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Por Que o Mercado de Casas Saudáveis Virou a Nova Febre da Construção Civil nos EUA

A união entre arquitetura, tecnologia e medicina transforma o ambiente doméstico para combater doenças respiratórias e garantir redução na conta de energia

25 min

Os consumidores estão começando a compreender melhor a própria saúde e a buscar maneiras acessíveis e convenientes de melhorá-la. Uma das formas de fazer isso é por meio do ambiente doméstico.

Diversos agentes participam desse movimento, desde profissionais responsáveis pelo projeto arquitetônico e pela seleção de materiais até empresas de tecnologia e operadores de sistemas residenciais. Parte do setor aborda o tema sob uma perspectiva científica, enquanto outros agentes priorizam os benefícios comerciais. Todos, porém, estão voltados a atender à crescente demanda dos proprietários por mais saúde e bem-estar dentro de casa.

“Enxergamos a casa como uma terceira pele”, afirma Erik Rosen, diretor executivo do Building Biology Institute. “Trata-se de um conjunto complexo de sistemas biológicos e mecânicos que precisam funcionar em equilíbrio. A qualidade do ar interno é um dos componentes. Já a qualidade do ambiente interno é um conceito mais amplo, que inclui ar, água, cores e iluminação. Muitos desses aspectos são contemplados quando se adota uma abordagem mais integrada na construção.”

Com o projeto arquitetônico como ponto de partida, pesquisas estão sendo realizadas em diferentes frentes, investidores acompanham o segmento e fabricantes de materiais e equipamentos para construção desenvolvem produtos que podem contribuir para uma vida mais saudável.

A biologia das casas saudáveis

Por onde começar? Segundo Stephen Collette, especialista em biologia das edificações e consultor, a construção de residências saudáveis depende, em grande medida, de tomar a natureza como referência.

“A biologia das edificações envolve compreender a física das construções”, explica. “Isso inclui entender como a umidade se movimenta pela envoltória do edifício. Construções de alto desempenho têm sistemas de paredes mais resistentes, mas, quando tornamos as casas mais herméticas, surgem riscos relacionados à liberação de substâncias químicas pelos materiais. Por isso, a química também desempenha um papel importante. Os materiais naturais oferecem maior resiliência e têm menor carbono incorporado, o que abre uma frente complementar de atuação.”

Diante dos diferentes fatores envolvidos, a ventilação mecânica é fundamental. A biologia das edificações também considera a exposição a campos eletromagnéticos, que vem aumentando em um ritmo superior à capacidade de adaptação do organismo humano.

“Somos seres bioquímicos e elétricos”, acrescenta Collette. “Há processos químicos acontecendo dentro de nós e também atividade elétrica no sistema nervoso. Não estamos habituados a níveis de exposição acima da média. Nosso organismo não teve tempo para se adaptar.”

Para ele, as respostas estão diante de nós, nos materiais naturais. Os seres humanos são atraídos por ambientes externos, onde podem experimentar esses materiais em seu contexto natural. Por isso, eles são fundamentais para projetos residenciais que buscam promover saúde e bem-estar.

“Somos naturalmente atraídos por materiais naturais. Suas cores e sua variedade cromática fazem bem à saúde”, afirma. “Não estamos acostumados a ambientes monocromáticos e bege, porque isso não é natural. Preferimos o calor radiante porque estamos habituados ao grande astro no céu, mas utilizamos sistemas de aquecimento por ar forçado. Existem ambientes que proporcionam uma sensação extraordinária de conforto e outros que não, tanto do ponto de vista psicológico quanto fisiológico. Isso não significa que os construtores queiram prejudicar as pessoas. A questão é que hoje temos novas ferramentas para testar aspectos que antes não conseguíamos avaliar.”

Collette utiliza esses testes para desenvolver cursos destinados a ajudar profissionais do setor habitacional a projetar casas que considerem os efeitos dos ambientes construídos sobre a saúde humana.

Além disso, esses projetos residenciais voltados à saúde também começam a ser avaliados sob a perspectiva financeira.

