1. Início
  2. /
  3. Forbes Tech
  4. /
  5. Especial Inovadores Negros
  6. /
  7. ESPECIAL INOVADORES NEGROS: 16 profissionais que estão democratizando o acesso à saúde no Brasil
Especial Inovadores Negros

ESPECIAL INOVADORES NEGROS: 16 profissionais que estão democratizando o acesso à saúde no Brasil

Eles passaram por cima da falta de recursos de todos os tipos e hoje atuam nas healthtechs para mudar a realidade do atendimento no país

7 min
Divulgação
DivulgaçãoPablo Juan Morais da Cruz, da NESS Health: startups criadas nos trens da CPTM e do metrô

O racismo estrutural gerou efeitos devastadores que persistem e se agravam, desde a colonização do Brasil até os dias de hoje. Um exemplo que ilustra estes desdobramentos é o panorama atual da saúde no país, onde o acesso a serviços por parte da população negra tem sido difícil e restrito, muito antes da pandemia.

A discriminação racial que coloca estas pessoas em desvantagem quando o assunto é saúde pode ser verificada na segunda edição da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), publicada este ano. Segundo o estudo, que examina o acesso a serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), negros se consultam menos em médicos e dentistas e também encontram mais dificuldades para obter medicamentos receitados nas consultas em relação à população branca.

VEJA MAIS: Especial Inovadores Negros: 12 profissionais que estão levando a educação a outro nível no Brasil

Ainda segundo a PNS, pessoas negras são as que mais deixam de realizar atividades habituais, incluindo o trabalho, por motivos de saúde. A pesquisa mostra que, entre as pessoas que precisaram estacionar seus afazeres por problemas de saúde, 14,2% eram negros e 11% eram brancas.

No que diz respeito à serviços privados de saúde, o estudo mostra que o acesso a estes provedores privados é limitado a uma pequena parcela da população e esse recorte se torna ainda menor quando aplicado à população negra. Em 2019, 59,7 milhões de pessoas, ou 28,5% da população brasileira, possuíam algum plano de saúde, médico ou odontológico, segundo a PNS. O estudo destaca a relação direta entre a cor ou raça e e a cobertura de plano de saúde: entre os que podem pagar por um plano de saúde, 21.4% são negros e 38,8% são brancos.

Existe um risco de que tais tendências se perpetuem, agravados pela atual precarização do sistema de saúde pública e a atual crise socioeconômica. No setor privado, a digitalização do setor apresenta o potencial de uma exclusão ainda maior da população negra, com o uso intensivo de tecnologias como o aprendizado de máquina que podem não contemplar as demandas destas pessoas. Aspectos a considerar também incluem o aumento na provisão de serviços online, cada vez mais restritos a uma minoria hiper-conectada.

As healthtechs, startups de base tecnológica focadas no setor de saúde, ainda precisam avançar na democratização no acesso a serviços e na resolução de demandas específicas de pessoas negras. Segundo um levantamento divulgado em agosto pela empresa de inovação aberta Distrito, existem 542 startups focadas em saúde no Brasil, que levantaram US$ 430 milhões em investimentos desde 2014.

LEIA TAMBÉM: ESPECIAL INOVADORES NEGROS: 9 brasileiros que estão apostando na educação financeira e no crédito como arma de ascensão social

A maioria destas novas empresas adota um modelo B2B e foca no atendimento a outros negócios, particularmente no que é visto como um gargalo principal no setor, a área de gestão. Este segmento concentra a maioria das startups mapeadas no estudo (25.1%), ao passo que marketplaces de serviços e farmacêutica e diagnóstico respondem por 13,7% e 10.5% das empresas identificadas pelo estudo. A maioria das empresas mapeadas está baseada em São Paulo (43.1%), ao passo que somente 0,6% delas operam no Norte do país.

