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“Minha Vida Não Mudou Quase Nada”, Diz Bilionária Self-Made Mais Jovem do Mundo

Em entrevista à Forbes, Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi, fala sobre os planos de trazer para o Brasil sua plataforma de mercados preditivos

8 min

Pela mais recente rodada de investimentos, de maio deste ano, a plataforma de mercados preditivos Kalshi atingiu um valuation de US$ 22 bilhões; e há notícia de que está pretendendo dobrá-la para cerca de US$ 40 bilhões em sua próxima rodada, provavelmente neste terceiro trimestre, antes de uma possível abertura de capital. Mas a brasileira Luana Lopes Lara, de 30 anos, que cofundou a empresa com seu colega de MIT Tarek Mansour e se tornou a bilionária self-made mais jovem na lista da Forbes, diz que sua vida não mudou “quase nada” neste ano.

“Antes eu vinha para o escritório cedinho e ia embora supertarde, trabalhava o dia inteiro. E eu continuo fazendo isso”, disse em entrevista à Forbes. “A gente está muito no início, é importante estar muito focado, focado no produto, focado nos usuários, focado no nosso roadmap, para se concentrar em tudo o que a gente consegue fazer.”

De fato, o escritório da Kalshi dá essa impressão de efervescência. A começar pela localização, no Meatpacking District, a área comercial revitalizada no extremo oeste de Nova York, onde fica o Whitney Museum de arte americana, lojas de grife e um trecho do High Line, o parque elevado construído sobre antigos trilhos de trem. Dezenas de funcionários se movimentam pelo local, entre as paredes de tijolos e as colunas brancas.

O dia de nossa entrevista talvez estivesse um pouco mais caótico que o normal: a seleção brasileira iria jogar, dali a apenas uma hora, uma partida contra o Japão, a primeira da fase de mata-mata da Copa do Mundo de Futebol. Luana vestia uma calça jeans e uma camisa do Brasil verde, comprada numa loja perto do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, durante uma visita que fez ao país com amigos no ano passado.

“Foi o que eu vesti no último jogo, e o Brasil ganhou, então agora eu tenho que vestir a mesma camisa em todos os jogos”, afirmou. Superstição? “Sim, com o futebol eu sou muito supersticiosa, tenho que assistir no mesmo exato lugar da última vez. E eu grito muito quando sai um gol, acho que os americanos não entendem o que é uma Copa para o Brasil.”

A meia dúzia de brasileiros que trabalham na Kalshi (entre os cerca de 150 colaboradores) tem um canal exclusivo do Slack para conversar. Mas isso não soa como fora do comum. Luana e Tarek mantêm um estilo de gestão que Tarek recentemente definiu como “não usual”, extremamente próximo dos funcionários – praticamente todos se reportam aos dois. Um dos desafios de Luana, no momento, é conseguir se dedicar a missões de maior impacto. “Estamos contratando mais pessoas para tirar um pouco da carga que eu tinha, para que eu dê um passo para trás e possa alavancar mais os times”, diz.

A seguir, veja os destaques da entrevista com Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi

Forbes: Em março, a Kalshi fez um acordo com a XP para algumas atividades no Brasil, mas no mês seguinte o governo baniu os mercados preditivos. Quais são os planos agora?

Luana Lopes Lara: Nós achamos que há um jeito certo de fazer as coisas, que é operar legalmente, com regulação. Então a gente quer negociar com o governo. Aqui nos Estados Unidos nós trabalhamos durante quatro anos antes de conseguir abrir a empresa. Claro que nós esperamos que nos demais países o prazo seja mais curto, porque a gente já entendeu mais ou menos o caminho e como o negócio pode funcionar, pela experiência aqui.

No caso do Brasil, o que está faltando?

Nós queremos colaborar com o governo para construir salvaguardas. Acho que ninguém discorda que os mercados preditivos são objetivamente melhores do que as alternativas, como as casas de apostas. No nosso modelo de negócios, nós não ganhamos nada quando alguém perde uma aposta. Nós só cobramos uma taxa de transação [para unir os dois lados da aposta]. É uma questão de explicar ao governo e educar o público sobre como essa é uma alternativa melhor. Queremos trabalhar com o governo para conseguir trazer essa inovação ao país.

Há um prazo para começar as operações?

Ainda não sabemos. Obviamente, nós ficaríamos contentes de começar pequenos em termos de tipos de contrato permitidos e, conforme formos ganhando confiança, trabalhar mais com o governo e ampliar a atuação.