O retorno financeiro das moradias saudáveis

A qualidade do ar interno tem efeitos expressivos sobre os ocupantes de um imóvel. Um relatório recente da Asthma and Allergy Foundation of America estima que, entre 2019 e 2038, o custo da asma não controlada chegará a quase US$ 964 bilhões (aproximadamente R$ 4,92 trilhões).

Pessoas com asma recorrem aos serviços de emergência duas vezes mais do que indivíduos saudáveis. Elas também relatam que a doença limita atividades cotidianas e prejudica relacionamentos pessoais e a saúde emocional. Além disso, faltam mais dias ao trabalho e à escola e enfrentam dificuldades para realizar determinadas tarefas.

O médico John McKeon começou a carreira trabalhando em um pronto-socorro, onde observou muitas dessas visitas recorrentes. Depois de atender crianças com sintomas de asma repetidas vezes, decidiu investigar os efeitos do ambiente construído sobre essa condição crônica. Atualmente, ele é CEO da Allergy Standards, empresa que busca transformar esse conhecimento em soluções práticas e desenvolver uma abordagem mais preventiva para reduzir os impactos da doença.

Quem tenta resolver problemas de saúde recorrentes de maneira preventiva precisa lidar com termos técnicos sobre produtos e alegações sem fundamento científico. Um exemplo é a palavra hipoalergênico, que não possui uma base científica universalmente estabelecida para garantir que determinado produto não provoque alergias.

A Allergy Standards testa produtos de consumo com base em critérios de desempenho e adequação. Quando eles atendem a critérios científicos validados e publicados de forma independente, podem receber a certificação asthma & allergy friendly, voltada a produtos considerados adequados para pessoas com asma e alergias. Foi assim que McKeon estabeleceu uma conexão prática entre as características do ambiente construído e os resultados relacionados à saúde e ao bem-estar.

“Na faculdade de medicina, não aprendemos como manter as pessoas saudáveis, mas apenas como tratá-las quando ficam doentes. Só que as pessoas querem continuar saudáveis”, afirma. “Precisamos agir preventivamente para evitar a exposição e remover os alérgenos.”

Para isso, McKeon defende que profissionais da saúde e da construção civil trabalhem em conjunto para prevenir e tratar problemas de saúde. Nos Estados Unidos, os gastos com o tratamento e o reembolso de despesas médicas atingiram níveis extraordinários e não são sustentáveis no longo prazo. Parte dos recursos destinados atualmente ao tratamento de doenças poderia ser direcionada a investimentos na maneira como as casas são construídas. O projeto das residências precisa ganhar espaço nas discussões sobre como manter a sociedade saudável, afirma.

“Quando analisamos cada dólar investido, arquitetos e profissionais responsáveis pelo projeto dos ambientes estão diretamente envolvidos nessa equação”, diz.

Entretanto, os setores de saúde e construção civil raramente trabalham em conjunto, e nenhum deles consegue oferecer uma solução completa sem a participação do outro. O construtor não tem contato direto com o paciente, enquanto o médico não conhece as características da residência onde ele vive.

“Eles não conversam entre si, e ninguém vai resolver isso sozinho”, acrescenta McKeon. “É necessário adotar uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar.”

Uma maneira de aproximar esses dois setores, segundo o médico, é estabelecer um modelo de negócios. Um estudo de caso consistente, capaz de demonstrar o retorno sobre o investimento, pode conectar os dois grupos e criar incentivos para que instituições financeiras, governos estaduais e municípios promovam moradias mais saudáveis.

Décadas atrás, um hospital da Pensilvânia realizou intervenções dentro de residências durante três anos para medir os efeitos sobre seus moradores. O estudo demonstrou um retorno de 100 vezes o valor investido. A pesquisa envolveu pequenas adaptações nos imóveis, acompanhadas de uma análise das visitas aos serviços de emergência e de diários sobre saúde e bem-estar dos participantes.

“Em vez de ir ao pronto-socorro, faltar à escola, tomar corticoides, ganhar peso por causa dos medicamentos, deixar de praticar esportes e adoecer, essas pessoas passam a viver em uma realidade completamente diferente”, afirma McKeon. “Quando acompanhamos a trajetória de uma criança durante cinco anos, a diferença nos custos para a sociedade é enorme.”

