Se você já se viu diante dos destroços de mais um relacionamento difícil pensando “Por que isso sempre acontece comigo?”, essa é exatamente a pergunta certa. Não porque haja algo de errado com você, mas porque o padrão em si está tentando lhe dizer algo.
Muitas pessoas, ao perceberem temas recorrentes em seus relacionamentos, culpam apenas os parceiros: alguém ansioso, emocionalmente indisponível ou sempre controlador. Às vezes isso faz sentido. Mas quando a mesma história se repete com pessoas diferentes, em fases diferentes da vida, vale a pena olhar para dentro com curiosidade genuína.
Pesquisas psicológicas são claras: relacionamentos complicados raramente surgem do nada. Eles costumam seguir roteiros invisíveis, escritos muito antes de escolhermos nosso primeiro parceiro.
1- Seu estilo de apego pode levá-lo a relações complicadas
A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e expandida por Mary Ainsworth, propõe que os vínculos emocionais formados com nossos cuidadores na infância servem como modelos para nossos relacionamentos adultos.
- Apego seguro: surge quando os cuidadores foram consistentes, acolhedores e disponíveis.
- Apego inseguro: pode ser ansioso, evitativo ou uma combinação de ambos.
Pessoas com apego inseguro não apenas sentem mais ansiedade ou distanciamento, elas frequentemente têm mais dificuldade em regular essas emoções.
Como isso se manifesta:
Apego ansioso: busca constante por validação, medo de rejeição, necessidade intensa de proximidade.
Apego evitativo: desconforto com intimidade, valorização extrema da independência, tendência a se afastar emocionalmente.
A dinâmica mais comum e desgastante ocorre quando pessoas ansiosas e evitativas se atraem. Um busca proximidade, o outro se distancia, criando ciclos repetitivos de frustração, desgaste e reconciliação.
O problema é que, por dentro, isso pode parecer paixão ou química intensa, quando na verdade pode ser apenas familiaridade emocional.
2- Esquemas emocionais antigos moldam suas escolhas
Além do apego, crenças profundas desenvolvidas na infância, chamadas de esquemas desadaptativos precoces, influenciam como enxergamos o amor.
Exemplos comuns:
- Privação emocional: “Ninguém realmente atenderá minhas necessidades.”
- Abandono: “Quem eu amo sempre vai me deixar.”
- Desconfiança: “Se eu baixar a guarda, vou me machucar.”
Esses esquemas funcionam como filtros inconscientes. Eles fazem com que experiências neutras ou pequenas falhas sejam interpretadas como confirmação de antigas feridas.
Por exemplo, alguém com esquema de abandono pode interpretar um atraso na resposta de mensagem como sinal de rejeição.
O impacto: esses padrões não afetam apenas quem os carrega, mas também o parceiro e toda a dinâmica relacional, reduzindo satisfação e ampliando conflitos.
A boa notícia: padrões podem ser mudados
Tanto estilos de apego quanto esquemas emocionais podem ser transformados.
Isso geralmente acontece por meio de:
- Autoconhecimento
- Terapia
- Comunicação intencional
- Relações emocionalmente seguras e consistentes
O ponto central
Relacionamentos são naturalmente complexos, mas existe uma diferença entre:
- Complexidade saudável: que aprofunda conexão
- Complexidade repetitiva: que apenas revive dores antigas
Se seus relacionamentos seguem um padrão, esse padrão provavelmente tem raízes psicológicas profundas. Isso não é uma sentença definitiva. É um ponto de partida.
O roteiro pode ser reescrito, mas apenas quando você reconhece que estava vivendo segundo um script antigo.
*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com