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“Recordes São Feitos para Serem Quebrados”, Diz Surfista Brasileira Que Pode Bater Marca Mundial de Onda Gigante

Há mais de uma década no big surf, Michelle des Bouillons pode quebrar recorde de Maya Gabeira; surfista carioca fala sobre carreira e o futuro das mulheres no esporte

14 min

“Pela primeira vez, eu não senti medo.” Foi assim que a surfista de ondas gigantes Michelle des Bouillons descreveu o momento em que se lançou na descida do que pode ter sido a maior onda já surfada por uma mulher. Em 13 de dezembro, durante o WSL Nazaré Big Wave Challenge, em Portugal, a brasileira encarou uma parede de água que agora está sob análise e pode superar o recorde mundial feminino de 22,4 metros, estabelecido por Maya Gabeira em 2020.

De acordo com a medição de Paulo Vinicius Lopes, especialista no tema e responsável por medir a onda que rendeu a Rodrigo Koxa o recorde mundial em 2017, a onda de Michelle alcançou 24,99 metros. O resultado oficial ainda passa por um processo de avaliação que inclui análises técnicas e a validação final do Guinness World Records, em conjunto com Bill Sharp, criador do Big Wave Challenge Award, principal premiação do surfe de ondas gigantes. O anúncio deve ser feito até setembro deste ano.

Se o recorde for confirmado, Michelle poderá ampliar uma marca que já tem forte presença brasileira: historicamente, o país já estabeleceu três recordes mundiais no surfe de ondas gigantes — um de Rodrigo Koxa, de 24,38 metros (em 2017), e dois de Maya Gabeira, de 20,72 metros (em 2018) e 22,40 metros (em 2020). “Recordes são feitos para serem quebrados”, diz Michelle. “A minha maior esperança é fazer o esporte girar e trazer mais mulheres para esse universo.”

Onda gigante surfada por Michelle des Bouillons em 13 de dezembro, que pode bater recorde
Rennan ChavesOnda gigante surfada por Michelle des Bouillons em 13 de dezembro, que pode bater recorde

A trajetória de Michelle des Bouillons até as ondas gigantes

Carioca e uma das principais atletas do big wave surfing mundial, construiu sua carreira enfrentando alguns dos mares mais temidos do planeta, especialmente Nazaré, considerada a capital das ondas gigantes.

Nos últimos anos, se consolidou entre os nomes mais fortes da modalidade — e como uma das primeiras mulheres a ganhar destaque no cenário — e já conquistou títulos como o campeonato brasileiro de ondas grandes e a maior onda surfada em 2024.

Mas o caminho até as ondas gigantes começou muito antes. Filha de surfistas, Michelle cresceu no Rio de Janeiro assistindo ao pai fabricar pranchas no quintal de casa. Aos 13 anos, já competia em campeonatos locais. “O surfe sempre foi a âncora da minha vida.” Depois de uma fase no surfe profissional e trabalhando também como modelo e apresentadora do Canal OFF, encontrou nas ondas gigantes, aos 24 anos, o desafio que mudaria sua carreira.

Agora, 11 anos depois, diante da possibilidade de quebrar um recorde histórico, Michelle fala sobre a onda que pode ser um ponto de virada na sua trajetória, os bastidores do surfe de ondas gigantes, a pressão das competições e o futuro das mulheres no esporte.

A seguir, confira os destaques da entrevista com a surfista de ondas gigantes Michelle des Bouillons

Forbes: Em dezembro, você surfou uma onda gigante que pode entrar para a história como a maior já surfada por uma mulher. Você tinha noção do tamanho da onda naquele momento?

Michelle des Bouillons: Não em números, mas sabia que era muito grande. Tinha a sensação de que estava prestes a descer a maior onda da minha vida. E pela primeira vez não senti medo.

A maior onda do mundo não vem para qualquer um. Já tive outras oportunidades, estive em mares gigantes e desci ondas enormes, mas sem fazer a linha que conta. Se você só surfa um pedaço pequeno da onda, não conta. Você precisa surfar ela inteira.