Ainda não está claro, porém, quem teria interesse e incentivo para pagar por essas intervenções. Isso ocorre porque os gastos com saúde são classificados como despesas operacionais (OPEX), enquanto as obras e melhorias residenciais entram como despesas de capital (CAPEX). Na prática, os recursos podem estar vinculados a horizontes distintos: uma apólice de seguro com projeções atuariais de cinco anos, por exemplo, e um orçamento anual para construção de moradias. O dinheiro destinado a uma finalidade não pode ser simplesmente transferido para a outra.

“Se conseguirmos resolver esse problema e convencer quem paga pelos tratamentos, os responsáveis pelos reembolsos, as seguradoras, os financiadores de hipotecas e a sociedade em geral de que vale a pena pagar por essas intervenções, todos sairemos ganhando no longo prazo”, acrescenta. “Essa é a peça que falta e que ninguém conseguiu solucionar.”

Os contribuintes sempre questionam como o dinheiro dos impostos é utilizado, e muitos não querem pagar por melhorias na casa de outra pessoa. Entretanto, se os recursos públicos não forem empregados preventivamente, poderão ser necessários depois para cobrir despesas médicas, à medida que mais pessoas sofram de doenças relacionadas ao ambiente doméstico.

Independentemente da metodologia de avaliação, o projeto arquitetônico e a escolha dos materiais podem exercer influência significativa tanto sobre a saúde dos moradores quanto sobre o equilíbrio financeiro do sistema.

Parte da solução consiste em incorporar os benefícios à saúde proporcionados pelo projeto residencial ao processo de avaliação imobiliária.

“Todo o ecossistema carece de conhecimento, e precisamos nos comunicar”, afirma Sandy Adomatis, da Adomatis Appraisal Service. “Menos de 3% dos 30 mil avaliadores imobiliários receberam algum tipo de formação sobre construções sustentáveis ou eficiência energética.”

Adomatis orienta avaliadores a identificar imóveis que apresentem essas características e corretores a incluí-las nos anúncios publicados no MLS, sistema de listagem de imóveis utilizado pelo mercado americano. Dessa forma, os atributos podem ser considerados na avaliação do valor das propriedades.

Outra possibilidade é oferecer uma lista de verificação para auditorias de saúde residencial, com a participação de enfermeiros do trabalho ou terapeutas ocupacionais que visitem os imóveis e avaliem aspectos como a qualidade do ar interno.

“Os dados são irrefutáveis”, afirma McKeon. “Se conseguirmos levar mais profissionais às residências, as pessoas faltarão menos à escola, deixarão de ir ao pronto-socorro e precisarão de menos medicamentos? Promover a saúde das pessoas por meio de intervenções em suas casas precisa ser o caminho para o futuro. O sistema atual não é sustentável.”

Para que isso aconteça, também serão necessárias mudanças nas políticas públicas.

O papel das políticas públicas nas moradias saudáveis

Sem um modelo de negócios que demonstre a viabilidade financeira das intervenções, é difícil avançar na formulação de políticas públicas. Jonathan Wilson é diretor adjunto do National Center for Healthy Housing, organização que trabalha com comunidades e entidades ambientais para desenvolver e defender políticas públicas locais e federais que contribuam para melhorar as condições de moradia.

O centro também trabalha com agências de serviços habitacionais, oferecendo apoio e orientação a essas instituições e aos hospitais.

Wilson afirma que, atualmente, o Medicare, programa público americano de assistência médica, ainda não adota essa abordagem, mas está aberto a apoiá-la. O programa reconhece que existem problemas dentro das residências que podem ser monitorados e corrigidos para evitar futuras complicações de saúde. Também compreende o potencial de redução dos custos hospitalares, o que representa um avanço.

Algumas intervenções nem sequer precisam estar diretamente relacionadas à saúde. Melhorias no desempenho das residências também podem produzir efeitos positivos sobre o bem-estar dos moradores.

O que são os benefícios não energéticos?

Quando uma residência é bem projetada, seu desempenho melhora e o consumo de energia diminui. Um projeto mais eficiente também proporciona benefícios que vão além da economia energética, como maior conforto, melhor isolamento acústico, mais resistência a eventos climáticos e melhor qualidade do ar interno.

