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Fugindo da Realidade: O Que É o ‘Efeito Avestruz’ e Como Ele te Afeta

Estudo revela por que evitamos informações desconfortáveis e como esse hábito afeta nossas decisões e nosso bem-estar

6 min

Existe uma ideia antiga de que os avestruzes gostam de “enterrar” a cabeça na areia quando percebem algum perigo se aproximando. Supostamente, a lógica por trás disso é: se eles não conseguem ver a ameaça, então ela tecnicamente não existe.

Essa ideia, por mais divertida que seja, já foi há muito tempo desmentida. Avestruzes não fazem isso, mas, ironicamente, nós, humanos, fazemos com frequência.

Provavelmente, você consegue lembrar de uma ocasião em que escolheu deliberadamente não saber de algo. Alguns de nós evitam conferir o saldo bancário depois de um fim de semana de gastos. Outros ignoram suspeitas persistentes sobre a fidelidade do parceiro. Há quem passe rapidamente por manchetes pesadas sobre guerras ou mudanças climáticas.

Esse pensamento de “quanto menos eu souber, melhor” é surpreendentemente comum na vida adulta. O que é menos óbvio, porém, é de onde vem esse comportamento. Afinal, crianças são notoriamente (e até irritantemente) curiosas. Estão sempre fazendo perguntas e querendo saber mais.

Então, em que momento deixamos essa curiosidade incessante da infância para adotar essa evasão seletiva típica dos adultos? E, mais importante ainda, por quê?

O Estudo: Quando Começamos a Evitar Saber?

Um estudo publicado em junho de 2025 na revista Psychological Science, liderado pela pesquisadora Radhika Santhanagopalan, da Universidade de Chicago, buscou responder exatamente a essa pergunta. O título do estudo? “Tornando-se um Avestruz”.

O Que É a “Evitação de Informação”?

Como Santhanagopalan explicou em entrevista:

“Adultos evitam informações em muitas áreas importantes da vida.”
“Isso parece inconsistente com o que sabemos sobre as crianças, que demonstram altos níveis de curiosidade e desejo de aprender.”

No contexto do estudo, evitação de informação não significa estar um pouco distraído ou desinteressado. Também não se trata de esquecer de procurar algo ou ser levemente apático a um assunto chato.

Trata-se, na verdade, de uma decisão ativa de se afastar de informações que são gratuitas, facilmente acessíveis e — o mais importante — altamente relevantes para a pessoa.

Muitos diriam rapidamente que jamais agiriam com esse tipo de ignorância intencional. Mas, na prática, esse comportamento é comum e motivado por vários fatores.

Por exemplo:

  • Você pode adiar um exame médico por medo de receber um diagnóstico ruim.
  • Pode evitar marcar uma autoavaliação no trabalho para não confrontar possíveis fraquezas.
  • Pode até ignorar manchetes preocupantes sobre o seu candidato favorito se isso ameaçar sua visão de mundo.

Em todos esses casos, a informação está disponível. E, às vezes, nem seria algo tão assustador assim. Mas, em vez de encarar o possível desconforto, decidimos que é melhor não saber.

De Onde Vem a Evitação de Informação?

Para rastrear a origem dessa tendência de “enterrar a cabeça na areia”, os pesquisadores estudaram crianças de 5 a 10 anos, colocando-as em situações em que podiam escolher entre buscar ou evitar informações.

Os resultados mostraram uma mudança de comportamento conforme a idade aumentava:

Crianças mais novas eram extremamente curiosas, mesmo que, depois, tomassem decisões egoístas. Em um experimento, por exemplo, elas podiam ver o valor da recompensa de um parceiro em um jogo de divisão. As crianças queriam saber, mas ainda assim escolhiam o que mais as beneficiava.

Crianças mais velhas, por outro lado, começaram a evitar olhar a recompensa do parceiro, mas ainda assim agiam de forma egoísta.

Santhanagopalan explicou:

“À medida que as crianças crescem, elas se preocupam mais com a justiça — ou, pelo menos, com a aparência de serem justas.”
“A ‘zona cinzenta moral’ é uma estratégia para lidar com essa tensão; ao evitar informações, elas conseguem manter a ilusão de estarem sendo justas.”

Por Que “Não Saber” Parece Mais Seguro (Mas Não É)

Por que, então, crianças — e depois adultos — escolhem a ignorância mesmo quando a informação está ao alcance?

À primeira vista, pode parecer que simplesmente perdemos a curiosidade infantil com o tempo. Mas provavelmente ela ainda está dentro de nós. O que acontece é que, ao amadurecer, passamos a equilibrar essa curiosidade com nossos valores.

O estudo de 2025 identificou três principais motivações para evitar informações:

1. Proteger-se de emoções negativas

Crianças (e ainda mais os adultos) evitam informações se acham que aquilo vai fazê-las se sentirem mal. No terceiro experimento do estudo, até mesmo crianças naturalmente curiosas evitaram certas informações quando foram incentivadas a “proteger suas emoções”.

2. Preservar a autoimagem

Evitar verdades desconfortáveis permite manter uma visão interna de que somos justos, competentes ou agradáveis. No segundo experimento, as crianças mais velhas queriam ser vistas como justas, mesmo quando agiam egoistamente.

3. Agir por interesse próprio

Evitar informação torna mais fácil agir de forma egoísta sem culpa. Santhanagopalan observa que adultos fazem isso o tempo todo. Consumidores escolhem ignorar as práticas éticas de suas marcas favoritas. Empresas ignoram os impactos ambientais de suas cadeias de suprimentos.

“Essas atitudes nos permitem vestir um véu protetor de ignorância enquanto continuamos a agir por interesse próprio.”

As Consequências de “Não Saber”

Evitar informações pode parecer inofensivo ou até adaptativo. Afinal, tanto adultos quanto crianças conseguem se blindar de estresse e incertezas.

Mas, com o tempo, esses pequenos atos de “não querer saber” se acumulam.

Ignorar um exame médico hoje pode aliviar a ansiedade momentânea, mas pode ter consequências sérias no futuro.

Evitar conversas difíceis pode evitar brigas agora, mas te manterá preso em relacionamentos ruins ou até prejudiciais.

Nada muda se nada mudar. Como podemos melhorar se constantemente fechamos os olhos para o que nos incomoda?

Santhanagopalan alerta:

“A evitação na infância pode abrir caminho para desafios sociais mais amplos.”
“Ao evitar visões contrárias, quase como se estivéssemos nos treinando a olhar para o outro lado, criamos hábitos de evasão que podem se transformar em rigidez ideológica.”

O que começa como uma estratégia infantil para evitar o desconforto ou manter a aparência de justiça pode, com o tempo, se tornar a maneira de um adulto se proteger de verdades difíceis demais para encarar.

Por isso, a autora chama isso de um “paradoxo do desenvolvimento”: começamos a vida como exploradores curiosos, ávidos por aprender tudo. Mas, em algum momento, aprendemos a enterrar a cabeça na areia.

Por mais confortável que seja viver nessa “oblivion” arenosa, esse hábito molda as escolhas,  e aprofunda os pontos cegos, que acabam determinando o rumo da nossa vida.

* Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.

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