A Austrália legalizou a cannabis medicinal há quase uma década, mas o país ainda não aprovou um único medicamento de Canabidiol (CBD) para dores comuns. Mas Peter Comerford acredita ter encontrado uma maneira de mudar isso. Sua empresa, a Promethean BioPharma, sediada em Sydney, desenvolveu um comprimido de CBD sem THC que, segundo ela, leva para a corrente sanguínea uma quantidade muito maior do composto da cannabis do que os óleos convencionais de CBD. A empresa mantém parcerias que cultivam a cannabis na América do Norte e no Canadá para o fornecimento de matéria-prima.
A empresa anunciou no final do mês de setembro que concluiu um ensaio clínico com 155 pessoas e que, apesar dos resultados abaixo do esperado, apresentou o medicamento ao órgão regulador australiano de medicamentos, a Therapeutic Goods Administration, TGA, solicitando seu registro. Se for aprovado, poderá se tornar o primeiro medicamento de CBD registrado na Austrália para dor, dando à empresa acesso a um mercado australiano de 200 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 730 milhões), e potencialmente o primeiro comprimido de CBD sob prescrição para dor desse tipo no mundo.
Comerford acredita que isso marca o momento em que uma indústria obcecada pela planta em si finalmente começa a tratar seus componentes químicos como produtos farmacêuticos. Um estudo da Universidade de Sydney realizado neste ano constatou que o CBD reduziu a dor crônica em 14% entre pessoas que sofriam de lesões nervosas. Mas, para um grupo mais amplo de casos de dor, uma revisão científica de 2022 encontrou “evidências mínimas” em favor de medicamentos contendo apenas CBD.
“Todo mundo na cannabis acredita que a planta é especial”, diz ele à Forbes Australia. “Quando você quer que alguma coisa seja um medicamento, precisa transformá la em um produto farmacêutico. Você não pode simplesmente cortar a parte de cima, espremer o óleo e dizer: isso é remédio. Isso precisa amadurecer.”
O mercado legal de cannabis da Austrália foi estimado em US$ 877 milhões (R$ 4,5 bilhões) pela Fortune Business Insights, dos quais 56% correspondiam a produtos de CBD. Comerford tem uma estimativa mais conservadora, de 400 milhões de dólares australianos (R$ 1,45 bilhão) para o mercado de CBD, dos quais metade correspondia a prescrições para alívio da dor.
Ainda assim, as evidências sobre produtos de CBD são variadas. Os próprios dados do ensaio da Promethean refletem essa realidade complexa: embora o comprimido não tenha superado o placebo no resultado geral, cerca de 10% dos participantes se destacaram como “respondedores elevados”, apresentando alívio significativo e duradouro da dor desde a primeira semana.
Fazer a ponte entre esse ceticismo científico e a demanda dos pacientes ficou a cargo de um homem que entrou no setor com o olhar de um engenheiro voltado para resolver gargalos.
De Dublin a Sydney e além
Comerford era engenheiro e acabou entrando no ramo de melhorar o funcionamento de hospitais em sua Dublin natal. “Quando você tem uma cabeça de engenheiro, começa pelo lugar certo, que são os médicos, conversa com eles e descobre do que precisam e qual é a melhor maneira de apresentar os pacientes de uma forma que permita atendê los rapidamente e encaminhá los para a etapa seguinte. Depois, você identifica qual é o próximo obstáculo e elimina esse obstáculo.”
Ele se mudou com a família para a Austrália em 2011, enquanto a Irlanda sofria os efeitos devastadores da crise financeira global. Ele era diretor de cuidados integrados do St Vincent’s Hospital, em Sydney, quando, em 2015, pediram que autorizasse um ensaio com cannabis em cuidados paliativos.
Ele se recusou a assinar. O médico que teve o pedido rejeitado perguntou se Comerford sabia alguma coisa sobre cannabis como medicamento. “Não, exceto pelo fato de que, além do pronto socorro, da saúde mental e de todo o resto, eu também administro o Centro de Dependência de Drogas e Álcool, e nós não tentamos manter as drogas fora do hospital?”
“Dor é uma coisa muito difícil para se conduzir um ensaio. Você sempre tem um efeito placebo na dor… mas encontramos um sinal muito claro de que, em certos tipos de respondedores, eles reagiam de maneira realmente forte.”