O programa Efficient New Homes (DENH), do Departamento de Energia dos Estados Unidos, exige que as construções superem os padrões mínimos estabelecidos pelos códigos de obras em diversos aspectos. Entre eles estão janelas, materiais das paredes, sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado (HVAC), eletrodomésticos, aquecimento de água, resistência térmica dos materiais (valores R), coeficientes de transmissão térmica (valores U), infiltração de ar, vazamentos nos dutos, qualidade da instalação, eficiência dos sistemas e tecnologias inteligentes.

Essas residências têm apresentado desempenho superior em áreas como segurança, controle de ruído, resiliência, conforto e qualidade do ar interno.

Chrissi Antonopoulos, cientista sênior de edificações do Pacific Northwest National Laboratory, relatou que pesquisas com consumidores mostram que conforto e segurança são os principais fatores que motivam melhorias nas residências.

Os proprietários percebem que as intervenções para aumentar a eficiência energética também produzem efeitos positivos em outros aspectos da vida doméstica. Um participante do programa Efficient New Homes, do Departamento de Energia, relatou: “A melhora na qualidade do ar ficou imediatamente evidente pela redução expressiva dos sintomas de asma do meu filho… A quantidade de poeira diminuiu muito… e os cheiros de comida deixaram de permanecer no ambiente.”

Outro estudo simulou uma interrupção de energia de uma semana durante períodos de calor extremo e frio intenso em uma dessas residências eficientes. Os pesquisadores calcularam por quanto tempo os imóveis conseguiriam manter condições térmicas seguras para os ocupantes. Uma casa construída de acordo com o código de obras de 2009 ofereceu 29 horas de segurança térmica, enquanto uma residência do programa DENH chegou a 72 horas.

Uma terceira pesquisa avaliou os níveis de ruído interno e o conforto térmico de uma casa em Chicago antes e depois da substituição das janelas. Com os novos modelos, a infiltração de ar diminuiu 36%. As janelas também mantiveram as superfícies internas mais aquecidas e com temperaturas mais estáveis. Além disso, os moradores relataram melhorias significativas na qualidade do ar, no controle da temperatura, no isolamento acústico e na segurança.

Embora esses estudos sejam relevantes, ainda é necessário ampliar a produção de evidências para que as soluções sejam adotadas em larga escala.

A busca por um modelo de negócios

Para quantificar os efeitos das condições de uma residência sobre a saúde de seus moradores, pesquisadores utilizam os DALYs, sigla em inglês para anos de vida ajustados por incapacidade, como uma medida dos impactos sobre a saúde.

O indicador considera tanto a redução da expectativa de vida quanto a perda de qualidade de vida provocada por problemas de saúde. Seu cálculo corresponde à soma dos anos de vida perdidos por morte prematura (YLL) e dos anos vividos com incapacidade (YLD).

Ao analisar os DALYs associados aos riscos presentes nas residências, Núria Casquero-Modrego, pesquisadora do Lawrence Berkeley National Laboratory, busca identificar maneiras de melhorar os ambientes domésticos e priorizar intervenções com maior potencial de benefício para a saúde.

A métrica permite comparar os efeitos da poluição do ar interno com os de outros fatores de risco. Segundo Casquero-Modrego, os danos à saúde relacionados ao ar dentro das residências equivalem a aproximadamente 2.200 DALYs por ano para cada 100 mil pessoas. Para efeito de comparação, o tabagismo responde por 2.600, o alcoolismo por 1.200 e os acidentes de transporte por 1.000.

Para reduzir os DALYs, Casquero-Modrego estuda intervenções no projeto das residências que possam diminuir a exposição ao ruído e aos alérgenos, elevar as temperaturas internas durante o inverno, reduzir a entrada de contaminantes externos e aliviar o estresse financeiro.

Em última análise, a pesquisa busca melhorar a saúde física e mental, reduzir a utilização dos serviços de saúde e diminuir a mortalidade durante o inverno.

Novos produtos começam a explorar esse potencial de mercado.

