O avanço das compras públicas de medicamentos à base de cannabis abre uma nova frente de negócios para a FarmaUSA. Apesar de ter nascida em solo americano, construindo sua operação em torno da importação de produtos para pacientes brasileiros, hoje porém, a empresa é inteiramente nacional. Sediada na capital paulista, ela produz grande parte de seus medicamentos e está consolidando seu nome em disputas de licitações para distribuição de medicamentos à base de canabidióis na rede pública de saúde.
Com o respaldo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a empresa venceu uma licitação do governo paulista para o fornecimento de 43 mil frascos, em um negócio estimado em cerca de R$ 7 milhões. “Nessa licitação, nós fomos a empresa ganhadora exclusiva”, diz Leandro Beltrão, 45 anos, CEO da companhia. “Essa entrada forte na venda para órgãos públicos e canal farma é inédito e aconteceu agora em 2026.”
O sucesso da primeira licitação resvala em outros 112 processos e registros de preços que ainda estão em andamento. “Somando as atas estaduais e municipais, temos um valor estimado de R$ 16 milhões em licitações ganhas”, diz Leandro. O executivo, juntamente com seu primo e sócio, Djalma Beltrão, 38 anos, estão à frente dessa mudança da empresa. O plano é levar o faturamento da companhia dos R$ 57 milhões registrados em 2025 para R$ 100 milhões a partir de 2028. Este ano, a estimativa é de uma receita de R$ 64 milhões.
A expansão dos negócios ocorre após um investimento de R$ 46,2 milhões, feitos de 2021 para cá, na implantação de uma indústria farmacêutica na zona Sul de São Paulo. A capacidade instalada pode produzir um pouco mais de 1 milhão de frascos de medicamentos em apenas um mês, mas, atualmente, a produção nem chega perto deste teto. “O mercado total de cannabis no Brasil hoje não consome 100 mil unidades ao mês. Para se ter uma ideia, mesmo sendo uma das líderes em faturamento, em unidades vendidas ficamos em torno de 45 mil unidades em 2025”, diz o executivo. Os planos inclusive é exportar, futuramente.
“Os nossos maiores potenciais clientes estão vindo da Espanha e da Itália, onde já existe um acesso consolidado a produtos de cannabis. Como o nosso insumo fabricado no Brasil possui o selo da Anvisa, ele é muito bem-visto internacionalmente. É um órgão de alto prestígio e relevância mundial no tema da cannabis, inclusive, muitos países estão copiando o modelo regulatório brasileiro”, diz Leandro.
Regulação e acesso moldam o mercado

A expansão da FarmaUSA ocorre em um mercado que vem passando por mudanças regulatórias. As regras brasileiras estabeleceram caminhos distintos para o acesso a produtos derivados de cannabis, incluindo a importação por pacientes e a comercialização de produtos autorizados pela Anvisa. O mercado é bem mercado próspero, atingindo a marca de R$ 971 milhões em 2025 no Brasil, com potencial estimado, no entanto, de até R$ 9,5 bilhões, nos próximos anos.
Em 2026, novas resoluções avançaram sobre as condições para cultivo destinado a finalidades medicinais e de pesquisa, ampliando a discussão sobre a produção nacional. Dados da consultoria Kaya Mind indicam que o país possui 27 hectares cultivados com cannabis para fins terapêuticos, distribuídos entre estufas, áreas abertas e ambientes controlados. No entanto, com regras nacionais estabelecidas, as projeções apontam para um salto expressivo, com a área cultivada podendo superar 15 mil hectares no quarto ano de regulamentação, considerando todas as finalidades da planta, como flor, fibra e semente.
Da importação à fabricação nacional

A FarmaUSA nasceu em 2004, nos Estados Unidos, com uma proposta diferente da atual. A empresa foi criada por Djalma Beltrão para viabilizar o acesso a medicamentos sem registro no Brasil. Leandro entrou na sociedade em 2013, quando adquiriu parte da participação do primo e levou a operação para o mercado brasileiro.
O contato com o segmento de cannabis medicinal ganhou força entre 2014 e 2015, quando pacientes começaram a procurar a empresa em busca desses produtos. Em 2016, a FarmaUSA lançou sua própria marca, com fabricação nos Estados Unidos. A estratégia, conta Leandro, passou também pela aproximação com médicos e pelo trabalho de divulgação de informações sobre o uso medicinal desses produtos.
A fabricação no Brasil começou a tomar forma em 2021, quando a empresa alugou uma planta farmacêutica no bairro de Santo Amaro, na capital paulista. A obtenção das licenças necessárias levou cerca de cinco anos, segundo o executivo. “O nosso registro da fábrica saiu em meados de novembro e dezembro de 2025. Só estávamos aptos a vender a partir de dezembro de 2025,” diz Leandro.
Além das compras públicas e o mercado internacional, a empresa busca ampliar sua presença no varejo farmacêutico. Leandro menciona redes como Pague Menos, Araújo, Venâncio e Raia Drogasil entre os canais de interesse ou negociação. A entrada em farmácias representa uma mudança em relação ao modelo concentrado na importação, que sustentou a operação até o início das vendas dos produtos fabricados no país.
Estímulo à produção nacional de cannabis
Outra frente em avaliação é a formação de parcerias para obter matéria-prima cultivada no Brasil. A companhia assinou uma carta de intenção com a DNA, empresa de Petrolina, em Pernambuco, que trabalha no desenvolvimento de genética e de capacidade produtiva. O projeto ainda não está pronto para atender à demanda da indústria, e Leandro estima que o fornecimento de extrato produzido no país possa se tornar viável em dois a três anos.
Atualmente, a empresa importa extrato dos Estados Unidos e realiza no Brasil etapas de purificação e processamento para produzir o ingrediente farmacêutico ativo (IFA). Segundo o executivo, o processo permite alcançar pureza de 99%. Ele também afirma que a companhia recebeu da Anvisa uma autorização de importação de até uma tonelada, que descreve como a maior cota do país. A dimensão da autorização e sua utilização precisam ser diferenciadas do volume efetivamente importado.
A possibilidade de exportar o insumo abre outra perspectiva para a fábrica. A estratégia é vender o ingrediente para empresas que já tenham estrutura e autorização para fabricar produtos farmacêuticos nesses países. A exportação também pode ajudar a ocupar parte da capacidade industrial que ainda não encontra demanda suficiente no mercado brasileiro. A abertura comercial, porém, depende de negociações com compradores, das exigências regulatórias dos destinos e da comprovação de que a produção atende às especificações necessárias.