Às 6h de uma terça-feira no Aeroporto Internacional de Newark, nos Estados Unidos, dezenas de viajantes a negócios evitam a fila de 15 minutos da segurança usando a Clear. Câmeras de alta tecnologia escaneiam seus rostos e analisam suas características biométricas – o contorno da mandíbula, a profundidade das órbitas oculares, a curvatura dos lábios – para verificar suas identidades.
Em questão de segundos, eles passam pela segurança (pelo menos pela etapa de verificação de identidade) e colocam pastas e bagagens de mão nas bandejas para serem examinadas em busca de explosivos e líquidos proibidos.
Por US$ 209 (cerca de R$ 1.050) ao ano – um valor irrisório para muitos viajantes frequentes –, a Clear torna a experiência nos aeroportos um pouco mais rápida e menos desagradável. Quem fica preso às filas mais lentas pode reclamar, mas os 8,2 milhões de membros da Clear adoram o serviço.
A empresa de 16 anos, que teve dificuldades para ganhar dinheiro em seus primeiros anos, tornou-se presença constante nos terminais e hoje é lucrativa, registrando US$ 900 milhões (R$ 4,5 bilhões) em receita e US$ 168 milhões (R$ 842,5 milhões) em lucro líquido em 2025.
“Acho que as pessoas continuam subestimando o quanto viajar é difícil e o quanto as pessoas querem ajuda durante as viagens”, diz Caryn Seidman Becker, CEO da Clear, de 53 anos. Ela comprou os ativos da empresa e as impressões digitais de 190 mil pessoas por US$ 6 milhões (R$ 30,2 milhões) quando a companhia entrou em falência durante a crise financeira de 2008.
Hoje, é possível usar a Clear em 60 aeroportos americanos. A empresa, sediada em Nova York e listada em bolsa desde 2021, tem atualmente valor de mercado de US$ 7,6 bilhões (R$ 38,3 bilhões), o que representa um retorno superior a 1.000% para Caryn e seus investidores iniciais. Sua participação de 14,5% vale US$ 1,1 bilhão (R$ 5,5 bilhões), tornando-a uma das 43 mulheres bilionárias self-made dos Estados Unidos.
Ela afirma que o serviço para evitar filas não é apenas excelente para os membros; também é vantajoso para os aeroportos parceiros. Em 2025, a Clear pagou US$ 128 milhões (R$ 645,2 milhões) a eles. “O mais bonito é que isso representa 100% de lucro para eles”, diz.
Desafios da Clear
Mas a Clear tem limitações: há apenas um número finito de pessoas nos EUA que viajam o suficiente para justificar o pagamento pelo serviço. As assinaturas ativas para uso em aeroportos cresceram apenas 6% em 2025. Além disso, o negócio depende da ineficiência governamental.
A TSA, agência do governo dos EUA responsável pela segurança dos aeroportos, poderia ser privatizada ou, quem sabe, simplesmente se tornar melhor em fazer as pessoas passarem pelas filas. “Um processo governamental totalmente eficiente nos pontos de controle prejudicaria os negócios da Clear”, afirma Justin Oberman, CEO da startup de aviação Airspace Data, que ajudou a estruturar a TSA após os atentados de 11 de setembro. “No fim das contas, o que você está comprando é a capacidade de furar a fila.”
A Clear também depende da American Express. Portadores do cartão Platinum, que pagam cerca de US$ 900 (R$ 4.536) por ano por um pacote de benefícios, recebem a assinatura gratuitamente.
Analistas estimam que pouco menos da metade dos membros da Clear venha da AmEx. A empresa assinou uma extensão de contrato plurianual com a American Express este ano, mas a CEO precisa encontrar novas formas de crescer.
Para além dos aeroportos
Uma frente de negócios é cadastrar viajantes internacionais de países que não exigem visto para entrar nos EUA. Outra é oferecer serviços de concierge para ajudar idosos e famílias com crianças pequenas a transportar suas bagagens.
A empresa também ganha dinheiro ao cadastrar pessoas para o TSA PreCheck. São ideias interessantes, mas insuficientes para impulsionar um crescimento exponencial.