Como foi o momento de pegar a onda?

A gente tem uma corda plugada no jet, com uma espécie de manete que seguramos. Com a velocidade do jet eu consigo ficar em pé na prancha, como se estivesse esquiando. Em nenhum momento hesitei. Quando senti o momento certo, soltei a corda do jet e comecei o drop. Até me puxei um pouco mais para dentro, porque era o campeonato mundial e eu queria entregar uma performance de respeito.

Comecei a descer aquela ladeira infinita. Quando cheguei na base da onda, ela era tão grande que cobriu o sol. A sombra começou a chegar, então fiz o bottom turn, que é quando colamos a borda da prancha para ganhar projeção lateral.

Nesse momento ouvi o estrondo da onda batendo na base. A espuma, de tão grande, parecia querer me pegar. Senti a água chegando perto da minha perna e me agachei bastante para ter estabilidade. Pensei: “Daqui eu não vou cair”. Me mantive sólida na linha e completei a onda.

Depois, o resgatista, o Paulo Diego Imbica, me buscou. Como estava muito concentrada na descida, nem escutei o penhasco vibrando. Quando voltei, vários jets vieram até mim para me parabenizar. Foi muito emocionante.

O que passou pela sua cabeça?

Durante a onda era só concentração. Depois que o evento acabou, várias pessoas começaram a falar comigo: “Michelle, isso é onda para recorde”. E eu completei a onda. A onda da Maya não foi completa, ela caiu depois.

O Rodrigo Koxa, campeão e recordista mundial, me incentivou a investir nisso e me passou o contato do Paulo, que fez a medição do recorde dele. Ou seja, é uma medição que já foi homologada no passado. O próprio Bill Sharp, responsável por homologar os recordes, estava lá e veio falar comigo depois. Foi aí que a ficha começou a cair.

Qual é a importância de abrir esse caminho para outras mulheres no surfe?

É um dos maiores legados que posso deixar. Seria legal se, a cada dois anos, surgissem novos recordes. Um ano é a Michelle, depois a Justine, depois a Maya de novo, ou uma menina da nova geração. Isso faz o esporte evoluir. Recordes são feitos para serem quebrados.

Minha luta por esse recorde não é só por mim. É algo que pode servir para essa nova geração que também quer surfar ondas grandes. Essa é a minha maior esperança: fazer o esporte girar mais, trazer mais mulheres para esse universo e também trazer mais um título para o Brasil.

Com isso, seriam quatro recordes mundiais: um do Rodrigo Koxa, dois da Maya e, quem sabe, agora esse meu.

Como você lida com a pressão mental de encarar esses campeonatos?

Quando você evolui e começa a ser convidada para campeonatos mundiais e aparece em muitas mídias, surge uma pressão que não vem só de você querer vencer. Vem também de quem te admira e te acompanha, que quer te ver campeã. Isso começa a pesar. Também queria entregar o melhor para minha equipe, e eles queriam me ver campeã.

Mas ano passado eu já estava cansada dessa pressão toda. Quase nem competi nesse campeonato, mas acabei aceitando. Conversei muito com o Ian Cosenza, minha dupla dentro e fora da água, e com o Lucas Chumbo, que também estava competindo, e falei: “Vou estar na água, vou dar todo o suporte para vocês, mas quero surfar quando eu quiser, no dia que eu quiser, as ondas que eu quiser”.

Cheguei em um nível em que posso escolher, isso veio com a maturidade e com a experiência. Foi um dos motivos pelos quais eu consegui entrar tão leve naquele dia. Conseguir tirar esse peso de dentro de mim acabou resultando naquela onda.

De onde veio a sua paixão pelo surfe?

Já surfava dentro da barriga da minha mãe. Ela surfava — apesar de, na época, raríssimas mulheres surfarem — e amava ir para a praia. Meu pai também é surfista e designer de pranchas. Ele tinha uma fábrica no quintal da nossa casa, no Recreio. Lembro de chegar da escola e ficar assistindo ele shapeando as pranchas. A gente vivia muito na praia.