O que seria especial na operação do Brasil?

Poderíamos nos concentrar nos mercados que mais interessam ao país, como previsões sobre inflação, desemprego, eleições…

O Brasil será a primeira operação da Kalshi fora dos Estados Unidos?

Nós gostaríamos muito disso. Mas estamos também olhando para outros países na América Latina e na Ásia. Se eu fosse fazer um contrato em um mercado preditivo, eu diria que o Brasil provavelmente não vai ser o primeiro país em que vamos abrir uma operação.

Você vai com frequência ao Brasil?

Pelo menos uma vez por ano, em geral no fim do ano. E tento ir mais uma ou duas vezes porque meus pais ainda moram lá, em Niterói.

O que um país lucra com a entrada de um mercado preditivo?

O aspecto mais importante de um mercado preditivo são os dados de previsão que podem ser extraídos dele. [Estudos dos anos 1980 consideraram as apostas em mercados como um meio mais preciso de fazer previsões do que a opinião de especialistas.] Isso é ainda mais verdadeiro em países em que a economia é mais volátil. O melhor que os mercados preditivos podem fazer por qualquer país é fornecer acesso a boas previsões.

Recentemente foi noticiado que a Meta está trabalhando para criar seu próprio mercado preditivo. Essa competição de um gigante da tecnologia assusta?

Na verdade nós gostamos de concorrência. Ela só prova que o mercado está crescendo e é importante. Além do mais, é bom para o consumidor. Se você tiver competidores legais, regulados, cada um vai puxar o outro para cima. Nós também gostamos muito de fazer parcerias, já fizemos muitas e continuamos a explorar essas possibilidades. Mas, se for para competir, não tem problema. Já competimos com várias companhias grandes e acho que acabamos na frente delas. Então, não estamos preocupados.

Também se fala bastante numa próxima rodada de investimentos e em uma abertura de capital. Quais são os planos?

Neste momento nós estamos superfocados em produto e em crescer o negócio de perpetual futures [contratos em que você investe na direção do preço de um ativo sem ter de comprá-lo; por exemplo, em vez de adquirir uma criptomoeda, você toma uma posição sobre se o preço dela vai subir ou cair] e também nossos mercados preditivos.

Vocês consideram vender a companhia, em vez de fazer um IPO (oferta pública de ações)?

Sempre estamos dispostos a ouvir propostas e temos a cabeça aberta para diferentes caminhos, mas acreditamos que a Kalshi vai ser gigantesca e, você sabe, nós queremos estar com ela, queremos ver quão grande ela vai ficar.

Desde o começo do ano vocês avançaram bastante no mercado corporativo, em que as empresas investem em contratos para se precaver de riscos do negócio. Quanto da receita vem do mercado individual e quanto vem do corporativo?

Nós não olhamos muito para os números absolutos, prestamos mais atenção na taxa de crescimento. E o mercado institucional tem uma taxa muito, muito, muito alta. Claro que o negócio central é o varejo, os contratos individuais, mas o lado das empresas está crescendo demais e, para nós, principalmente neste começo, o objetivo é aprender e construir o melhor produto que a gente puder. Mas os dois lados do nosso negócio estão crescendo acima das expectativas.

O varejo foi nosso primeiro passo e nós conseguimos fazê-lo crescer bastante e agora estamos trabalhando vários outros mercados, mas não queremos substituir o varejo. Nós queremos todos. Nós brincamos internamente que, qualquer inovação financeira que aconteça nos próximos 10 a 20 anos, nós precisamos ser líderes ou um segundo lugar muito perto do primeiro. Trazer os perpetual futures para os Estados Unidos foi semelhante a quando pensamos em trazer os mercados preditivos para cá. E isso está crescendo bem rápido.

Para terminar: quais são suas prioridades neste ano?

Como a empresa está crescendo muito, ela precisa de mim até mais do que antes. Então, uma prioridade é conseguir ter tempo para estar com minha família, meus amigos, meu marido; e ao mesmo tempo dar tudo o que posso para a empresa. Mas ficar mais ocupada acaba fazendo você priorizar melhor as coisas, porque você passa menos tempo no Instagram e mais tempo com o que realmente importa.

Que conselho daria a alguém que está começando a carreira?

Acreditar em você, acreditar que pode fazer. Acreditar que você é igual a todas as outras pessoas que foram muito bem-sucedidas, e portanto você também pode ser muito bem-sucedida.

*Reportagem publicada na edição 143 da revista Forbes, em julho de 2026.

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