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Billie Jean King: A Pioneira Que Lutou pela Igualdade Salarial no Esporte

Aos 81 anos, a lenda do tênis segue com a mesma determinação para promover os esportes femininos

8 min

Poucas figuras têm uma presença tão marcante no mundo do esporte feminino quanto Billie Jean King. A lendária atleta e ativista usou seu domínio nas quadras para construir uma plataforma em prol da igualdade de gênero, que continua ampliando e rompendo barreiras no esporte e na sociedade.

Seis décadas após o início de sua carreira, aos 81 anos, a integrante da lista Forbes das Mulheres Mais Poderosas do Esporte nos EUA relembra os momentos mais marcantes da trajetória e deixa claro que ainda não parou de deixar sua marca no mundo.

Billie Jean King em ação contra Bobby Riggs na “Batalha dos Sexos”, no Astrodome, em Houston, em setembro de 1973
Jerry Cooke/Sports Illustrated via Getty ImagesBillie Jean King venceu Bobby Riggs na “Batalha dos Sexos”, no Astrodome, em Houston, em setembro de 1973

Conquista da igualdade salarial no tênis

O ano era 1972, e King acabava de derrotar Kerry Melville por 6–3, 7–5 na final do US Open, conquistando seu terceiro título de simples no torneio. “Estou na coletiva de imprensa do US Open de 72. Sento ali, fervendo por dentro, furiosa com o valor do prêmio, porque queria igualdade para nós.”

Seu cheque? US$ 10 mil. O de Ilie Năstase, campeão masculino? Mais que o dobro: US$ 25 mil. “Naquela coletiva, eu disse: ‘Acho que não voltaremos no ano que vem se o prêmio não for igual’. Depois pensei: ‘Ah, que burrice, você nem falou com as outras mulheres para ver se concordam’”, lembra ela, rindo. Depois, conversou com as outras jogadoras — e todas toparam. “Disseram que tudo bem, e aí eu soube que seria enorme.”

King estava certa. A ameaça de boicote bastou para provocar a mudança. No ano seguinte, o US Open se tornou o primeiro torneio de tênis a oferecer premiação igual entre homens e mulheres, com ambos os campeões recebendo US$ 25 mil. O gesto inaugurou uma nova era para o esporte feminino e lançou as bases de futuras campanhas por igualdade salarial.

Foi também a primeira de muitas vitórias que King conquistaria pelas atletas — uma luta que ela mantém viva até hoje. “Dinheiro é a única coisa que todo mundo entende. Pessoalmente, valorizo mais os relacionamentos, mas o dinheiro fala mais alto.”

Billie Jean King segurando três cheques enviados pelo All England Lawn Tennis and Croquet Club, em Londres, em 9 de julho de 1973, após se tornar campeã de simples femininos ao vencer em Wimbledon
P. Floyd/Daily Express/Hulton Archive/Getty ImagesBillie Jean King segurando três cheques enviados pelo All England Lawn Tennis and Croquet Club, em Londres, em julho de 1973, após se tornar campeã de simples feminino com sua vitória em Wimbledon

Das quadras aos negócios (e às salas de aula)

O método de King para provocar mudanças se tornou um modelo para outras atletas. Exemplo disso é o esforço coletivo das estrelas atuais da WNBA, a liga profissional de basquete feminino dos Estados Unidos. Mas a influência vai além do exemplo: aos 81 anos, ela continua atuante na Billie Jean King Foundation e na Women’s Sports Foundation, ambas criadas por ela.

Na primeira, King e sua esposa, Ilana Kloss, investem em diversas frentes do esporte, com participações minoritárias em times como o Los Angeles Dodgers, o Los Angeles Sparks e o Angel City FC, além de apoiarem iniciativas de mídia e inovação como o Just Women’s Sports e o Trailblazer Venture Studio.

Billie Jean King e Ilana Kloss no Dodger Stadium, em setembro de 2018
Jon SooHoo/Los Angeles DodgersBillie Jean King e Ilana Kloss no Dodger Stadium, em setembro de 2018

A ex-atleta define a dinâmica do casal: “Eu sonho, Ilana constrói”. A dupla também ajudou a financiar e lançar a PWHL (a liga profissional feminina de hóquei no gelo da América do Norte), que realizou sua primeira partida em janeiro de 2024.

Além dos negócios, tem um novo projeto pessoal: retornar à universidade. “Sabe do que eu gosto? De concluir as coisas. E eu nunca terminei a faculdade. Então voltei.”

A aluna que fez história

Surpreendentemente, para alguém que já entrou para as páginas dos livros, King está cursando história, curso que abandonou no auge de sua carreira no tênis. Quando estudava nos anos 1960, esse era um dos poucos cursos disponíveis para mulheres.