Como respirar um ar interno mais saudável

A Lution, empresa especializada no monitoramento da qualidade do ar, afirma que o ar dentro de uma residência pode ser até cinco vezes mais poluído do que o ar externo e que a baixa qualidade do ar está associada a problemas relacionados ao sono.

A empresa vislumbra um cenário em que a qualidade do ar seja reconhecida como um dos pilares da saúde geral e possa ser monitorada de forma transparente, como ocorre com as informações nutricionais dos alimentos.

“Uma pessoa consome cerca de sete libras de alimentos e água e inala 35 libras de ar”, afirma Michael Marino, cofundador da Lution. “Os pulmões funcionam como um filtro, e o sistema digestivo também possui mecanismos de filtragem. Mas não evoluímos para lidar com a poluição industrial. Nosso organismo precisa se defender de tudo o que respiramos.”

Quando essas substâncias nocivas não são filtradas adequadamente, podem provocar inflamações e, consequentemente, prejudicar a saúde cognitiva e contribuir para o ganho de peso.

Como McKeon observou, não existe uma conexão direta entre a comunidade médica e o setor de construção residencial. Por isso, os médicos nem sempre sabem a quais substâncias os pacientes estão expostos em casa e têm dificuldade para relacionar essas exposições às doenças.

A solução da Lution é integrar uma série de testes laboratoriais a dados coletados por sensores instalados nas residências. Cada monitor de ar funciona como uma espécie de balança, ajudando a dimensionar os riscos presentes no ambiente.

David Vivero, que enfrentou uma longa batalha contra problemas de saúde relacionados ao mofo, também tem experiência como construtor residencial e empreendedor de tecnologia. Com sua trajetória no desenvolvimento de softwares, identificou uma oportunidade de criar aplicações para consumidores capazes de utilizar dados para orientar decisões.

Para chegar a um modelo semelhante ao de um rótulo nutricional, a empresa investiga os diferentes componentes do ar e seus efeitos sobre o organismo, incluindo umidade, metais pesados e produtos químicos de limpeza. O processo envolve a análise de milhares de partículas.

Em seguida, cada partícula recebe um peso de acordo com seu nível de toxicidade para o corpo humano, medido pelo impacto inflamatório.

O proprietário pode receber um kit da Lution para aspirar partículas acumuladas nos filtros de ar e enviá-las a um laboratório para análise. Também recebe sensores que medem a pressão atmosférica para ajudar a identificar as condições da envoltória da construção, além de monitorar a poluição proveniente de fontes internas ou externas. Entre os contaminantes avaliados estão compostos orgânicos voláteis (VOCs), subprodutos da combustão e dióxido de carbono.

A Lution pretende utilizar os dados coletados para desenvolver um padrão de referência e programas adequados de remediação, isto é, de identificação e correção dos problemas encontrados. À medida que a base de informações crescer, será possível compreender melhor as relações entre saúde, conforto e ambiente construído.

Uma parte importante dessa conexão depende simplesmente da construção de residências com melhor desempenho.

Saúde, conforto térmico e contas de energia menores

A temperatura do ar exerce grande influência sobre o conforto dentro de casa. A Vivint lançou o Comfort IQ para proporcionar ambientes mais confortáveis e reduzir as contas de energia, contribuindo também para a tranquilidade financeira dos moradores.

“O sistema utiliza um padrão inicial de atividade dentro da residência e fica mais inteligente com o tempo”, afirma Jim Nye, diretor de produtos da Vivint. “À medida que os custos de energia continuam subindo, o sistema HVAC é o principal consumidor de eletricidade da casa, respondendo por metade do consumo energético. O Comfort IQ foi projetado para aprender as preferências de cada cliente e economizar automaticamente nas contas de energia ao longo de todo o ano.”

A empresa analisou 50 mil residências equipadas com o Comfort IQ e constatou uma economia média entre US$ 210 e US$ 300 (aproximadamente R$ 1.071 a R$ 1.530), considerando cinco zonas climáticas. O resultado representa uma economia três vezes maior do que a obtida com um termostato típico certificado pela Energy Star.

O sistema reduz em média 13% o tempo de funcionamento dos equipamentos HVAC, mantendo o conforto dos moradores.