Demandas específicas

A startup baiana Afro Saúde vem na contramão das estatísticas e tendências, com uma plataforma que especialistas negros da área de saúde a pacientes negros. A plataforma, que já tinha um plano de monetização em curso, estacionou os planos temporariamente depois do surgimento da pandemia para desenvolver uma plataforma de telemedicina gratuita e focada na população periférica de Salvador, tornada possível através do capital semente recebido pelo programa de aceleração da Vale do Dendê e do valor arrecadado pela plataforma de matchfunding Enfrente.

Liderada pelo dentista Arthur Igor Lima e pelo jornalista Igor Leonardo, a empresa nasceu a partir da ideia de Arthur para conectar profissionais e pacientes negros, e dos desafios enfrentados por Igor quando precisou de um tratamento dermatológico para um problema muito frequente da pele negra e passou por diversos profissionais e tratamentos que não resolveram totalmente o seu problema.

“A população negra possui um histórico de sofrer racismo e negligência na área da saúde, tanto no SUS quanto no setor privado e imaginei que, conectando essas duas pessoas, poderíamos resolver um problema que se desdobra para os dois lados”, explica o empreendedor, ressaltando que analisar o mesmo problema da perspectiva do profissional e do paciente foi essencial para a construção da AfroSaúde, pois possibilitou que os fundadores se aproximassem ainda mais do problema que estão buscando resolver.

LEIA MAIS: Vale do Dendê potencializa inovação na periferia de Salvador

No entanto, os fundadores enfrentam as dificuldades comuns a empreendedores negros, como acesso a fundos de investimento. Arthur frisa que em pouco mais de um ano de existência, a AfroSaúde já conseguiu validar a ideia, desenvolver um protótipo e sofisticar o argumento em torno da proposta: “No início, alguns ainda viam a nossa solução como algo que segregava. Mas conseguimos deixar de forma clara a nossa proposta de valor sobre visibilidade aos profissionais negros, movimentação e fortalecimento da economia entre os afrodescendentes. E como resultado, a promoção da saúde”, aponta.

Segundo Arthur, as recentes movimentações do setor de tecnologia para apoiar empreendedores negros – como a parceria da gigante de tecnologia Qintess e a Vale do Dendê, bem como o lançamento do Black Founders Fund, da Google – mostram indícios de uma mudança está em curso, devem gerar resultados mais concretos em alguns anos. Porém, o fundador ressalta que é importante que a pauta antirracista não se perca e iniciativas continuem sendo realizadas: “O boom que a temática teve nos últimos meses estão mostrando quem de fato na prática se mostra antirracista e vai além da #BlackLivesMatter.”

O empreendedor cita a liderança da Vale do Dendê como figuras essenciais para a continuidade do desenvolvimento da AfroSaúde: “Eu, Igor e a AfroSaúde não teríamos chegado até aqui se não tivéssemos suporte e orientação. Participamos do programa de aceleração da Vale do Dendê e pudemos nos aproximar de Ítala Herta e Paulo Rogério, que eu considero os padrinhos da AfroSaúde. Sem eles e a Vale a gente não teria caminhado tanto”, frisa.

A representatividade de profissionais negros entre fundadores de startups do setor de saúde e dentro das empresas atuantes no setor é crucial, segundo Arthur, que aponta a relevância da representatividade, a diversidade e inclusão para o sucesso de organizações, e que isso também vale para a indústria da saúde. Além disso, o fundador da AfroSaúde ressalta o ponto de que as necessidades do público negro também precisam ser atendidas:

“A população negra possui especificidades em saúde que também devem ser englobadas nas novas tecnologias, assim como a mulher e a população LGBT também tem as suas particularidades. Aqui a diversidade deve surgir nos dois lados: quem faz, na liderança e na gestão, e também para quem é feito”, pontua.

Siga FORBES Brasil nas redes sociais:

Facebook
Twitter
Instagram
YouTube
LinkedIn

Baixe o app da Forbes Brasil na Play Store e na App Store.

Tenha também a Forbes no Google Notícias.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.