O médico de cuidados paliativos deu início à formação de Comerford sobre o assunto. “Uma das coisas horríveis do câncer é a perda de apetite. Você vai ficando cada vez mais magro, e o hálito começa a ficar ruim. E ele estava cansado de ver aquilo e disse: ‘Bem, o THC dá fome, talvez eu faça um ensaio clínico em que dou THC a pessoas que estão morrendo.’
“E o poder que os médicos de cuidados paliativos têm é que o paciente vai morrer. Então, nada que eles façam pode ser pior. Foi isso que me convenceu. ‘Onde eu assino?'”
A ascensão dos cowboys
Pouco depois, Comerford deixou o St Vincent’s para assumir uma distribuidora farmacêutica, a Anspec. “Recebi uma ligação do Departamento de Saúde dizendo: ‘Legalizamos a cannabis medicinal, mas estamos preocupados porque alguém está cobrando preços muito altos e porque a cadeia de abastecimento pode sair do controle… Você nos ajudaria a tentar controlar isso?'”
“O então ministro federal da Saúde, Greg Hunt, estava determinado a ter cannabis medicinal aqui, mas sob controle pelo maior tempo possível”, diz Comerford. “E ajudamos a reduzir o preço, ajudamos a controlar a cadeia de abastecimento e a desenvolver os padrões de qualidade.”
Estima se que atualmente existam 6 mil médicos e profissionais de enfermagem habilitados a fornecer o medicamento, embora ele continue sem aprovação da TGA, exceto para esclerose múltipla e determinados transtornos convulsivos.
Todos eles acompanharam a ascensão de empresas de telessaúde do tipo cowboy, que prescreviam com liberdade excessiva. “Então nos afastamos completamente de tudo aquilo”, diz Comerford. A TGA publicou novas normas em 2021 para avançar no sentido de permitir que farmácias dispensassem produtos de cannabis.
Mas Comerford considerou baixa demais a dose diária máxima recomendada de canabidiol, CBD, estabelecida pelas novas regras, em 150 mg. O CBD interage com o sistema endocanabinoide, que ajuda a regular o sono, o apetite e o humor, sem se ligar diretamente aos receptores que provocam euforia. Portanto, embora não deixe ninguém sob efeito psicoativo, em grandes doses pode provocar sonolência.
Comerford sabia de quatro empresas que haviam fracassado em ensaios clínicos na dose de 150 mg, mas afirma ter sido incentivado pela TGA a analisar a questão. “Se a TGA acha que isso pode ser feito, deve existir alguma tecnologia por aí. E encontrei uma nanotecnologia usada para antibióticos, medicamentos contra o câncer e todo tipo de coisa. E pensei: ‘Bem, talvez possamos aplicar isso para aumentar enormemente a biodisponibilidade da cannabis e transformá la naquilo que o ministro queria’, que era fazer da Austrália a maior exportadora de cannabis medicinal do mundo.”
Apenas 4% do CBD presente no óleo de CBD é absorvido pelo organismo. Comerford encontrou na literatura científica, segundo ele remontando à década de 1940, uma nanotecnologia que prometia decompor o CBD em partículas minúsculas que pareciam um carboidrato. “O corpo gosta de carboidratos, então absorve os carboidratos.”
A nanotecnologia alcançou biodisponibilidade de 66%, segundo ele, e resultou no primeiro comprimido desse tipo de CBD no mundo. Com uma nova empresa já constituída, a TCann Pty Ltd, eles descobriram uma maneira de secar as nanopartículas de CBD e transformá las em um comprimido, em 2022, e avançaram com ele para um ensaio clínico de Fase 3, pulando os ensaios anteriores porque a segurança do CBD já havia sido comprovada.
O ensaio randomizado, duplo cego e controlado por placebo incluiu 155 pessoas que sofriam de dor leve a moderada e receberam o tratamento durante quatro semanas. Os resultados não foram publicados, mas Comerford afirma que, embora o grupo que recebeu CBD tenha apresentado resultado melhor, o benefício não alcançou significância estatística.