Décadas depois, ela se orgulha de se apresentar como estudante de história na Cal State LA, com planos de se formar em maio de 2026. E acredita que as atletas de hoje também se beneficiariam ao entender melhor o passado. “A Caitlin Clark é incrível. Quando a vi, pensei: ‘É igual à Chris Evert em 71’. Você só percebe isso se conhece sua história. Eu conheço, e vivi.”

“Hoje, todo mundo acha que é o primeiro. Mas, se você olhar para a história, raramente somos.”
Billie Jean King

Billie Jean King entregando o troféu de campeã a Coco Gauff após a final de simples femininos do US Open 2023
Clive Brunskill/Getty ImagesBillie Jean King entregando o troféu de campeã a Coco Gauff após a final de simples feminino do US Open 2023

Abrindo caminhos

King, que colecionou o título de pioneira ao longo da sua trajetória — primeira atleta mulher a ganhar mais de US$ 100 mil em uma temporada, primeira mulher a treinar uma equipe profissional mista e primeira comissária mulher em um esporte profissional —, é rápida em dar crédito às que vieram antes. “Conheci todas as campeãs desde os anos 1920 até hoje”, diz, orgulhosa, como uma colecionadora de lendas. “Elas me ensinaram tanto. Alice Marble me treinou por um mês. Margaret duPont me ensinou a trocar a raquete de mão para descansar o braço, algo que quase ninguém faz hoje. Sempre digo: descansem antes do próximo ponto.”

Abrir caminhos para as próximas gerações é o seu grande propósito. “Sabia que não venceria tantos títulos se fizesse esse tipo de trabalho, mas estava disposta a abrir mão”, diz. “Se você pode mudar o esporte, torná-lo melhor não só para sua geração, mas para as próximas, vale a pena.”

Do tênis ao hóquei

Esse mesmo espírito se repete em outras modalidades. Em 2019, a jogadora de hóquei Kendall Coyne Schofield procurou King e Kloss com a ideia de criar uma liga profissional feminina. “Kendall chegou dizendo: ‘Precisamos de uma liga profissional de verdade, onde sejamos tratadas com respeito e tenhamos um futuro, para nós e para as próximas gerações’”, conta King. “Ela falava como nós, nos velhos tempos. Entendemos perfeitamente o que ela queria dizer.”

O casal ajudou a atleta e o futuro grupo Professional Women’s Hockey Players Association a abrir uma conta bancária e elaborar um plano de negócios. Depois, organizaram reuniões com investidores, incluindo Mark Walter, CEO da Guggenheim Partners e coproprietário do Los Angeles Dodgers — hoje o único dono da PWHL. “Percebi que realizei mais em uma ligação com Billie Jean King e Ilana Kloss do que em toda a minha vida sonhando com uma liga sustentável de hóquei feminino”, disse Coyne Schofield à Forbes.

Billie Jean King realizando o lançamento cerimonial do disco ao lado da presidente da PWHL, Jayna Hefford, na partida inaugural da liga em janeiro de 2024
Alex D’Addese/PWHLBillie Jean King no lançamento cerimonial do disco ao lado da presidente da PWHL, Jayna Hefford, na partida inaugural da liga em janeiro de 2024

Poucas pessoas no mundo sabem criar uma liga sustentável como King. “Sempre começa com um sonho, mas só dura se for estruturado como um negócio. Se uma atleta me pergunta o que deve fazer, eu digo: aprenda o negócio em que você está.”

O legado vivo de Billie Jean King

A PWHL não é a única nova liga feminina dos últimos tempos. A Unrivaled, de basquete 3×3, iniciou suas operações em janeiro, e uma liga profissional de beisebol feminino tem estreia prevista para 2026. “Gosto de usar essa expressão: ‘ponto de virada’. Acho que estamos vivendo um, mas às vezes me pergunto: será que é real? Ou só parece?”

Com uma trajetória marcada por 12 títulos de Grand Slam, a histórica vitória na “Guerra dos Sexos”, que inspirou o filme homônimo de 2017 protagonizado por Emma Stone, a fundação da WTA (Women’s Tennis Association) e honrarias como a Medalha Presidencial da Liberdade dos EUA, King continua motivada por uma pergunta que faz a si mesma: “Ainda espero ter mais alguns anos por aqui. O que você acha que eu deveria tentar fazer agora?”

*Erin Spencer Sairam é colaboradora sênior da Forbes USA. Ela escreve sobre gênero, política e cultura. Já atuou como repórter da equipe do ranking das Mulheres mais Poderosas do Mundo, além de integrar a equipe do 50 Over 50.

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