O surfe sempre foi a âncora da minha vida. Desde muito nova tinha certeza de que ia viver disso, de alguma maneira. Comecei competindo quando tinha uns 13 anos, em campeonatos locais. Depois, passei a competir em campeonatos brasileiros, representando o Rio de Janeiro.

Michelle aos 16 anos, ao lado da equipe carioca de surfe, quando venceu uma etapa do campeonato brasileiro
Acervo pessoalMichelle aos 16 anos, ao lado da equipe carioca de surfe, quando venceu uma etapa do campeonato brasileiro

Quando entendeu que podia fazer disso a sua carreira?

Por volta dos 18 anos, fiquei um ano no surfe profissional. Mas quando estava perto dos 20, o Brasil passou por uma fase complicada e os campeonatos acabaram. Foi então que decidi estudar produção audiovisual. Já trabalhava como modelo, fazendo campanhas de biquíni e beachwear, e sempre gostei do universo da TV. Foi uma forma de continuar vivendo do surfe. Fiquei nessa rotina entre TV e surfe e fiz vários programas para o Canal OFF.

E quando veio a virada para o big surf?

Aos 24, fui morar na França porque tenho dupla nacionalidade — meu avô paterno é francês. Sentia que o Brasil estava um pouco pequeno para mim e queria expandir.

No começo foi muito difícil, porque eu não conhecia ninguém e os franceses são mais fechados. Mas acho que quando a gente supera desafios, novas portas se abrem.

Um dia parei para refletir sobre minha carreira e minha vida como surfista profissional. Senti um buraco muito grande dentro de mim, algo que eu precisava preencher. Então pensei: “Por que não tentar as ondas gigantes?”

Comecei a me enturmar com a galera que já tinha jet e paguei instrutores para me darem aulas. Depois, fui para Nazaré pela primeira vez. Fiquei um mês lá, só eu, minha prancha, um coletinho simples de espuma e o coração aberto.

Você lembra qual foi a primeira onda gigante que surfou?

Naquele primeiro ano, surgiu uma vaga em um time de última hora. Estava muito feliz, mas também muito receosa, porque Nazaré sempre traz uma tensão.

Foi ali que senti o gostinho: ser rebocada pelo jet, soltar a corda e descer uma onda que, para mim, na época, parecia imensa. Devia ter uns 8 metros.

Ali percebi que aquele era o meu caminho. Era o que ia preencher o buraco que eu sentia. Me apaixonei por todo o universo: pelas máquinas, por pilotar, pela aventura e pela troca em equipe — um tendo que dar a vida pelo outro, com as mesmas responsabilidades, homens e mulheres.

Você teve algum desafio específico por ser mulher no surfe?

Não posso reclamar de preconceito ou de falta de espaço, porque no big surf eu tive muito espaço e fui bem aceita, não só pela minha equipe, mas também por toda a comunidade de Nazaré e por outros surfistas profissionais.

O pessoal sempre vibrou muito por mim e me respeitou dentro d’água. Quando alguém está surfando ondas grandes, isso exige tanta vontade e força que todo mundo acaba respeitando.

Também sinto que a presença feminina na água traz um equilíbrio, faz com que todo mundo se lembre de que o ambiente é para todos. Não fica aquela coisa de “macho para macho”.

Quando você começou, era uma das poucas mulheres no esporte. Faltaram referências?

Na época éramos basicamente eu, a Maya Gabeira, a Justine Dupont, que é francesa, e a Michaela Fregonese, brasileira. E ficamos assim por uns seis anos, praticamente só nós. A Maya sempre foi muito conhecida no cenário. Ela abriu esse espaço e, quando eu cheguei, ajudei a solidificar ainda mais essa presença da mulher no big surf.

Como é a preparação para surfar uma onda gigante?

A preparação começa muito antes da temporada. Basicamente passo o ano inteiro treinando o físico para a temporada de ondas gigantes. O Brasil recebe muita ondulação grande, então conseguimos treinar o ano todo, pilotagem e surfe.

