O fundador e presidente do conselho da Totvs, Laércio Cosentino, usou o palco do Universo Totvs 2026, evento realizado em São Paulo, para falar menos de produto e mais de gente. Ele propôs olhar a era da IA a partir de três ideias: sucessão, transição e equilíbrio. Em um contexto em considera ser um paradoxo, pois vivemos cada vez mais, enquanto a tecnologia nos torna obsoletos cada vez mais rápido.
“A vida ficou mais longa e a tecnologia ficou mais rápida. Os dois relógios mudaram de ritmo”, afirmou. Para Cosentino, isso significa que a transição deixou de ser um evento único na carreira e passou a se repetir ao longo da vida. Engenheiro de formação, ele lembrou que, na sua época, quem se formava usava o mesmo livro de quem entrava na faculdade. Hoje, isso seria impensável.
A conta da longevidade também pesa no bolso. Quem se aposenta por volta dos 65 anos e chega aos 100 terá mais três décadas pela frente. “Mais tempo de vida exige mais recursos”, disse Cosentino. Por isso, defendeu que as pessoas poupem mais e continuem se atualizando para seguir ativas.
A mesma lógica vale para as empresas. Cosentino citou a trajetória da própria Totvs, que nasceu do ERP e acaba de lançar o Corten, apresentado pelo CEO Dennis Herszkowicz como um “sistema operacional de gestão”. Segundo ele, as grandes mudanças nos negócios levavam 50 anos e hoje acontecem a cada cinco. Sobre o debate do “SaaSpocalypse”, foi direto: o ERP vai continuar existindo, mas não é mais o que faz a diferença.
Na mesma linha, tratou a inteligência artificial como fato consumado. “A IA vai revolucionar? Já revolucionou. A IA vai mudar minha vida? Já mudou.” Em vez de temer a tecnologia, sugeriu encará-la como um novo colega de time, mais bem preparado. “Quando a gente entende que a IA é mais um concorrente, começa a dizer: eu não tenho que ter receio, eu tenho que me preparar.” Ele argumentou que duas empresas com agentes treinados da mesma forma chegarão a respostas parecidas, e que o diferencial continuará sendo humano.
Para isso, segundo o executivo, é preciso desaprender. Ele criticou quem usa a experiência como trunfo: “Quando alguém fala ‘eu tenho mais experiência que você’, é o começo do fim”.
A sucessão empresarial fechou a palestra. Com vidas mais longas, o herdeiro pode assumir aos 70 anos, e talvez a sucessão pule uma geração. Cosentino, que já deixou o comando executivo da TOTVS, admitiu que é difícil para um fundador desapegar. Também defendeu que legado vai além do dinheiro. “Uma coisa é transmitir recursos. Outra coisa é transmitir critérios”, afirmou.
Ele deixou à plateia quatro perguntas: que conhecimento preciso atualizar, que decisão já posso compartilhar, qual é o meu plano de futuro e que conversa difícil estou adiando. E resumiu a mensagem: “Preparar o futuro sem adiar a vida e os negócios. Eu vou viver mais, tenho mais saúde, vou poder ter mais energia. Mas, ao mesmo tempo, tenho que poupar, tenho que investir, tenho que me atualizar”, afirmou.