O Fundo Agbara, primeiro fundo de investimento voltado exclusivamente para mulheres negras no Brasil, foi criado em 2020 por Aline Odara para ampliar o acesso de mulheres negras a capital, conhecimento e oportunidades. “Ainda ocupamos os postos de trabalho mais subalternizados, com os menores salários, majoritariamente na informalidade, sustentando a economia do cuidado, enquanto somos fundamentais para a transformação social nas comunidades”, diz Aline; Em 2025, ela recebeu o prêmio internacional MIPAD, apoiado pela ONU, sendo reconhecida como uma das pessoas de ascendência africana mais influentes do mundo.
Hoje, o fundo — cujo nome significa força e potência em iorubá — já captou cerca de R$ 20 milhões e impactou mais de 20 mil mulheres por meio de diferentes programas. As iniciativas vão de cursos para profissionais que ambicionam carreiras executivas até editais para empreendedoras, que passam por uma jornada de formação e, ao final, acessam recursos financeiros. “O racismo estrutural concentra poder material e econômico, mas também simbólico, de prestígio e conhecimento. Nossos programas buscam promover a circulação de todos esses poderes.”
Aline liderou o fundo na construção de parcerias com empresas como BTG, Ambev, JP Morgan, Fiat e Dengo. Neste ano, lança um programa para mulheres negras que ambicionam carreiras executivas junto com o Pacto de Promoção da Equidade Racial, que inclui um MBA na FGV (Fundação Getulio Vargas), treinamento em habilidades socioemocionais e mentorias. O fundo também mantém um núcleo de pesquisas, atua no fortalecimento de políticas públicas e promove eventos anuais.
A trajetória de Aline Odara e do Fundo Agbara
O pontapé para a criação do Fundo Agbara veio como reflexo da própria história de Aline. No início da vida adulta, ela fez de tudo um pouco: trabalhou como recepcionista, atendente de call center, vendedora no sinal, animadora de festas e auxiliar de cozinha. Paralelamente, participava da articulação de movimentos sociais e organizava campanhas de arrecadação de recursos. “Se alguém precisava de ajuda para pagar aluguel, comprar um computador ou uma bicicleta para ir à universidade, eu era a pessoa que organizava essas campanhas.”
Aos 27 anos, conquistou uma bolsa pelo ProUni para cursar Ciências Sociais. Mais tarde, também se formou em Pedagogia. Dois dias antes do início do lockdown da pandemia, depois de um ano desempregada, foi chamada para assumir uma vaga na Prefeitura de Campinas. “Até então, foi o maior salário que eu já tinha recebido”, lembra. “Ter essa estabilidade me permitiu, pela primeira vez, pensar no longo prazo.”
Foi ali que nasceu a ambição de abrir caminhos concretos para que outras mulheres negras tivessem acesso à estabilidade financeira. “Pensei: se 20 amigos doarem R$ 20 por mês, durante um ano, eu teria R$ 400 para fortalecer a iniciativa de uma mulher negra.”
Em apenas cinco dias, reuniu 60 doadores recorrentes. Três meses depois, o número havia quintuplicado. Um ano e meio mais tarde, vieram os aportes de três grandes investidores: a Fundação Tide Setubal, a Próspera Social — um family office de São Paulo — e o Global Fund for Community Foundations. “Foi a partir disso que consegui estruturar um time e passar a me dedicar integralmente ao Agbara.”
Hoje, Aline é diretora executiva do fundo e lidera uma equipe de 25 pessoas. Pela frente, o plano é seguir crescendo. “Só consegui pensar no meu próprio futuro quando acessei estabilidade financeira. Quero que o Agbara tenha essa mesma condição: um caixa robusto que nos permita planejar no longo prazo e garantir a nossa existência por muito tempo.”