Quando me sinto forte e preparada fisicamente, já sei que tenho 50% de segurança caso algo aconteça. Os outros 50% vêm de trabalhar com pessoas em quem eu confio. Sei que, se eu cair ou acontecer alguma coisa grave, minha equipe estará ali 100% para me resgatar. Isso faz meu mental ficar muito confiante.

Em Nazaré, temos uma base, porque é impossível viajar carregando tudo. Hoje tenho cerca de 12 pranchas, algumas pesando de 4 a 11 quilos. A marina fica praticamente ao lado do penhasco de Nazaré. Navegamos cerca de 10 minutos e já estamos no pico. Nos preparamos no armazém, colocamos as roupas de borracha, escolhemos os equipamentos com antecedência e deixamos tudo pronto para o dia da ondulação.

Michelle des Bouillons e Ian Cosenza, seu companheiro e parceiro na pilotagem do jet-ski
DivulgaçãoMichelle des Bouillons e Ian Cosenza, seu companheiro e parceiro na pilotagem do jet

Quando você não está competindo, como é a sua rotina?

Moro no Rio, mas surfamos muito em Saquarema, fica a umas duas horas de carro. Como trabalhamos de acordo com as ondulações e com a natureza, precisamos seguir o que o mar oferece. Quando não tem ondulação gigante acontecendo, procuro treinar e focar no preparo físico. Quando tem ondulação, aí é surfe.

Para mim, não existe sábado, domingo ou feriado. Às vezes é domingo e estou na academia ou trabalhando no computador, respondendo e-mails. Também faço palestras, gerencio uma empresa de pranchas e sou embaixadora de marcas como a Sea-Doo, de motos aquáticas.

Como você gosta de passar o tempo livre?

Brinco que adoro “brincar de casinha”, organizar tudo e ver decorações. Gosto de preparar um bom café da manhã para mim, arrumar a mesa. É um momento do dia que amo.

Antigamente eu ia muito para a praia só para pegar sol também. Sou muito carioca nesse sentido: praia, praia, praia. Mas hoje em dia estou indo menos, porque meu problema é o excesso de sol. Tenho o privilégio de morar de frente para o mar, então só de abrir a janela e ver o oceano já me sinto um pouco na praia.

Gosto de ler livros de autoajuda e evolução espiritual, agora estou lendo “O Poder do Agora”. Também gosto de assistir séries, entrar em outros mundos e tirar um pouco a cabeça de tudo que eu vivo.

E sempre faço manutenção nas minhas pranchas: quando quebra alguma coisa mando consertar, troco adesivos, parafina e verifico os parafusos das alças.

No médio e longo prazo, como você imagina o seu futuro?

Quero muito ser mãe. Estou me preparando para isso, e o Ian também. Quero investir mais nas minhas redes sociais e mostrar esse meu lado mulher para as seguidoras. No universo do surfe, acabo convivendo muito com homens, mas sou muito feminina.

Também tenho um projeto de investir em uma nova geração de meninas no big surf. Quero ensiná-las a pilotar e mostrar o caminho. Como é um esporte muito caro, sei que isso acaba afastando muitas pessoas, mas dá para fazer.

E não pretendo parar quando for mãe. Quero continuar surfando. A Justine Dupont, que é minha maior concorrente hoje, foi mãe no ano passado e voltou com tudo, inclusive me venceu no Mundial.

O que você espera para o futuro das mulheres no surfe?

Tem cada vez mais meninas interessadas, mas ainda existe uma questão importante: muitas não pilotam. O surfista de ondas gigantes só é completo quando sabe surfar e pilotar. É um esporte em equipe, a gente se reveza. Não dá para simplesmente contratar um piloto e só surfar.

Tenho visto algumas competições caminharem para um formato em que a categoria feminina não é formada por dupla feminina — um homem pilota e a mulher apenas surfa. Não quero que siga por esse caminho. Por isso tenho vontade de colocar em prática esse projeto voltado para o público feminino.

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