Antes da 80ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, um grupo de influenciadores, líderes e agentes de mudança se reuniu no Bowery Hotel, no centro da cidade, na noite de domingo (28). De Christy Turlington Burns, ex-supermodelo e ativista, a Tarana Burke, fundadora do movimento MeToo, a sala vibrava com propósito.
Todos estavam reunidos a convite do império de investimentos Iconiq, o grupo por trás de algumas das figuras mais poderosas do mundo, incluindo Mark Zuckerberg, fundador e CEO da Meta, e Jack Dorsey, cofundador e ex-CEO do Twitter. A missão era clara: mobilizar apoio a uma nova iniciativa de US$ 100 milhões (R$ 532,2 milhões) voltada para lidar com alguns dos desafios mais urgentes enfrentados pelas mulheres globalmente.
Em um mundo em que uma mulher morre durante a gravidez ou parto a cada dois minutos, e uma em cada três mulheres sofre violência ao longo da vida, a Iconiq uniu forças com Melinda French Gates e suas filhas, Jennifer Gates Nassar e Phoebe Gates, além de outros 14 doadores, incluindo o cofundador da Iconiq Divesh Makan e sua esposa Diksha, para lançar o Women’s Health Co-Lab.
O novo fundo filantrópico colaborativo, criado em parceria com a Co-Impact, tem como objetivo mobilizar recursos para melhorar a saúde e a autonomia de milhões de mulheres e meninas no mundo todo, atuando em três áreas críticas: saúde materna, saúde sexual e reprodutiva e violência de gênero. “As soluções para os desafios que as mulheres enfrentam existem; só precisamos investir nelas”, afirma Melinda French Gates. “Estou muito encorajada pela crescente coalizão de filantropos, especialmente por esta nova geração de líderes, que insiste que a saúde e a autonomia das mulheres merecem um lugar na agenda global.”
O anúncio da Iconiq ocorre pouco depois de outra importante iniciativa de Gates, anunciada no início deste mês durante o Forbes Power Women’s Summit: uma parceria de US$ 100 milhões (R$ 532,2 milhões) entre a Pivotal Ventures e a organização sem fins lucrativos Wellcome Leap para financiar dois novos programas que serão lançados no próximo ano, voltados para áreas subfinanciadas, como saúde mental feminina e distúrbios autoimunes. Ambas as iniciativas fazem parte do compromisso de US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões) assumido por French Gates para enfrentar questões relacionadas às mulheres em todo o mundo.
“Passei a última década tentando entender as barreiras que impedem as mulheres de assumir todo o seu poder, e isso é claro: não há caminho para a igualdade em um mundo que negligencia a saúde das mulheres.”
Melinda French Gates, filantropa e fundadora da Pivotal Ventures
A urgência do agora
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 260 mil mulheres morreram durante e após a gravidez e o parto em 2023, com aproximadamente 92% de todas as mortes maternas ocorrendo em países de baixa e média-baixa renda.
“Mulheres e meninas enfrentam ameaças ao seu poder e à sua autonomia — desde mortes preveníveis no parto até a redução das liberdades reprodutivas”, afirma Olivia Leland, fundadora e CEO da Co-Impact. “Agora é o momento da filantropia responder com a escala, flexibilidade e confiança de que precisamos.”
Esse plano específico é o tripé que a Iconiq espera aproveitar com seu mais recente esforço junto da Co-Lab. Com mais de US$ 70 milhões (R$ 372,5 milhões) em compromissos iniciais, o Co-Lab apoiará 22 organizações com financiamento sem restrições ao longo de três anos, enquanto busca US$ 30 milhões (R$ 159,6 milhões) adicionais para atingir suas metas.
Alguns dos beneficiários selecionados nas três áreas principais incluem: Every Mother Counts, de Christy Turlington Burns, focada em fortalecer sistemas de saúde; Americans for Contraception, voltada à expansão do acesso à saúde; e Ujamaa Africa, que trabalha no fortalecimento de políticas de proteção, entre outros.
