Para além da compressão dos indicadores de vacância, a volta ao presencial no pós-pandemia fez as predileções nos escritórios mudarem. Especialistas do ramo apontam que um alto volume de postos de trabalho individuais e mais tradicionais tem saído de cena e dado lugar a espaços com mais mesas colaborativas, salas, puffs e outros tipos de mobiliário. Na prática, é como se fosse o fim do layout rígido, de grandes bancadas de estações de trabalho.
Hilton Rejman, Presidente da BGRE no Brasil — antiga Brookfield Properties — avalia que o escritório enquanto produto imobiliário já vinha mudando e a pandemia acelerou drasticamente essa transição.
“O escritório antigamente era mesa e cadeira, mas a nova geração que está vindo quer muito mais do que isso. Tem que ter diversidade de espaços, escritórios com sofá, poltrona, outback”, comenta, em painel realizado no JLL Real Estate 360º, que ocorre em São Paulo, nesta quinta-feira (1º).
“Os escritórios vão ser complexos. Você vai ter escritórios, restaurantes, lojas, auditórios. Essa diversidade de espaços é hoje muito importante para atrair e reter talentos. Isso será item obrigatório dos edifícios”, completa.
A visão é de que o setor tem adotado hospitalidade como lema, priorizando fazer com que os funcionários se sintam em casa.
Esse movimento está correlacionado tanto com o período de home office massivo durante a pandemia quanto com o nível de flexibilidade adotado nos últimos anos.
“Não é só um móvel diferente. É a luz natural, a temperatura, o nível de ruído, que hoje é um grande problema. O híbrido não vai desaparecer: veio para ficar. E cores e plantas também influenciam a sensação de bem-estar de quem passa seis, oito horas naquele espaço”, defende Alessandra Arnone, Head de Projetos e Obras da JLL.
Qualidade e bem-estar impulsionam a ocupação de escritórios premium
O Hassell, escritório de arquitetura fundado na Austrália em 1938, mostra que escritórios premium levaram metade da equipe a escolher o presencial, contra apenas 22% nos espaços de qualidade inferior, segundo uma pesquisa feita em 2025.
O Gensler, da mesma forma, divulgou uma pesquisa neste ano que aponta que quase metade dos trabalhadores sinaliza comodidades de bem-estar físico e mental como o recurso mais desejado em escritórios.
Além disso, 40% citaram espaços dedicados a reflexão e trabalho silencioso e 43% disseram que o escritório deveria ter áreas externas ou vista para a natureza.
Esse panorama tem feito a vacância reduzir substancialmente em edifícios AAA em São Paulo.
Um relatório da JLL revela que a taxa de vacância dos escritórios de alto padrão em São Paulo fechou o segundo trimestre de 2026 em 13,1%. Foi o menor patamar registrado em 17 anos.
O percentual é uma média da cidade, que é relativamente heterogênea. A vacância fica na casa de um dígito percentual em regiões como Faria Lima (9%), Juscelino Kubitschek (5%), Moema (3%) e Paulista (3%).
Localização e mobilidade urbana tornam-se divisores de água
Em simultâneo, a máxima de location, location, location do setor se manifesta com a priorização, por parte dos locadores, de lajes corporativas próximas de hubs de transporte público, estações de metrô e outros modais.
“O primeiro requisito das empresas que atendemos, quando buscam um novo escritório, é transporte público. A rede de transporte é um diferencial porque permite ao funcionário ter uma experiência melhor. Isso ajuda menos a impor uma regra de presença e mais a promover engajamento. No final do dia, é isso que as empresas buscam”, pontua Alessandra Osiro, Head da Divisão de Escritórios da JLL.
Em adição, cada vez mais funcionários possuem bicicletas e bicicletas elétricas, o que tem feito os prédios preferirem bicicletários maiores e com mais espaço em detrimento de centenas de vagas de garagem.
“No passado, com 100 funcionários, a empresa tinha 100 vagas de estacionamento. Hoje há contratos sem vagas, mas que atendem 300 funcionários. Isso nos leva a rever o modelo de negócio como sempre foi. O cliente é o centro de tudo, e toda a cadeia vai se adequar para atendê-lo”, diz Osiro.