagem abrangente.
“Pensamos sempre no usuário final e em como os edifícios serão utilizados”, afirmou Paul Stavert, arquiteto e sócio da Powerhouse. “Como arquitetos, temos muito controle sobre o que acontece em uma comunidade e sobre como ela é construída, mas não se trata apenas da arquitetura. A organização e a manutenção também são importantes. A estrutura física que projetamos pode favorecer as conexões humanas e criar uma comunidade baseada em valores compartilhados.”
Para isso, a Powerhouse projeta espaços comuns que combinam controle social, segurança e gestão sofisticada, incluindo a área de transição entre as ruas e os edifícios.
“É nesse espaço que a cidade se forma”, disse Stavert. “Ele funciona como uma membrana entre o espaço público e o edifício, e é preciso tornar essa transição gradual. Trabalhamos nos aspectos técnicos da construção para liberar mais espaço público, permitindo que a calçada tenha um café agradável e uma área de convivência.”
Isso exige uma análise cuidadosa de onde começa a segurança e de como se estabelece a separação entre os espaços públicos e privados. A Powerhouse incentiva seus clientes a ampliar os limites do que estão dispostos a fazer para criar espaços verdadeiramente públicos.
Também é necessário considerar as necessidades de cada local e como ele funcionará ao longo do tempo, de modo a formar uma comunidade sólida e gerar valor para a cidade como um todo.
“Há uma escassez de moradias, e as pessoas estão tentando encontrar imóveis melhores e mais baratos. Por isso, precisamos oferecer algo de qualidade e único”, acrescentou Stavert. “Quando as pessoas gostam de onde moram, desenvolvem um sentimento de pertencimento e começam a cuidar do lugar. É o que vemos em jardins comunitários e terraços na cobertura.”
Esses elementos ganham ainda mais importância em empreendimentos inteiramente novos ou em áreas que passam por transformações rápidas, nas quais é fundamental criar condições para o surgimento de comunidades.
Outro projeto em Roterdã reúne esses conceitos em um empreendimento de 300 moradias chamado Tree House, desenvolvido pela Provast. A construção foi concebida para ser neutra em carbono e inspirada no ecossistema de uma árvore. O projeto capta água da chuva, gera energia solar, incorpora vegetação e reduz o estresse térmico.
Também em Roterdã, o Flow Town, da MVSA, é outro empreendimento construído com madeira maciça, com 3 mil moradias. O projeto combina diferentes tipologias residenciais para atender a diversas faixas de preço e reunir moradores de diferentes perfis em um ambiente inspirado na organização de uma vila.
“Boa parte da inovação habitacional na cidade é impulsionada pela redução das emissões de CO₂”, afirmou Emiel Arends, consultor sênior de assuntos urbanos da Prefeitura de Roterdã. “Esses projetos são torres de uma nova geração, com um núcleo de concreto para garantir estabilidade, enquanto todo o restante é feito de madeira e materiais de base biológica.”
A escolha criteriosa da madeira estabelece as bases para os diversos benefícios desses empreendimentos. Em outras partes do mundo, arquitetos recorrem a materiais diferentes para responder aos desafios climáticos específicos de cada local.
A escolha dos materiais faz diferença nas moradias

Em Los Angeles e em outras partes do mundo, arquitetos e incorporadores estão tentando tornar os empreendimentos mais inteligentes por meio de materiais novos e diferentes, como a madeira maciça. Outros materiais também vêm sendo utilizados para responder às características específicas de cada clima e região.
“O mais importante é aproveitar ao máximo a luz natural e a ventilação para criar ambientes confortáveis”, afirmou Zoltan Pali, fundador e responsável pelo projeto arquitetônico do escritório SPF:a. “Existem dois componentes na escolha dos materiais: os exteriores e os interiores. Não tentamos fazer algo extraordinário apenas para impressionar. Nossa abordagem é bastante racional e busca garantir controle dimensional e melhor desempenho. Por isso, utilizamos bastante alumínio e painéis de cimento. Recorremos frequentemente a esses dois produtos por sua acessibilidade financeira, sustentabilidade e capacidade de reciclagem.”
Uma das características do alumínio é a possibilidade de reciclagem, o que contribui para um ciclo de vida mais sustentável. Sua durabilidade também está relacionada à anodização, tratamento que aumenta a resistência à corrosão. O processo de reciclagem do alumínio permite recuperar o material sem perda de qualidade e sem a necessidade de etapas adicionais para remover a camada anodizada.
