Quando falamos em controle do câncer, normalmente pensamos em prevenção, diagnóstico precoce, acesso aos tratamentos mais modernos e avanços científicos capazes de aumentar as chances de cura e controle da doença. São discussões fundamentais que costumo dividir com os leitores neste espaço, e que precisam permanecer no centro do debate.
Mas existe uma dimensão da jornada do paciente que ainda recebe menos atenção do que deveria: o impacto financeiro da doença.
É justamente para ampliar essa discussão que o Instituto Vencer o Câncer lança o livro Toxicidade Financeira: Entre a Vida e a Dívida, escrito pela economista Gabriela Tannus. Tive o privilégio de assinar o prefácio da obra, que aborda um tema cada vez mais relevante, mas ainda pouco conhecido pela sociedade, como as consequências econômicas que acompanham o diagnóstico e o tratamento do câncer.
Embora o câncer seja, antes de tudo, uma questão de saúde, seus efeitos vão muito além do aspecto clínico. A doença interfere na rotina das famílias, altera a capacidade de trabalho, gera gastos inesperados e, frequentemente, impõe desafios financeiros em um momento já marcado pela insegurança e pela vulnerabilidade.
Consultas, exames, medicamentos, deslocamentos, alimentação especial, cuidadores e adaptações na rotina representam apenas parte dessa conta. Em muitos casos, o paciente ou um familiar precisa reduzir a jornada de trabalho ou até mesmo se afastar completamente das atividades profissionais, o que impacta diretamente a renda da família.
E esse conjunto de fatores é conhecido como toxicidade financeira.
O termo pode parecer técnico, mas descreve uma realidade bastante concreta. Estudos internacionais mostram que a toxicidade financeira pode atingir uma parcela significativa dos pacientes com câncer, especialmente em países de baixa e média renda. No Brasil, pesquisas também apontam que dificuldades financeiras relacionadas ao tratamento fazem parte da experiência de muitos pacientes, inclusive daqueles atendidos na saúde suplementar.
O mais importante é compreender que não estamos falando apenas de dinheiro. A toxicidade financeira também afeta a qualidade de vida, gera ansiedade, aumenta o sofrimento emocional e pode influenciar decisões relacionadas ao próprio tratamento. Quando uma família passa a conviver com a preocupação constante de manter sua estabilidade econômica, o peso da doença se torna ainda maior.
Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, essa discussão ganha relevância adicional. Por isso, falar sobre toxicidade financeira é falar sobre equidade.
É reconhecer que o cuidado integral não se limita à prescrição de medicamentos ou à realização de procedimentos. Cuidar também significa compreender os desafios concretos enfrentados pelos pacientes e buscar formas de reduzir obstáculos que possam comprometer sua jornada.

O livro Vencer o Câncer – Toxicidade Financeira: Entre a Vida e a Dívida está disponível para download gratuito no portal do Instituto Vencer o Câncer.
*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.