Por isso, Caryn agora quer atender qualquer setor que precise verificar se as pessoas são realmente quem dizem ser. É um nicho surpreendentemente grande que, segundo a consultoria Grand View Research, sediada em São Francisco, deverá gerar US$ 34 bilhões (R$ 171,3 bilhões) em receita até 2030.
Hoje é possível usar a Clear para entrar no Yankee Stadium e em outros oito estádios esportivos pelos EUA. Também é possível confirmar sua identidade por meio da plataforma ao utilizar serviços como DocuSign, LinkedIn ou Uber.
A ferramenta ainda pode ser usada para alugar uma britadeira ou uma caminhonete na Home Depot, empresa da qual Caryn é conselheira. “Queremos passar de 12 vezes por ano para 12 vezes por dia”, afirma.
Foco no setor de saúde
O maior alvo da empresa agora? A saúde.
Grandes grupos hospitalares da Geórgia, Nova York, Nova Jersey e Louisiana já fecharam acordos para integrar a Clear. Uma aplicação popular consiste em escanear o rosto dos pacientes para confirmar suas identidades ao fazer check-in em consultórios médicos, passar por cirurgias ou receber quimioterapia. O grupo Hackensack Meridian, de Nova Jersey, que controla 18 hospitais, também utiliza a Clear para acelerar a recuperação de senhas das contas MyChart dos pacientes.
A Wellstar, um dos maiores sistemas de saúde da Geórgia, que atende 1,3 milhão de pessoas, incorporou a tecnologia de verificação de identidade da Clear aos totens de check-in de 264 departamentos e consultórios médicos.
Isso economizou milhares de horas de trabalho das equipes de recepção e ajudou a eliminar centenas de prontuários duplicados, cuja correção exige horas de trabalho. Agora, a Wellstar está expandindo o uso da Clear para todos os hospitais que administra.
A Clear reconhece que as preocupações com privacidade na área da saúde são ainda mais relevantes do que em aeroportos ou lojas da Home Depot. Por isso, a empresa afirma que nunca vende dados a terceiros.
Em dezembro, a Clear conquistou um contrato de US$ 6 milhões (R$ 30,2 milhões) com o Medicare para permitir que novos beneficiários acessem suas contas usando apenas uma selfie, sem necessidade de senha. “Se você pode simplesmente usar seu rosto e o sistema sabe que é você, tudo fica muito mais simples”, afirma Amy Gleason, assessora especial dos Centros de Serviços Medicare e Medicaid (CMS).
A parceria é estratégica para a Clear: o Medicare paga cerca de um quinto de todas as despesas médicas do país. Bob Garrett, CEO da Hackensack Meridian, afirma que a aprovação do Medicare pode “abrir as portas para que essa tecnologia se torne parte integrante da forma como prestamos cuidados de saúde em todo o país”.
Oportunidade em meio às fraudes de identidade
A CEO promove a Clear como uma empresa de identidade digital há mais de uma década. Durante uma reunião realizada em janeiro no escritório da companhia em Manhattan, ela exibiu uma de suas primeiras apresentações, de 2010, para provar que já enxergava a Clear como algo além de uma empresa aeroportuária. “Sou uma acumuladora digital”, brinca. Poucos deram atenção a essa visão até recentemente. “É preciso permanecer perto da cesta por muito tempo até acertar o arremesso e, neste caso, nós estávamos certos”, diz a CEO.
“Muitas iniciativas fora do setor de viagens não funcionaram no passado”, diz Wyatt Swanson, analista da D.A. Davidson. “Na minha visão, mesmo que o contrato com o CMS não represente uma grande contribuição para a receita em 2026, ele deve servir como uma importante prova de conceito.”
O crescimento preocupante das fraudes de identidade – potencializado pela inteligência artificial –, combinado com o trabalho remoto, está criando oportunidades para a Clear além da área da saúde.
As empresas precisam cada vez mais garantir que as pessoas que contratam não estejam tentando aplicar golpes e que os indivíduos acessando seus sistemas internos sejam realmente funcionários. A T-Mobile, por exemplo, utiliza a Clear para confirmar a identidade de seus 75 mil colaboradores.
Ainda é cedo para os negócios da Clear fora dos aeroportos. Os números financeiros são tão pequenos que a empresa nem os detalha separadamente em seu balanço. Mas o crescimento é acelerado: em 2025, 41 milhões de pessoas estavam cadastradas na plataforma, somando aeroportos e empresas, um aumento de 31% em relação ao ano anterior. Já as reservas corporativas cresceram cinco vezes.
