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Quem É Juliana dos Santos, Destaque da Arte Contemporânea Brasileira

Doutora em artes pela Unesp, ela chamou a atenção do circuito ao usar flores para criar telas que mudam com o tempo

4 min

Juliana dos Santos, um dos destaques da lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil, diz que não pinta, semeia. Faz sentido. Em seus trabalhos, ela explora a efemeridade do azul da flor Clitoria ternatea: primeiro solta suas pétalas com batidas rápidas no liquidificador, depois molha um tecido e em seguida esparge ali os fragmentos da flor, deixando que o azul se espalhe mais ou menos ao seu bel-prazer. “É uma forma de reencenar um ciclo de vida.”

Nesse processo, as telas se modificam com o tempo, numa arte que ela define como time based. Pouca gente é capaz de capturar o efêmero com tamanha precisão. “Se você for à mostra em momentos diferentes, as cores já serão outras”, afirma.

A mostra à qual ela se refere pode ser a 36a Bienal de Arte de São Paulo, encerrada em janeiro. Ou a mostra solo na Pina Contemporânea, anexo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, que se encerrou em março. As duas exposições, mais o fato de passar a ser representada pela Galeria Luisa Strina, pioneira da arte contemporânea do Brasil, formam para ela o que só pode ser definido como um ano… azul.

“Sou um projeto familiar que deu certo”, avalia. Filha de uma artesã e de um garçom, recorda que em sua casa o cotidiano foi marcado pela estética. Fazia as refeições em pratos de porcelana pintados pelo tio; os panos de prato eram pintados pela avó; dormia em colchas de patchwork bordadas por sua mãe. Do pai, herdou a capacidade de se maravilhar com o pôr do sol e as cores do céu.

Ao optar pelo caminho da arte, recebeu apoio incondicional da família, do suporte financeiro para materiais ao trabalho “invisível” da mãe e da avó, que garantiram a tranquilidade doméstica para que ela se tornasse doutora em artes visuais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) – um título que ela diz enxergar como uma conquista coletiva de gerações de mulheres negras.

Nascida no bairro do Peruche, zona norte de São Paulo, Juliana viveu de perto a pulsação das escolas de samba, sua “primeira base para entender a relação entre arte e vida”. Mas foi durante uma meditação, em sua fase budista, que chegou ao que considera uma epifania para o uso do azul. Quando encontrou o mesmo tom na Clitoria ternatea (conhecida como feijão-borboleta ou, talvez mais ao caso, fada azul) passou a experimentar técnicas para traduzir sua vibração e frequência.

Juliana recorda com gratidão um “não” que recebeu no início da carreira, quando uma curadora afirmou que ela não era artista. “Foi o melhor não da minha vida. Me fez criar condições para ser.” Acabou se tornando uma artista que extrapola seus espaços. Em sua mostra Temporã, na Pina Contemporânea, atravessou as paredes do museu. Durante uma semana, soprou o pigmento de flores sobre 200 metros de tecido na praça central, com participação do público no nascimento do azul. “Só faz sentido se a arte tiver mediação com o mundo, quero promover a partilha do sensível”, diz.

Na Bienal, Juliana permitiu que o vento e a umidade determinassem o caminho da cor no papel em seus painéis monumentais, lidando com o inesperado da natureza. Em março ela teve uma exposição individual na feira ARCOmadrid, na Espanha, e em novembro vai ter uma mostra individual na Luisa Strina, em São Paulo. Aos 39 anos, vive tempos de colheita.

*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.

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