“Passamos a gostar desse material por sua longevidade, durabilidade e qualidade estética. Também encontramos boas maneiras de combinar produtos industrializados, como metais com acabamento estriado e perfis extrudados, para criar fachadas”, acrescentou Pali. “Hoje, há muito mais empresas produzindo diferentes tipos de sistemas de fachada, fáceis de instalar e disponíveis em uma variedade de perfis e formatos, que permitem alcançar resultados estéticos distintos.”
O escritório SPF:a projetou uma residência personalizada revestida por uma segunda pele de réguas de bronze anodizado, que bloqueia o ganho de calor solar e funciona como uma camada protetora totalmente removível e reciclável. A empresa também concluiu uma casa revestida com réguas de alumínio anodizado fixadas com fita estrutural, em uma solução que combina simplicidade estética e durabilidade estrutural.
Esses materiais também oferecem vantagens estéticas. O alumínio pode criar efeitos visuais dinâmicos, mudando de aparência conforme o ângulo de observação e a incidência da luz ao longo do dia.
O escritório busca prolongar a vida útil de seus projetos, embora isso apresente desafios.
“Queremos que os edifícios durem muito tempo, mas o mercado determina o que impulsiona cada projeto, dependendo do tipo de construção”, afirmou Pali. “Tentamos convencer os incorporadores a investir mais nos empreendimentos. Mas a primeira medida que adotam é a chamada engenharia de valor, que busca reduzir custos, começando pela fachada. Ela não representa a maior parcela do orçamento, mas é o elemento sobre o qual conseguem atuar para cortar despesas. Estamos sempre enfrentando essa resistência.”
Embora os materiais sejam um dos componentes de um empreendimento residencial, outros aspectos do projeto também podem ajudar a reduzir custos.
Além das moradias: outros elementos do projeto
Uma das razões pelas quais a habitação é cara é o custo das vagas de estacionamento. Para o escritório SPF:a, em Los Angeles, esse tem sido um dos principais obstáculos.
“Los Angeles é tão dependente do carro que isso se torna um desafio”, afirmou Renzo Pali, diretor de operações do escritório. “Se o empreendimento estiver próximo ao transporte público, é possível eliminar completamente as vagas de estacionamento. Mas os incorporadores não querem seguir esse caminho porque acreditam que isso prejudicará a capacidade de alugar os imóveis.”
A Powerhouse também decidiu adotar uma abordagem radical em relação ao estacionamento em um de seus empreendimentos.
“Para 1.500 unidades, temos 50 vagas de estacionamento”, disse Stavert. “Estamos tentando tornar a cidade mais caminhável e incentivar o uso do transporte público, tornando inviável que as pessoas tenham carro. Estacionar é caro. Quem escolhe morar ali tende a não ter automóvel. Isso faz uma grande diferença para a criação de cidades saudáveis: precisamos restringir os carros tanto quanto possível, em benefício da qualidade do ar e das pessoas que caminham e pedalam.”
Para compensar a falta de vagas para carros, o empreendimento oferece 4 mil espaços para guardar bicicletas, além de uma oficina para reparos dentro do próprio complexo. Outro projeto da Powerhouse, em Haia, conta com 400 unidades habitacionais e não oferece vagas de estacionamento. Segundo Stavert, é a combinação de todos esses elementos que permite promover mudanças de comportamento.
Essas transformações culturais abrem caminho para novas formas de aproveitar tanto a comunidade quanto a moradia que faz parte dela.
As casas do futuro vão além da própria moradia
Construir as casas do futuro significa conectar as pessoas ao lugar onde vivem e oferecer a elas oportunidades de contribuir e colaborar.
“Há muita desconfiança em relação a arquitetos e incorporadores, pois as pessoas acreditam que eles querem maximizar os lucros”, afirmou Winkel. “A população perdeu a confiança e sente que está sozinha, abandonada. Precisamos restabelecer essa conexão. O SAWA recuperou a confiança da população no desenvolvimento imobiliário. É necessário reconstruir esse vínculo com as pessoas.”
Novas tecnologias e ferramentas estão abrindo caminho para integrar todos esses elementos e criar as moradias do futuro. A proposta é ouvir a população sobre suas necessidades e desejos e, a partir disso, incorporar às construções as expectativas dos proprietários, as demandas das comunidades e aspectos como sustentabilidade, resiliência, saúde e conforto.
Esse é o futuro da habitação. E ele vai muito além das casas individuais.
Matéria publicada originalmente em Forbes.com