“Os clientes não separam a casa inteligente da questão energética”, afirma Nye. “Nossa pesquisa indica que eles querem um sistema que gerencie o consumo de energia e também ofereça tranquilidade em outras áreas. O equipamento leva duas semanas para aprender com os sensores, ajustar o funcionamento de acordo com os padrões de uso da residência e começar a gerar economia.”

Uma pesquisa recente da Vivint mostrou que 77% dos proprietários têm interesse em uma solução residencial inteligente que ofereça gestão integrada e eficiência energética, características que também podem trazer benefícios indiretos para a saúde.

“Os consumidores entendem a casa como um sistema integrado, e não como centenas de componentes isolados”, afirma Jason Thorson, diretor de contas nacionais da Daikin, fabricante de equipamentos de ar-condicionado. “A proposta é transformar toda essa experiência em harmonia, bem-estar e valor percebido, proporcionando benefícios físicos e mentais.”

As opções disponíveis para os proprietários não se limitam a essas soluções.

Saúde e conforto residencial em diferentes frentes

Martha Stewart e sua marca são referências no universo doméstico e no conceito de conforto. Recentemente, ela se associou a empreendedores de tecnologia para lançar a Hint, uma plataforma de inteligência residencial.

“A plataforma será como um projeto orientador para ajudar a organizar, administrar e viver dentro de casa”, afirma Stewart. “Queremos transformá-la em um lugar onde nossas famílias possam aproveitar o tempo juntas. Além disso, ela aumentará o valor do imóvel.”

Por meio do aplicativo da Hint, os proprietários têm acesso a informações sobre a qualidade do ar e os níveis de poluição a cada hora, além de previsões de temperatura e umidade.

“Você pode simplesmente perguntar: hoje é um bom dia para ventilar minha casa deixando as janelas abertas?”, afirma Kyle Rush, cofundador e diretor de tecnologia da Hint.

Uma resposta seria: sim, o dia parece favorável para uma ventilação breve. A qualidade do ar externo é boa, com índice AQI de 19, o clima está seco e ameno, com temperatura em torno de 69 °F (aproximadamente 20,6 °C), e não há alertas meteorológicos ativos. A recomendação seria abrir algumas janelas por pouco tempo para criar uma corrente de ar e fechá-las antes que a temperatura caia à noite. A mínima prevista é de 52 °F (aproximadamente 11,1 °C), e as rajadas de vento chegam a 24 milhas por hora (cerca de 38,6 km/h).

Embora essas informações contribuam para a saúde dos moradores, a Hint também ajuda a identificar outras ameaças, como o radônio, considerado a segunda principal causa de câncer de pulmão nos Estados Unidos.

O aplicativo sinaliza o risco relacionado ao radônio assim que a residência é cadastrada e orienta o usuário sobre como realizar testes, além de fornecer informações sobre a importância de monitorar a substância ao longo do tempo.

A plataforma utiliza 1.300 pontos de dados para aprender sobre a residência e fornecer orientações e lembretes. O sistema pode avisar o proprietário quando é necessário trocar filtros, verificar detectores de monóxido de carbono e fumaça e, se preciso, encontrar profissionais locais para executar esses serviços.

Soluções tradicionais também estão sendo substituídas por alternativas que prometem ser mais saudáveis e eficientes.

Modernização de sistemas HVAC tradicionais para melhorar o conforto residencial

A Panasonic busca solucionar parte dos problemas relacionados à saúde e ao conforto nos ambientes internos com seu produto OASYS.

A empresa fabricava e instalava sistemas HVAC tradicionais, com unidades de tratamento de ar e dutos. Para desenvolver uma alternativa inovadora e mais fácil de manter, decidiu deixar esse modelo de lado e adotar uma solução que rompe com práticas convencionais do setor.