“Dor é uma coisa muito difícil para se conduzir um ensaio. Você sempre tem um efeito placebo na dor… mas encontramos um sinal muito claro de que, em determinados tipos de respondedores, eles reagiam de maneira realmente forte ao medicamento e muito rapidamente, enquanto o placebo, na mesma coorte, provocava uma resposta muito pequena na primeira semana, um pouquinho maior na segunda semana, um pouco maior na terceira e mais um pouco na quarta.
“Essa curva ascendente é uma curva clássica de placebo, porque alguém está consultando o médico e falando sobre a dor e provavelmente seguindo melhor o tratamento medicamentoso e caminhando um pouco mais.” Quando analisaram os efeitos adversos do medicamento, constataram redução da ansiedade, melhora do sono e melhora nas “atividades da vida diária”.
“Portanto, o fato de termos obtido esse sinal permite que procuremos a TGA e digamos: ‘Não podemos seguir pela parte de venda sem receita, a Schedule 3. Precisamos que vocês avaliem isso pela via de registro provisório.'”
A via provisória permite que a TGA registre um medicamento promissor com base em evidências clínicas preliminares, dando aos pacientes acesso ao produto enquanto a empresa reúne os dados adicionais necessários para o registro completo. No entanto, essa via costuma ser reservada para medicamentos destinados ao tratamento de condições graves ou que oferecem risco à vida. A empresa pretende realizar outro ensaio, mas estruturá lo de modo a levar em consideração o efeito placebo.
Limpando a mesa
Em todo o mundo, o mercado de CBD medicinal tinha previsão de alcançar US$ 24 bilhões neste ano (R$ 123,5 bilhões), segundo a Fortune Business Insights. Se a Promethean conseguir o registro na Austrália, isso abrirá enormes parcelas desse mercado para a empresa, afirma Comerford. “A Austrália tem acordos de reconhecimento mútuo com a Europa, o Reino Unido, o Canadá e a Ásia. Isso começa gradualmente a trazer essa nova geração de medicamentos para longe das formas centenárias de consumir esses produtos e para uma situação em que, bem, podemos de fato ter esses medicamentos em uma farmácia.
“Você vai ao médico, conversa com o médico, ele prescreve, ele controla, ele sabe a dose porque é um comprimido.” Ele calcula que a Promethean lançará formulações com diferentes percentuais de THC, o ingrediente que provoca o efeito psicoativo, o que permitiria tratar uma gama maior de doenças. “Mas lembrando que o THC também tem sua potência aumentada pela nanotecnologia. Então precisaríamos tomar muito, muito cuidado para ter bastante CBD e apenas um pouco de THC, para obter o benefício e não o efeito psicoativo.”
Em meio a tudo isso, existe um plano de negócios ainda mais audacioso. Perguntado sobre qual porcentagem do mercado de CBD acredita que a Promethean poderia conquistar, ele aponta 5%. “Mas existe uma pegadinha nisso para o restante do mercado”, diz ele. “Se um medicamento é registrado para uma indicação, por exemplo, CBD para dor, então nenhum medicamento não registrado que contenha CBD pode ser vendido para dor. Então, na prática, você imediatamente assume todo aquele mercado para aquela doença.”
“Na Austrália, no ano passado, foram prescritos 200 milhões de dólares australianos (R$ 727 milhões) em CBD. Portanto, embora eu diga 5% do mercado, se você conseguir registrá lo, na verdade assume todo o mercado de 200 milhões de dólares australianos (R$ 727 milhões).”
Comerford admite, no entanto, que sua barreira de proteção é pequena. “As duas verdadeiras barreiras são a vantagem de ser o primeiro a entrar e os resultados dos seus ensaios clínicos e do registro que você consegue. Portanto, registrar um novo medicamento cria uma barreira durante determinado período. Um pouco menor na Austrália do que nos Estados Unidos, mas a vantagem de ser o primeiro e o registro são as duas barreiras.”
A marca também. “E nós a chamamos de Promethean BioPharm por causa daquele personagem da mitologia grega, Prometeu. Ele teve pena dos seres humanos e de seu sofrimento e roubou o fogo dos deuses para entregá lo aos humanos e aliviar seu sofrimento.
“Como punição, os deuses o acorrentaram a uma rocha e uma ave arrancava seu fígado todos os dias. Depois, ele se recuperava durante a noite e tudo acontecia novamente no dia seguinte.” É aí que entra sua coragem como fundador, brinca ele.
Publicado originalmente na Forbes Austrália