O próximo observatório de ponta da NASA, frequentemente descrito como o sucessor do Telescópio Espacial Hubble, está prestes a deixar o Goddard Space Flight Center da NASA, em Maryland, rumo ao Kennedy Space Center, na Flórida. Lá, ele passará pelas preparações finais para o lançamento, planejado para acontecer já em setembro a bordo de um foguete Falcon Heavy da SpaceX.
Em um anúncio feito na segunda-feira, 1º de junho, a NASA informou que o Telescópio Espacial Roman, recentemente concluído, viajará a bordo da balsa Pegasus da agência, com o lançamento definitivo planejado para o Complexo de Lançamento 39A.
A jornada marca o início do capítulo final antes do lançamento de uma missão que pode mudar radicalmente a compreensão dos astrônomos tanto sobre o universo quanto sobre os planetas que povoam a nossa galáxia.
Uma Nova Era Além do Hubble
Batizado em homenagem à primeira astrônoma-chefe da NASA — a mulher frequentemente chamada de “Mãe do Hubble” –, o Telescópio Espacial Roman combina um espelho de 2,4 metros (do mesmo tamanho do Hubble) com um campo de visão cerca de 100 vezes maior.
Essa combinação única permitirá ao Roman gerar as primeiras imagens panorâmicas de varredura do universo, ajudando os cientistas a investigarem a energia escura, estudarem a evolução cósmica e buscarem planetas fora do nosso sistema solar.
Enquanto o Hubble transformou a astronomia com suas observações profundas e focadas em objetos específicos, o Roman será capaz de escanear regiões enormes do céu, revelando potencialmente milhões de objetos cósmicos até então invisíveis. Um dos principais objetivos do Roman será descobrir um novo tipo de exoplaneta.
Em Busca de 100 Mil Novos Mundos
Os cientistas esperam que a missão identifique cerca de 100 mil novos planetas, um salto impressionante em comparação aos quase 6.300 exoplanetas descobertos até hoje. Muitos deles serão mundos pequenos em órbitas longas — uma categoria de exoplaneta que até agora escapava dos astrônomos — e em regiões da Via Láctea que a astronomia mal explorou.
“Nossa galáxia abriga uma variedade de ambientes diferentes, mas, quando o assunto é caçar exoplanetas, nós só exploramos um de verdade: o nosso próprio quintal”, disse no final de maio Elisa Quintana, pesquisadora de exoplanetas no Goddard Space Flight Center da NASA em Greenbelt, Maryland. “O Roman vai expandir essa busca o suficiente para englobar outros habitats galácticos, o que pode nos ajudar a entender como a formação de planetas varia em diferentes regiões da Via Láctea.”
O Roman buscará planetas usando tanto observações de trânsito quanto microlente gravitacional, uma técnica capaz de detectar mundos difíceis ou impossíveis de encontrar por outros métodos. Os cientistas esperam que a missão descubra desde gigantes gasosos até planetas rochosos com tamanhos semelhantes aos da Terra e de Marte.
Roman vs. Kepler vs. Gaia
Assim que estiver no espaço, o Roman deve se tornar um dos instrumentos de mapeamento astronômico mais poderosos já construídos. Trata-se, essencialmente, de uma continuação muito mais potente da missão Kepler da NASA, que mapeou 100 mil estrelas e encontrou milhares de exoplanetas entre 2009 e 2018.
“O mapeamento do bojo galáctico feito pelo Roman vai observar cerca de 100 milhões de estrelas e sondar áreas pouco exploradas da nossa galáxia, o que fornecerá uma base de dados fundamental que também vai revolucionar o que sabemos sobre outros mundos e o nosso lugar no universo”, afirmou Jorge Martínez-Palomera, astrônomo do NASA Goddard que está se preparando para os dados de exoplanetas do Roman.
O Roman também é complementar à sonda Gaia, da Agência Espacial Europeia, que, entre 2013 e 2025, fez três trilhões de observações de dois bilhões de estrelas na Via Láctea usando luz visível. O Roman vai detectar luz infravermelha para enxergar além da poeira estelar, permitindo que os astrônomos observem através da parte mais densa da galáxia pela primeira vez.
De WFIRST a Roman
A jornada do Roman até a plataforma de lançamento não foi simples. Antes de ser rebatizada em 2020, a missão era conhecida como Wide Field Infrared Survey Telescope (WFIRST). O projeto enfrentou um futuro incerto quando o governo Trump propôs o cancelamento do projeto em suas propostas orçamentárias de 2019 e 2020.
Na época, os temores giravam em torno do custo da missão e do foco da NASA em concluir o Telescópio Espacial James Webb. No fim das contas, o Congresso rejeitou a proposta de cancelamento e manteve o financiamento do desenvolvimento, preservando o que muitos astrônomos consideravam uma das missões científicas futuras mais importantes da agência. O JWST foi lançado com sucesso em 25 de dezembro de 2021.
Com a expectativa de se tornar um dos observatórios astronômicos mais produtivos já construídos, o Roman pode transformar a compreensão da humanidade sobre exoplanetas, energia escura e a estrutura do cosmos — e se tornar tão icônico quanto o Hubble foi e continua sendo.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com