Em duas décadas no mercado financeiro, Ana Cabral chegou à alta liderança de bancos como Goldman Sachs, Credit Suisse e Merrill Lynch. “Sabia que não seria CEO. Quando se chega ao teto de vidro, é preciso coragem para mudar de direção”, diz a executiva, que está na lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil de 2025.
Após rodar quatro continentes em menos de 10 anos com seu primeiro filho — quadriplégico e com paralisia cerebral —, ela ouviu sua intuição. Recusou uma proposta em Hong Kong e se estabeleceu no Brasil, onde fundou uma gestora de private equity em 2013. “Foi uma decisão arriscada.”
Mas que se provou acertada. Três anos depois, a carioca assumiu como CEO e presidente do conselho da Sigma Lithium, uma das cinco maiores produtoras de lítio do mundo. Sua boutique de capital de risco, a A10 Investimentos, tornou-se a principal acionista da companhia, que produz lítio para baterias de veículos elétricos.
A decisão de investir na Sigma veio logo após a tragédia de Mariana. “Me chamaram de louca por querer instalar a indústria de lítio mais moderna do mundo no Vale do Jequitinhonha.” No nordeste de Minas Gerais, a companhia produz o lítio verde “quíntuplo zero” – carbono neutro, com energia limpa, reúso de água, sem barragens de rejeitos ou químicos nocivos.
Sob a gestão da CEO, a empresa, negociada na Bolsa de Toronto desde 2018, foi listada na Nasdaq em 2021. O impacto vai além da produção. A Sigma já investiu R$ 3,8 bilhões na região, liderando projetos de construção de escolas, microcrédito para 2 mil mulheres empreendedoras e doação de caixas d’água e cestas básicas para mais de 36 mil pessoas. “Me chamaram de ‘CEO hippie’ e diziam que a Sigma era uma ONG – até 2023, quando os volumes começaram a crescer.” A empresa produziu cerca de 75 mil toneladas do concentrado de lítio.
A Sigma Lithium produziu cerca de 75 mil toneladas de concentrado de lítio no quarto trimestre de 2024, totalizando 240 mil toneladas no ano. Para 2025, a expectativa é ultrapassar a meta de 270 mil toneladas. “Estamos construindo uma segunda linha industrial que vai dobrar o tamanho da empresa.” São mais de 1.500 empregos diretos e quase 20 mil indiretos, com 85% da mão de obra local.
Ana, de 52 anos, começou como estagiária no Banco Garantia nos anos 1990, enquanto estudava ciência da computação e economia. De São Paulo a Nova York, Londres e Joanesburgo, liderou mais de 150 operações financeiras, movimentando mais de US$ 120 bilhões. “Sempre levantei a mão para os projetos mais complexos”, diz ela, que impressionou os chineses por acompanhar seu ritmo de trabalho. “No início, parecia impossível equilibrar família e sucesso profissional.”
Com o tempo, aprendeu a priorizar e a gerir melhor sua agenda — o que nem sempre é fácil. Hoje, quando está fora do trabalho, dedica-se inteiramente aos três filhos. “Transmitir valores não é algo que posso delegar. Nada disso fará sentido daqui a 30 anos se meus filhos não forem bons cidadãos.”