A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou nesta semana o primeiro medicamento não hormonal desenvolvido especificamente para o tratamento dos fogachos e suores noturnos característicos da menopausa.
Comercializado no Brasil com o nome Veoza (fezolinetanto), o comprimido de uso diário da farmacêutica Astellas chega como um marco para a saúde feminina. Até então, a principal opção para aliviar esses sintomas era a terapia de reposição hormonal.
O novo medicamento amplia as alternativas terapêuticas para quem não pode ou prefere não recorrer aos hormônios, seja por contraindicações cardiovasculares, histórico de câncer de mama ou escolha pessoal. “A terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para sintomas da menopausa em mulheres elegíveis”, explica Carolina Janovsky, médica endocrinologista e professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “A revolução do Veoza é atender à necessidade de quem não podia usar essa reposição.”
A aprovação também é vista como um avanço no olhar para o climatério e no cuidado com a saúde feminina, um campo que, por décadas, contou com poucas inovações terapêuticas. “Quando temos novas opções terapêuticas, especialmente não hormonais, reconhecemos que qualidade de vida, sono e bem-estar na menopausa são temas legítimos de relevância científica, cuidado médico e de saúde pública”, afirma Marcella Cardoso, doutora em ginecologia e cientista na Harvard Medical School.
O novo medicamento exige acompanhamento médico, além de causar possíveis efeitos colaterais. “Os mais comuns descritos incluem diarreia, insônia, dor abdominal, dor nas costas e alterações de enzimas do fígado”, cita Cardoso. O alerta mais sério, no entanto, vem de fora do Brasil. “A FDA, agência regulatória dos EUA, adicionou alerta para ocorrência rara, mas séria, de lesão hepática. A orientação internacional é fazer exame de sangue para avaliar o fígado antes de iniciar e repetir durante o tratamento”, explica Janovsky. “É um medicamento que pode ser tomado diariamente quando bem indicado, mas não deve ser usado por conta própria”, explica Cardoso.
Recalibrando o corpo
Para entender a importância do fezolinetanto, é preciso voltar a atenção para o centro do cérebro, mais especificamente para o hipotálamo, que atua como o termostato do corpo humano. Antes da entrada no climatério, o estrogênio produzido pelos ovários mantém um equilíbrio fino com uma substância química cerebral chamada neurocinina B.
Com a falência ovariana e a queda do estrogênio, esse equilíbrio se rompe e a neurocinina B passa a agir de forma intensa. “O termostato do cérebro fica mais sensível, como se disparasse um alarme falso de calor. O corpo acha que está superaquecido, mesmo sem estar. Aí vem o calorão, a vermelhidão, o suor e, muitas vezes, o despertar no meio da noite”, descreve a endocrinologista.
O novo medicamento atua bloqueando o receptor específico ao qual a neurocinina B se liga, mas seus efeitos não são imediatos. Dados da Anvisa mostram que, após quatro semanas, o tratamento reduziu em média 53% das ondas de calor diárias. “A expectativa não é que o remédio desligue completamente os fogachos de um dia para o outro, mas que ajude o corpo a ter menos episódios e que sejam menos intensos ao longo das semanas”, detalha Cardoso.
Uma nova rota para sobreviventes do câncer de mama
Embora o medicamento não tenha sido desenvolvido exclusivamente para mulheres com contraindicações à terapia hormonal, ele surge como um forte aliado para esse grupo. Mulheres com histórico de trombose, AVC, infarto ou câncer de mama, por exemplo, costumam ter poucas alternativas para aliviar fogachos intensos.
Como muitos tumores de mama são sensíveis ao estrogênio, o tratamento oncológico frequentemente tenta bloquear o efeito desse hormônio no corpo. Logo, a reposição hormonal tradicional se torna um risco.
“O fato de ser não hormonal é muito relevante, mas não significa que o medicamento seja automaticamente indicado para todas. A decisão deve ser individualizada, baseada no risco, nos sintomas, nos tratamentos em uso e nas evidências disponíveis”, afirma a cientista de Harvard.
O calorão passa, os sintomas da menopausa continuam
O alívio dos fogachos não significa a resolução de todos os desafios dessa fase. Segundo as especialistas, o climatério e a menopausa envolvem uma transição mais ampla, e a queda do estrogênio também impacta a saúde óssea e a lubrificação íntima.
O novo comprimido não trata o ressecamento vaginal nem previne a perda de massa óssea ou a osteoporose. “O Veoza pode cuidar do ‘calorão’, mas a menopausa precisa de um plano completo”, alerta Janovsky. O cuidado com esses sintomas inclui o uso de hidratantes e lubrificantes vaginais, além de atenção para a saúde óssea, com ingestão adequada de cálcio, vitamina D e exercícios de força.
O acesso no Brasil
A aprovação pela agência reguladora, a Anvisa, é apenas o primeiro passo. Para que o Veoza chegue às farmácias, ele ainda depende da avaliação da CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), que define o teto de preços no país.
A curto prazo, a tendência é que o tratamento comece no mercado privado e com um custo elevado. No médio prazo, para chegar à rede pública, o remédio precisará passar pelos critérios da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde), que analisa o custo-benefício da incorporação no SUS.
“A aprovação ainda precisa vir acompanhada de uma agenda de equidade”, diz Marcella. “A inovação só vai efetivamente transformar o cenário quando chegar a todas as mulheres, independentemente de sua classe social.”