Com mais de duas décadas de carreira em multinacionais, Daniela Cachich, então executiva C-Level em uma gigante do setor alimentício, havia se preparado para os desafios de ser a única mulher – ou uma das poucas – na alta liderança. Mas não esperava estar em uma reunião com o comitê executivo e sentir as palavras fugirem da sua boca. “Historicamente, as mulheres demoram mais para chegar a cargos de liderança. E aí, quando você pensa ‘cheguei’, vem a menopausa”, diz a executiva de 51 anos.
As névoas mentais, ou brain fogs, foram apenas o início dos sintomas da perimenopausa – fase que antecede a menopausa – que Daniela enfrentou aos 45 anos. Ondas de calor, queda de energia, insônia e dificuldades de concentração faziam parte do pacote. “Gabaritei os sintomas”, conta ela, hoje presidente da divisão Beyond Co na Ambev, à frente de marcas como Guaraná Antarctica, Gatorade e Beats.
O climatério – transição da fase reprodutiva para a não reprodutiva – costuma começar por volta dos 40 anos e pode se estender até os 65. Coincide com o auge da vida profissional de muitas mulheres, que enfrentam dezenas de sintomas – de cansaço a depressão –, muitas vezes sem compreender sua origem. A menopausa marca o fim da menstruação, mas seus efeitos vão além do sistema reprodutivo. Como aponta a neurocientista Lisa Mosconi no livro “O Cérebro e a Menopausa“, ela “afeta o cérebro tanto quanto os ovários”. Muitos dos sintomas – lapsos de memória, ansiedade, depressão – têm origem neurológica.
No Brasil, cerca de 30 milhões de mulheres vivem essa fase. Entre as que estão no mercado de trabalho, 74% enfrentam ou já enfrentaram desafios físicos e emocionais em silêncio, com medo de discriminação ou demissão, segundo levantamento do Talenses Group. “Diferentemente da maternidade, a menopausa é solitária. E, como é silenciosa, se não dermos voz, o ambiente não entende”, afirma Daniela.
Pauta econômica e invisível
Com o envelhecimento da população e a permanência prolongada de profissionais no mercado, a menopausa começa a entrar na agenda de grandes empresas. Mais do que um tabu corporativo marcado pelo etarismo, trata-se de uma questão econômica e estratégica. A consultoria Frost & Sullivan estima perdas globais de produtividade superiores a US$ 150 bilhões por ano devido à falta de informação e apoio às mulheres nessa fase. Até 2030, 1,2 bilhão de mulheres estarão na menopausa ou pós-menopausa, com 47 milhões entrando anualmente nesse período.
Os impactos vão além do físico — são também sociais, emocionais e financeiros. Um estudo da Universidade de Stanford mostrou que mulheres que buscaram atendimento médico para sintomas relacionados à menopausa estavam ganhando, em média, 10% menos quatro anos depois. Muitas reduziram a jornada ou deixaram o trabalho. “Você começa a se questionar: será que ainda sou competente? Ou será que envelhecer é perder a capacidade de argumentar, focar e produzir?”, lembra Daniela.
Essas dúvidas começaram a se dissipar em 2021, quando ela foi convidada a assumir uma divisão estratégica na Ambev. Até então, evitava a reposição hormonal por receio de desenvolver câncer de mama. O risco existe, mas é pequeno, segundo especialistas: menos de um caso por mil mulheres ao ano. O novo desafio profissional foi o incentivo que faltava. “Faço a reposição até hoje. Mudou a minha vida.” Na Ambev, o tratamento é reembolsado conforme critérios de renda.
Algumas corporações oferecem benefícios específicos para mulheres na menopausa, como licenças, trabalho flexível, programas educativos e acesso a especialistas. A Diageo, dona de marcas como Smirnoff e Ypióca, por exemplo, lançou um guia informativo voltado às funcionárias. “Os sintomas são diferentes para cada uma. É preciso ouvir as mulheres para entender suas necessidades”, afirma Andrea Tenuta, head da Maturi, empresa voltada ao mercado 50+.
A maioria dos profissionais de RH ouvidos pela Talenses afirma que a menopausa ainda não está na agenda para 2025. No entanto, temas como saúde, bem-estar e liderança feminina já são tratados como prioridade. “Milhões de mulheres em cargos estratégicos estão na menopausa, e ignorar isso pode significar perda de talentos e menor engajamento”, diz Isis Borge, diretora-executiva da Talenses.
Caminhos até o diagnóstico
Aos 38 anos, a advogada Ana Paula Santos notou mudanças de humor, inicialmente atribuídas ao hipotireoidismo. Após os 40, a menstruação tornou-se irregular, e surgiram fogachos e insônia. “No meio de uma negociação importante, subiu um calor absurdo”, conta ela, cofundadora da Tekoá Seguros, após 20 anos de carreira em empresas como Care Plus e McDonald’s. Mesmo cercada de bons profissionais, ouviu opiniões divergentes. “Enquanto isso, parecia que meu corpo estava em colapso.” Aos 42 anos, exames confirmaram a menopausa. “Foi um luto. Eu me via morrendo como mulher.”

Falta informação e apoio em uma fase que pode representar mais de um terço da vida da mulher – no Brasil, a expectativa de vida gira em torno dos 80 anos. “Temos muitos médicos, mas pouco foco na saúde da mulher”, observa Fabiane Berta, ginecologista formada pela Santa Casa e pesquisadora em climatério e menopausa.
Prova disso é a experiência de Carla Diniz, diretora da transportadora de gás natural NTS. Aos 46 anos, certa de que estava no climatério, procurou ajuda médica. “Recebi um remédio para ansiedade e fui encaminhada ao psiquiatra.” Mesmo sendo a única mulher na diretoria da empresa, decidiu levar o tema para o trabalho. “Como RH, senti que era minha responsabilidade abrir essa conversa.”

Estudos mostram que mulheres negras tendem a vivenciar sintomas mais intensos e precoces. “Há fatores fisiológicos, mas também sociais”, explica a médica Simone Nascimento, especialista em saúde mental corporativa pelo Hospital Israelita Albert Einstein. “O estresse crônico antecipa sintomas – e o racismo é um estressor constante.” Mesmo com duas décadas de carreira na medicina, Simone demorou a reconhecer os próprios sinais. “A pressão por produtividade pesa sobre todas, especialmente sobre mulheres negras, que se veem obrigadas a provar seu valor o tempo todo.”

Apesar dos desafios, a menopausa pode ser um ponto de virada e reinvenção. Para Cristina Amorim, CHRO da Adeste, a chegada ao climatério coincidiu com a decisão de trocar a área financeira pelo RH. “Além do cansaço e tristeza, eu já não me via mais naquele lugar.” Já na nova empresa, onde ingressou com mais de 50 anos, passou a incluir temas como maternidade, etarismo e menopausa nas conversas com os quase mil colaboradores.

Hoje, aos 63 e avó, diz estar no seu auge. “A maturidade trouxe leveza, escuta ativa e capacidade de conexão.” Aos 51, Ana Paula concorda: “Se tudo der certo, vou viver até os 100. Quero continuar produzindo, ganhando dinheiro e apoiando outras mulheres.”
As executivas mostram que há muita vida – e trabalho – na menopausa e depois dela. “Maturidade é equilíbrio. Você escolhe suas batalhas e não quer ganhar todas. Estou no melhor momento da minha carreira”, garante Daniela.