Aos 30 anos, a tenista Bia Haddad decidiu pausar a carreira de atleta por pelo menos seis meses. “Vou esperar ter certeza absoluta de que estou pronta para voltar, de corpo e mente. Quando eu tiver certeza, eu volto. Não vou voltar pela metade”, afirmou durante painel mediado pela jornalista Ana Paula Padrão, em evento promovido pelo Wellhub nesta quarta-feira (2).
A brasileira está nas quadras desde os 5 anos e compete profissionalmente desde os 14. “Faz mais de 15 anos que saio de casa e viajo cerca de 35 semanas (9 meses) por ano, abrindo mão do Natal, do meu aniversário, da Páscoa e de estar com as pessoas que amo”, diz. “O preço que paguei pelo tênis é muito duro, e os últimos meses tinham sido difíceis pela cobrança e expectativa sobre o meu potencial.”
A atleta, que viveu seu ápice em 2023 ao chegar à semifinal de Roland Garros e alcançar a 10ª posição mundial — feito inédito para uma brasileira em simples na Era Aberta —, viu o cenário mudar recentemente. O afastamento, anunciado em agosto nas redes sociais, foi amadurecido após uma temporada turbulenta: Bia disputou 19 partidas em 2026 e venceu apenas quatro. Sua última participação foi em Wimbledon, quando perdeu na primeira rodada para a uzbeque Maria Timofeeva.
“Tentei aguentar pagando o preço, mas comecei a ter crises na quadra em Doha e em Seul. Fora a saturação extrema das viagens, de fazer e desfazer malas, eu não conseguia mais desfrutar do processo”, conta.
Apesar do desgaste, oficializar o distanciamento foi um processo difícil. “Achei que estaria sendo injusta com todas as pessoas que me ajudaram a chegar até aqui, mas vi que seria injusta comigo mesma se não parasse. Quando fiz a escolha, me senti muito mais leve.”
Ela também ressalta o peso do gênero na pressão externa. “Vão julgar se você joga muito, se você descansa, se é a número 10 ou se deveria ser a 9. Já que vão julgar de qualquer forma — e por ser mulher, julgam mais ainda —, foquei no que eu queria.”
Mas Bia também reconhece sua condição de poder escolher dar um passo para trás. “Tenho consciência de que cheguei a um ponto onde tenho o privilégio de parar nesse momento. A saúde vem primeiro, mas tem gente que sai de casa mal para trabalhar porque precisa pagar as contas. Sou muito grata por poder fazer isso por mim.”
A vida fora das quadras
Desde o início do período de afastamento, a tenista tem aproveitado o tempo livre para resgatar o lado humano por trás da raquete. “Estou usando meu tempo para fazer coisas que não tinha oportunidade, como uma aula de cerâmica, ou jogar baralho com a minha avó”, diz. “Pela primeira vez, não tenho obrigações ditando os meus sentimentos. Saí daquele looping de pensar muito mais no externo do que no interno.”
A rotina agora inclui pilates, fisioterapia, ginástica sem impacto e os preparativos para o seu casamento na metade do ano que vem com o neurocirurgião Alex Daoud. “Também mantenho meu cuidado com o psiquiatra e a parte mental. É o momento em que consigo aprofundar questões pessoais e não ser apenas a ‘Bia tenista’.”
Contudo, a nova fase traz seus próprios desafios para quem sempre viveu sob cronogramas rígidos. “Não sou o tipo de pessoa que consegue ficar horas no sofá assistindo à Netflix. Estou reaprendendo a viver sem obrigações. O meu planejamento agora é não ter planejamento.”
O retorno de Bia Haddad ao tênis
Bia projetou uma data média de retorno para o início de 2027, mas garante que vai respeitar seu tempo. Quando a vontade de jogar aparece, ela conversa com a equipe médica, distrai a mente e vai devagar. “Tênis é muito parecido com andar de bicicleta. Quando você aprende, não vai desaprender. O problema dos meus últimos meses não era a técnica ou o meu saque, era muito mais uma questão interna.”
Para a retomada, o objetivo principal é focar na gestão das próprias emoções. “Sou muito acelerada e ansiosa. Esse respiro vai me ajudar a voltar com mais calma. Em vez de agir só na euforia, ir sacar que nem louca depois de perder um jogo, quero conseguir refletir e performar melhor.”
O distanciamento das competições já vem dando resultado. Não à toa, sua própria métrica de vitória mudou: “Sucesso hoje é acordar, passar o dia dividindo momentos com as pessoas que amo e terminar sabendo que dei o meu melhor. Antes, eu me comparava muito pela raquete; hoje, é buscar a minha melhor versão.”