Por muitos anos, o tabagismo foi isoladamente o maior fator de risco para o desenvolvimento de câncer. Ele ainda é extremamente relevante, tanto no Brasil quanto no mundo, principalmente porque, em alguns países, o número de fumantes voltou a crescer após anos de queda. No entanto, o cenário de risco mudou. Hoje, existe uma nova tríade de causas que, dependendo do país, já empata ou até supera o tabagismo como principal fonte de risco: obesidade, sedentarismo e dietas inadequadas.
Essa combinação de excesso de peso, falta de atividade física regular e alimentação pobre em nutrientes vem alimentando uma verdadeira epidemia de sobrepeso e obesidade em todo o mundo, inclusive no Brasil. Estima-se que o tabagismo e essa tríade de fatores estejam juntos associados a pelo menos metade dos casos de câncer relacionados a causas ambientais. Em alguns levantamentos, esse percentual chega a 60%.
Mas os fatores de risco não param por aí. O consumo excessivo de álcool também está diretamente relacionado ao aumento da incidência de vários tipos de câncer, incluindo os de boca, fígado, esôfago e mama. A exposição prolongada ao sol sem proteção adequada é um dos principais responsáveis pelos cânceres de pele, que são os mais frequentes no Brasil. A poluição ambiental e a falta de vacinação contra vírus oncogênicos, como o HPV e o vírus da hepatite B, também são causas conhecidas e evitáveis.
Outro alerta importante vem do aumento expressivo do uso de cigarros eletrônicos entre os adolescentes brasileiros. Uma pesquisa divulgada recentemente pelo Ministério da Saúde em parceria com o IBGE mostra que 1 em cada 9 adolescentes entre 13 e 17 anos já faz uso de dispositivos eletrônicos para fumar. Isso representa 11% dessa população, um crescimento significativo em relação aos anos anteriores.
O cigarro eletrônico, embora muitas vezes vendido como uma alternativa menos prejudicial, contém nicotina e diversas outras substâncias tóxicas que, a longo prazo, podem causar danos importantes ao sistema respiratório e aumentar o risco de desenvolvimento de cânceres. Além disso, há evidências de que o uso desses dispositivos pode levar ao consumo do cigarro convencional, ampliando ainda mais os riscos à saúde.
É fundamental reforçar que, apesar da influência de fatores genéticos, a maioria dos casos de câncer está relacionada a causas ambientais e comportamentais. A predisposição hereditária responde por menos de 10 a 15% dos tumores. Isso significa que grande parte da prevenção está, sim, ao nosso alcance. Parar de fumar, adotar uma alimentação equilibrada, manter um peso saudável, praticar atividades físicas regularmente, reduzir o consumo de álcool, usar protetor solar, vacinar-se contra HPV e hepatite B e evitar a exposição a poluentes são atitudes que fazem diferença.
Promover a conscientização sobre esses fatores de risco e incentivar políticas públicas de prevenção são passos essenciais para reduzir o impacto do câncer em nossa sociedade. Isso inclui, agora, um olhar atento e ações firmes para frear o crescimento do uso de cigarros eletrônicos entre os jovens brasileiros.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
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