“Utilizamos um sistema do tipo mini-split para resfriar uma unidade central, por assim dizer, e empregamos um equipamento de dois tons de refrigeração para manter a casa”, explica Bill Meyers, gerente de vendas técnicas da Panasonic Eco Systems North America. “Resfriamos essa unidade com o sistema mini-split e distribuímos o ar para cada cômodo por meio de ventiladores. Se houver uma falha, a vantagem do OASYS é que talvez um cômodo fique sem refrigeração, mas os demais continuarão funcionando. É possível encontrar um ventilador de reposição em qualquer lugar, sem dificuldade nem necessidade de encomendar uma peça especial. Já em um sistema tradicional, uma falha pode comprometer o funcionamento de toda a casa.”

O sistema é apresentado como uma alternativa aos equipamentos HVAC convencionais, com o objetivo de proporcionar maior uniformidade das condições ambientais em toda a residência e elevar o nível de conforto dos ocupantes.

A tecnologia está sendo testada em uma casa em Houston, onde sensores coletaram dados sobre a qualidade do ar interno e a umidade durante um ano.

Os dados obtidos na residência experimental em Houston mostraram que o OASYS manteve a umidade relativa em todos os cômodos entre 53% e 55%, mesmo quando a umidade externa chegou a 89%.

No primeiro andar, as temperaturas permaneceram entre 70,2 °F e 71,1 °F (aproximadamente 21,2 °C a 21,7 °C) durante toda a semana. No segundo andar, ficaram entre 70,4 °F e 71,4 °F (cerca de 21,3 °C a 21,9 °C). A diferença entre os dois pavimentos nunca ultrapassou aproximadamente meio grau Fahrenheit, equivalente a cerca de 0,3 °C.

A qualidade do ar interno costuma depender do nível de umidade. Meyers explica que as atividades humanas contribuem para elevar a umidade dentro de casa, seja ao cozinhar, tomar banho ou simplesmente ocupar os ambientes. Por isso, há uma necessidade constante de controlar a umidade.

“O OASYS é um sistema completo, com coifa de cozinha, exaustores para banheiros e ventiladores, projetado para preservar a integridade da construção”, afirma. “A presença de um sistema de ventilação com recuperação de energia (ERV) ajuda a conservar a edificação e proteger a saúde e a segurança dos ocupantes. Ele protege tanto o investimento quanto as pessoas que vivem ali.”

Essas inovações podem definir o futuro das casas saudáveis. Mas o que mais está por vir e até que ponto podemos planejar esse futuro?

O futuro das casas saudáveis

Embora a maioria dos construtores residenciais não considere todo o ciclo de vida de seus imóveis, Jen Jobart, educadora e consultora em ciência das edificações da Practical Health Homes e integrante do conselho do Building Biology Institute, adota uma perspectiva de longo prazo. Ela investiga como manter as residências saudáveis daqui a 100 ou 200 anos e como a sociedade enxergará a própria espécie humana nesse período.

“O que podemos fazer agora para reconhecer os riscos que já conhecemos?”, questiona. “Não conseguimos prever tão longe, mas construímos sistemas que esperamos que durem. Muitos problemas de mofo em casas existentes ocorrem porque elas são projetadas para durar apenas o tempo de um financiamento imobiliário. Isso acaba adoecendo os moradores. Uma das melhores medidas que podemos adotar é construir casas com vida útil mais longa e que possam ser mantidas adequadamente.”

A maioria dos especialistas concorda que a natureza oferece soluções e recomenda observar os ambientes naturais, tanto no presente quanto no futuro.

“A biologia das edificações analisa como o ambiente construído afeta tanto a saúde do planeta quanto a saúde humana”, afirma Collette. “Se algo é saudável para nós, também é saudável para o planeta. Se utilizamos materiais naturais, isso tende a ser melhor para o meio ambiente. Precisamos reduzir a pegada ambiental das construções. Se esses espaços forem mais saudáveis para as pessoas, é nessa direção que devemos avançar. Precisamos começar a considerar a saúde planetária e a saúde humana simultaneamente, porque elas estão absolutamente conectadas.”

Quanto mais essas relações forem compreendidas, maiores serão as possibilidades de melhorar a saúde e o conforto dentro de casa. Aproximar os setores de saúde e construção civil, assim como integrar a natureza ao ambiente construído, representa um caminho para o futuro e pode criar um modelo de negócios capaz de justificar os investimentos em moradias mais saudáveis.

Matéria publicada originalmente em Forbes.com

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