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O Que 100 Milhões de Brasileiros Mostram sobre Construção de Carreira

Independentemente da área de atuação, as trajetória profissionais deixaram de seguir um padrão e passaram a refletir caminhos diversos e autorais

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Há alguns anos, era comum ouvir que carreira era uma escolha feita no início da vida. As pessoas escolhiam uma profissão, conquistavam um diploma e, com alguma sorte, passavam décadas na mesma empresa. O mercado mudava lentamente e a experiência acumulada parecia suficiente para acompanhar esse ritmo. Hoje, é quase redundante dizer que esse formato ficou para trás.

Conheço profissionais que começaram como vendedores e hoje trabalham com análise de dados. Outros deixaram grandes empresas para empreender. Há quem combine diferentes fontes de renda, atue em projetos temporários ou mude completamente de área depois dos 40 anos. Eu mesmo comecei minha carreira em Engenharia Mecânica e, ao longo do tempo, segui caminhos que naquele início não estavam, nem de longe, previstos no roteiro. Esses relatos, que antes chamavam atenção, passaram a fazer parte do cotidiano e dizem muito sobre a forma como o trabalho vem se transformando, especialmente no Brasil.

Recentemente, o LinkedIn alcançou a marca de 100 milhões de usuários no país. Para mim, esse número surpreende menos pelo tamanho da plataforma e muito mais pelo que ele indica sobre o mercado de trabalho hoje. Para se ter uma ideia, essa base se aproxima do tamanho da força de trabalho brasileira, estimada pelo IBGE em cerca de 108 milhões de pessoas, o que permite observar com bastante riqueza como o comportamento dos profissionais vêm se transformando, especialmente na forma como passamos a construir nossas carreiras.

Durante muito tempo, desenvolvimento profissional parecia um assunto restrito ao universo corporativo. Hoje, essa conversa atravessa praticamente todos os setores da economia. Envolve profissionais da saúde, da beleza, da indústria, do varejo, da construção civil, da economia criativa, do agronegócio, além de milhões de empreendedores. As carreiras deixaram de seguir um padrão único e passaram a refletir caminhos muito mais diversos e autorais. E acredito que o Brasil é um terreno especialmente fértil para essa transformação.

Vivemos sucessivas mudanças econômicas, tecnológicas e sociais nas últimas décadas. Em um ambiente tão dinâmico, desenvolvemos uma capacidade rara de experimentar novos caminhos, reinventar trajetórias e transformar mudanças em oportunidades.

Os dados reforçam essa nossa característica. O Índice de Empreendedorismo do LinkedIn cresceu 22,6% no Brasil na comparação anual. Mais do que um movimento isolado, esse avanço mostra um mercado em que diferentes formas de atuação passam a fazer parte do mesmo contexto.

Isso também ajuda a entender o impacto da inteligência artificial. Costumamos tratar a IA como o início de uma nova era, mas, na prática, ela acelera uma transformação que já estava em curso, na qual as carreiras deixam de ser delimitadas apenas pela formação acadêmica ou pelo tempo de empresa e passam a exigir atualização constante.

Agora, competências técnicas têm ciclos de vida cada vez mais curtos, enquanto habilidades como pensamento crítico, comunicação, colaboração e capacidade de aprender continuamente ganham peso em praticamente todas as profissões. A vantagem competitiva deixou de estar apenas no que se sabe hoje e passou a depender, cada vez mais, da rapidez com que se consegue desenvolver o que será preciso saber amanhã.

Acredito que essa seja a principal história por trás dos 100 milhões. Não a de um país que alcançou um número simbólico, mas a de uma sociedade que ampliou o significado de carreira. O futuro do trabalho não está apenas nas novas tecnologias ou nos novos modelos de negócio, mas na forma como as pessoas passaram a conduzir, com mais intenção e mais presença, a própria vida profissional.

Mais do que acompanhar as mudanças do mercado, construir uma carreira hoje significa desenvolver a capacidade de mudar junto com ele. E talvez esse seja o principal ativo profissional das próximas décadas.

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