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Como o Vício em Vídeos Curtos Está Reprogramando Seu Cérebro

Deslizar sem parar pela tela pode parecer inofensivo, mas novas pesquisas mostram que isso está afetando suas decisões e seu jeito de pensar

6 min

Hoje em dia, quase tudo está disponível em formato rápido e fragmentado, de receitas e dicas de cuidados com a pele a atualizações de notícias.

Você pode se pegar deslizando por reels, tocando em stories ou rolando feeds infinitos, muitas vezes sem nem perceber para onde seu tempo foi. Isso acontece com muitos de nós, porque é assim que o conteúdo está sendo projetado agora: rápido e impossível de ignorar.

Na verdade, você provavelmente já notou como o conteúdo se tornou mais curto, direto e viciante. De repente, quase todas as indústrias estão tentando lucrar com esse vício crescente em conteúdo rápido. Agora, o objetivo é prender sua atenção nos primeiros três segundos ou perdê-la para sempre.

Já existem até conteúdos ensinando como criar “ganchos” ou seguir ciclos de tendências que surgem e desaparecem em questão de dias.

Em 2024, “brain rot” (deterioração cerebral) foi nomeada a Palavra do Ano pela Oxford University Press. O termo foi popularizado pela Geração Z para descrever a névoa mental e o declínio cognitivo associados à rolagem infinita.

Especialistas agora alertam que esse hábito, frequentemente tratado como “só assistir a vídeos”, está realmente mudando a forma como nossos cérebros funcionam. Ele está diminuindo nossa capacidade de foco, enfraquecendo a memória e até mesmo prejudicando a tomada de decisões.

Esses alertas são sustentados por novas pesquisas publicadas na revista NeuroImage. Os pesquisadores realizaram um estudo para examinar os efeitos psicológicos e neurológicos do vício em vídeos curtos. Eles usaram uma combinação de análise comportamental, imagens cerebrais e modelos computacionais de tomada de decisão.

O estudo analisou como o consumo excessivo de vídeos curtos pode influenciar a forma como o cérebro processa recompensas, riscos e escolhas.

Com base nessa pesquisa, aqui estão duas maneiras pelas quais o vício em vídeos curtos muda o seu cérebro:

1. Reduz sua sensibilidade às consequências reais

Uma das formas pelas quais o vício em vídeos curtos afeta você é prejudicando sua aversão à perda — a tendência de sentir mais intensamente a dor de perder algo do que o prazer de ganhar algo de valor equivalente.

Na tomada de decisão, essa comparação funciona como um filtro protetor, que ajuda a evitar riscos. Ela faz você pensar duas vezes antes de tomar decisões que possam ter consequências negativas. No entanto, quando essa sensibilidade à perda é reduzida, há maior propensão a tomar decisões impulsivas ou arriscadas, sem considerar plenamente os efeitos.

No estudo da NeuroImage, os pesquisadores descobriram que pessoas com sintomas mais altos de vício em vídeos curtos apresentavam níveis mais baixos de aversão à perda.

Em outras palavras, quanto mais alguém estava viciado em vídeos curtos, menos sensível era às perdas potenciais. Isso afetava sua tomada de decisão, tornando-a mais impulsionada pela recompensa, mesmo quando os riscos eram altos.

As imagens cerebrais do estudo revelaram que essas pessoas tinham menor atividade no precuneus, uma região do cérebro associada à reflexão e à avaliação de possíveis resultados.

Quando essa área está menos ativa, o cérebro não processa totalmente o que está em jogo, especialmente quando há uma possível recompensa envolvida. Isso torna mais fácil ignorar os riscos.

Resumidamente, se a perda deixa de parecer algo importante, suas decisões se tornam distorcidas. Da próxima vez que você estiver preso no scroll infinito, pergunte-se: você está realmente disposto a treinar seu cérebro para correr atrás de recompensas à custa do bom senso?

2. Diminui a velocidade de processamento das informações

Outro efeito comum do “doomscrolling” ou do vício em vídeos curtos é a sensação crescente de névoa mental, dificuldade de concentração ou até dificuldade em tomar decisões simples sem pensar demais.

No estudo da NeuroImage, os pesquisadores mostraram que o vício em vídeos curtos pode literalmente desacelerar a forma como o cérebro processa informações. Eles utilizaram um modelo cognitivo chamado Modelo de Difusão de Deriva (Drift Diffusion Model), que mede a velocidade com que o cérebro coleta e processa evidências antes de tomar uma decisão.

Quanto maior a “taxa de deriva”, mais rápidas e confiantes são as decisões. Uma taxa menor, por outro lado, significa raciocínio mais lento e mais esforço mental para chegar a conclusões, mesmo que simples.

Os pesquisadores constataram que pessoas com níveis mais altos de vício em vídeos curtos tinham taxas de deriva significativamente mais baixas, o que indica que seus cérebros acumulavam informações mais lentamente, tornando a tomada de decisões mais difícil e ineficiente.

Esse padrão também se refletiu na baixa atividade do precuneus, que também está envolvido no foco mental, reflexão e avaliação de opções. Quando essa área está pouco ativa, o cérebro processa informações de forma mais lenta. Até mesmo decisões simples se tornam mentalmente cansativas.

Se você tem se sentido mentalmente confuso, sobrecarregado por decisões do dia a dia ou com dificuldade de se concentrar por mais de alguns minutos, lembre-se: isso pode não ser apenas falta de força de vontade. Pode ser o seu cérebro se adaptando à velocidade do conteúdo que você consome.

Redescobrindo a Beleza de Não Fazer Nada

Na busca por estímulo constante, talvez você não perceba que ficar entediado nem sempre é algo ruim. Na verdade, “tempo sem sentido” pode ser benéfico, e às vezes, necessário.

Quando você está entediado, sua mente finalmente tem a chance de divagar, explorar ideias que não surgem no meio da enxurrada de distrações. Isso pode ajudar a aumentar a criatividade, melhorar a resolução de problemas e promover um pensamento mais profundo. É no silêncio que você escuta melhor a si mesmo.

Você não precisa parar de consumir conteúdo por completo, mas pode aprender a se relacionar com ele de forma mais intencional. Pensar conscientemente sobre o que você está vendo, e por que, ajuda a usar o conteúdo como uma ferramenta, em vez de ser consumido por ele.

Antes de abrir um aplicativo em busca de um “pico”, pergunte-se: “Qual o meu motivo para entrar aqui agora?” Reflita se você está buscando entretenimento, inspiração, conexão — ou apenas tentando evitar o silêncio.

Ao mesmo tempo, aprenda a valorizar os momentos sem propósito definido. Crie o hábito de permitir-se sentir tédio intencionalmente. Encontre formas de ficar longe da tela, como dar uma caminhada sem o celular, olhar pela janela ou apenas sentar-se em silêncio.

Esses momentos, que parecem vazios, permitem que sua mente se reorganize, reflita e retome seu ritmo natural.

* Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.

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