“Nossa filosofia é reduzir a barreira para a filantropia eficaz entre grandes doadores”, diz Matti Navellou, líder da Iconiq Impact, braço da organização responsável pelo Co-Lab. “Uma grande parte disso é incentivar nossa comunidade — principalmente fundadores de empresas de tecnologia — a doar de forma colaborativa.” A crença é que a doação colaborativa pode aumentar o ritmo das contribuições, enquanto alivia parte do ônus das famílias de construir equipes filantrópicas extensas. “Existe uma eficácia em usar a Iconiq Impact para movimentar grandes quantias de capital de forma completa.”
A Iconiq Impact lançou outros quatro Co-Labs desde 2021, abordando temas como mobilidade econômica, mudança climática e saúde mental juvenil. Até o momento, a Iconiq Impact assessorou US$ 915 milhões (R$ 4,8 bilhões) em doações. “A filantropia muitas vezes impõe condições, nós tentamos fazer o oposto”, acrescenta Leland. “E é aí que nossa parceria com a Iconiq Impact se torna tão poderosa: compartilhamos a crença de que a filantropia alcança mais resultados quando oferece apoio de longo prazo, flexível, e confia nos líderes locais que conhecem melhor seus sistemas.”
Para Christy Turlington Burns, fundadora da beneficiária Every Mother Counts, a urgência é pessoal. “Me tornei defensora global da saúde materna no dia em que me tornei mãe”, diz. Depois de passar por uma gravidez sem complicações, Burns sofreu uma hemorragia após o nascimento da filha. “Foi ao voltar do hospital que me perguntei: e as milhões de meninas e mulheres ao redor do mundo que não têm acesso a esse nível de cuidado de qualidade e respeito?”
Para Phoebe Gates, de 22 anos, fundadora e co-CEO da startup de IA e moda Phia, impulsionar o progresso real é o principal objetivo. “Apenas 2% dos recursos filantrópicos vão para a saúde das mulheres. A filantropia nunca substituirá os cortes governamentais e o impacto da redução de fundos da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional)”, afirma.
Gates também acredita que quem você financia é tão importante quanto o que você financia. “Isso surgiu de uma reunião com Matti [líder da Iconiq Impact], que disse: ‘Temos tantas pessoas apaixonadas por esse tema que não sabem por onde começar’. Todos nós pensamos: e se fizéssemos isso juntos para dar aos líderes locais os recursos de que precisam?”
O imperativo econômico
O Co-Lab representa mais do que doações filantrópicas, é um investimento em saúde global e estabilidade econômica. Apesar da violência de gênero custar até 2% do PIB em países onde o impacto foi medido, ela recebe apenas US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões) dos US$ 14 bilhões (R$ 74,5 bilhões) investidos anualmente em saúde por meio da Assistência ao Desenvolvimento no Exterior dos EUA — apenas 0,5% do total da ajuda.
“Investir na prevenção da violência de gênero traz benefícios intergeracionais”, diz Avni Amin, do Departamento de Saúde Sexual e Reprodutiva da ONU. “Comparado a muitas outras áreas de saúde e desenvolvimento, os investimentos em prevenção e resposta à violência de gênero são uma gota no oceano, enquanto os retornos sobre o investimento para mulheres, famílias e comunidades são potencialmente enormes.”
Os efeitos indiretos da violência de gênero se estendem muito além do sofrimento individual. Segundo Amin, a ONU estima que a violência de gênero não apenas devasta a saúde das mulheres, mas também impacta seus filhos, suas famílias e comunidades inteiras. “Nos países onde o impacto econômico foi medido, a violência de gênero custa milhões de dólares à economia devido a gastos com saúde, serviços policiais e jurídicos, habitação, abrigos e serviços sociais.”
Michael Anders, fundador e presidente da Iconiq Impact, posiciona o Co-Lab como uma oportunidade de investimento e um chamado à ação. “Um dos melhores investimentos que você pode fazer para a saúde da sociedade a longo prazo é investir na saúde das mulheres.”