O mercado gosta dessa história, especialmente porque a American Express continua ao lado da empresa. Após anos negociando em torno de metade do preço de fechamento de seu IPO, em 2021, quando a ação encerrou o dia a US$ 40,43 (R4 203,8), os papéis da Clear já acumulavam alta de 68% em 2026, ante 13% do índice Nasdaq.
A trajetória de Caryn Seidman Becker até a Clear
Nascida em Maryland, filha de dois funcionários públicos, Caryn estudou Ciência Política na Universidade de Michigan e conseguiu seu primeiro emprego na área de arbitragem de risco. Em 2002, aos 29 anos e grávida, reuniu US$ 60 milhões (R$ 302,4 milhões) para lançar o hedge fund Arience Capital.
Até 2007, ela havia elevado os ativos sob gestão da Arience para US$ 1,5 bilhão (R$ 7,56 bilhões), com retornos líquidos anualizados em torno de 12%.
Então veio a crise financeira. Com perdas de 18% e preocupada com a direção dos mercados, ela liquidou a maior parte do fundo e devolveu o dinheiro aos investidores.
História da Clear
Enquanto isso, a Clear, criada por Steven Brill, fundador da Court TV, após os ataques de 11 de setembro, afundava sob uma montanha de dívidas. Brill já havia sido afastado pelos investidores.
Convencida do potencial do negócio, Caryn decidiu comprá-lo. Mas um grupo de ex-funcionários também queria a empresa.
Instalada em um escritório de advocacia em Midtown Manhattan durante as negociações, ela percebeu que seus concorrentes não tinham os recursos necessários para fechar o negócio. “Eu os ouvia no corredor ao telefone tentando levantar dinheiro”, lembra. “Estavam ligando para todo mundo em busca de capital.”
Ela apresentou sua proposta final: US$ 6 milhões (R$ 30,2 milhões) à vista. E venceu. “Voltamos para casa naquela noite e era como ter um bebê recém-nascido. Você não faz ideia do que está fazendo”, diz.
Após o relançamento da Clear em Orlando e Denver, em 2010, a empresa levou seis anos para fechar contratos com os 16 aeroportos seguintes. O grande impulso veio em 2016, quando a Delta começou a oferecer a Clear gratuitamente para passageiros frequentes e adquiriu uma participação de 5% na companhia.
A American Express tornou-se parceira em 2019 e o crescimento explodiu, até que a pandemia desacelerou o ritmo. A CEO lançou então um recurso de comprovação de vacinação no aplicativo da Clear até que as viagens voltassem gradualmente.
Os maiores desafios da CEO da Clear
Em 2022, a Clear permitiu que um passageiro passasse pela segurança utilizando uma identidade falsa – algo que Caryn atribui a erro humano. Houve uma investigação e, ao final, a TSA impôs regras mais rígidas que aumentaram o tempo das filas da Clear, criando um problema para a empresa até que as medidas fossem gradualmente flexibilizadas.
Os desafios não se limitaram aos negócios. Na mesma época, seu marido, Marc Becker, copresidente da área de investimentos de impacto da Apollo, morreu de câncer de pâncreas aos 51 anos.
Enquanto tenta realizar movimentos ambiciosos fora do setor de viagens, a CEO enfrenta concorrentes de peso, como a LexisNexis Risk Solutions – cuja controladora, a RELX, registrou receita de US$ 13 bilhões (R$ 65,5 bilhões) em 2025 – e a Experian – com receita de US$ 7,5 bilhões (R$ 37,8 bilhões) no ano fiscal de 2025 –, que atualmente dominam o mercado de verificação de identidade na área da saúde.
Talvez mais preocupante para a Clear seja o fato de que Apple e Google também possuem iniciativas de identidade digital e relacionamentos de longa data com o setor de saúde.
A Clear tem uma grande vantagem competitiva nos aeroportos. Fora deles, não.
A executiva teve sucesso em Wall Street. Demonstrou ser capaz de salvar e expandir um negócio de nicho quando protegido da concorrência direta. Agora veremos como ela se sai enfrentando de igual para igual alguns dos adversários mais poderosos da tecnologia.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com