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Rede Elétrica Deixa de Ser o Maior Problema para Quem Constrói Data Centers

Empresas de tecnologia buscam independência energética e preveem que 38% das instalações terão geração própria até 2030

6 min

À medida que empresas de inteligência artificial (IA) com infraestrutura de hiperescala e incorporadoras aceleram a construção de data centers, elas estão deixando de depender da rede elétrica e passando a construir, cada vez mais, sistemas privados de energia atrás do medidor (behind-the-meter, ou BTM, na sigla em inglês), que operam de forma independente das conexões com a rede pública.

Isso ocorre porque as filas de espera para conexão à rede se transformaram em um gargalo estrutural.

Desde 2017, o prazo entre a entrada na fila e o início da operação comercial aumentou aproximadamente 60%. Atualmente, esse período supera, em média, 2.100 dias para projetos que tinham como meta começar a receber energia em 2025.

Esse é um dos fatores que fazem da geração de energia no próprio local uma solução que deixou de ser apenas temporária e vem se consolidando como uma alternativa amplamente adotada.

A Bloom Energy estima que, até 2030, 38% das instalações de data centers utilizarão algum tipo de geração própria como fonte primária de energia.

O percentual representa um aumento de 13% em relação ao ano anterior. A mesma fonte prevê que, dentro de quatro anos, aproximadamente 27% dessas instalações serão abastecidas integralmente por energia gerada no próprio local.

No entanto, ao contornar as filas de espera de vários anos para garantir acesso à rede elétrica e resolver um problema, essas empresas se depararam com outras dificuldades que não haviam previsto.

Um exemplo é o fato de que as cadeias de suprimentos de equipamentos não acompanharam o ritmo de expansão dos data centers.

Os prazos de entrega de transformadores e turbinas a gás estão muito acima das estimativas iniciais, que variavam de 24 a 48 meses.

Na prática, a Wood Mackenzie, empresa de pesquisa, análise e consultoria sediada em Edimburgo, na Escócia, informou que os prazos de entrega de turbinas a gás atualmente chegam a seis anos.

Isso levou a consultoria a observar que o atraso “mudou fundamentalmente o mercado, que deixou de tomar decisões orientadas pela economia dos combustíveis e passou a priorizar estratégias de aquisição e a viabilidade dos produtos”.

Cronogramas diferentes

Há também outros problemas. A complexidade dessas instalações não tem precedentes, já que muitos projetos combinam diferentes tipos de tecnologia em uma única microrrede integrada.

Ao mesmo tempo, as empresas responsáveis pela operação e manutenção precisam estruturar e operar as instalações conforme os equipamentos chegam, seguindo cronogramas escalonados.

A disponibilidade inédita de equipamentos e a complexidade operacional resultante impuseram uma pressão inesperada sobre os responsáveis pela operação das usinas de energia.

“Os incorporadores não estão mais esperando pela rede elétrica; eles não podem se dar a esse luxo”, afirma Doug Machon, vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Kyuden Energy Partners, empresa de operação e manutenção de usinas de energia sediada em Aliso Viejo, na Califórnia.

“A fila de espera para conexão à rede é um gargalo significativo, mas não é o único. O problema se ampliou e passou a abranger a cadeia de suprimentos da infraestrutura energética, desde turbinas e transformadores até sistemas de controle e equipamentos auxiliares das usinas. Como resultado, somos cada vez mais solicitados a estruturar uma capacidade operacional antes mesmo de todos os ativos físicos previstos para a instalação definitiva terem sido entregues e a colocar em operação sistemas integrados compostos por diferentes tecnologias, cujos equipamentos chegam em cronogramas distintos. Trata-se de um trabalho fundamentalmente diferente da operação de uma usina convencional.”

A Kyuden Energy Partners, assim como empresas como Consolidated Asset Management Services (CAMS) e Ethos Energy, está entre os diversos fornecedores de serviços de operação e manutenção que ajudam os participantes do setor a superar esse desafio.

Desafios de execução

Embora cada projeto atendido por esses fornecedores tenha características próprias, determinadas complexidades se repetem. Entre elas estão a integração de diferentes tecnologias de geração em uma microrrede; o uso de fontes temporárias ou provisórias de energia até que a infraestrutura permanente esteja disponível; a contratação, integração e capacitação de grandes equipes técnicas e de manutenção para garantir operações presenciais ininterruptas; e a coordenação do comissionamento e da entrada em operação de diferentes fases do projeto, que ocorrem de forma escalonada.

Em comparação com projetos tradicionais de geração de energia em grande escala, a Kyuden constatou que cada um desses obstáculos representa um desafio de execução.

A CAMS, fornecedora de serviços de operação e manutenção (O&M) e gestão de ativos sediada em Houston, nos Estados Unidos, tem experiência em projetos que somam 70 gigawatts (GW) de capacidade de geração.

A empresa oferece um programa que combina processos simplificados de licenciamento e gestão comercial com serviços diários de operação e manutenção. Sua resposta à demanda energética decorrente das cargas de trabalho de IA e da computação em nuvem está inicialmente concentrada na geração a gás natural e em fontes renováveis.

Com experiência na gestão de mais de 100 instalações e de mais de 40 GW de capacidade de geração de energia em todo o mundo, a Ethos Energy desenvolveu seu Centro de Desempenho 24 horas por dia, sete dias por semana (24-7 Performance Center), para oferecer um modelo de operação remota voltado aos desafios dos sistemas BTM.

Com o uso de monitoramento assistido por inteligência artificial, uma única equipe monitora, opera e gerencia remotamente várias usinas ao mesmo tempo.

Ao comentar a necessidade de especialistas para auxiliar empresas de IA com infraestrutura de hiperescala, construtoras de data centers e operadores de usinas de energia, Machon conclui: “Os incorporadores que conseguem fazer isso da maneira certa são aqueles que decidem contratar um parceiro de operação e manutenção desde o início, e não depois que a primeira turbina chega”.

Matéria publicada originalmente em Forbes.com

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